Um mundo construído a partir de pinceladas à mão esconde, em suas misturas de cores, um lugar hostil, repleto de ameaças e segredos. Realm of Ink reserva uma jornada em um universo inspirado na cultura chinesa que envolve tanto por sua beleza visual quanto pelo combate frenético, fortemente inspirado em Hades.
Depois de anos vendo o gênero roguelite crescer com experiências como o já citado Hades, Dead Cells e tantos outros sucessos, parece cada vez mais difícil encontrar um jogo capaz de trazer algo realmente diferente para a fórmula. Realm of Ink tenta fazer exatamente isso ao trocar os deuses gregos por uma aventura inspirada na arte tradicional chinesa, onde tinta, pinceladas e personagens conscientes de sua própria existência dão vida a um universo belo e misterioso. Mas será o suficiente para se destacar em um gênero tão disputado?
Um mundo feito de tinta
Realm of Ink nos coloca no controle de Red, uma espadachim que, durante sua jornada, começa a notar que existe algo errado com o mundo ao seu redor. Aos poucos, ela descobre que sua realidade faz parte de uma história escrita dentro de um livro e que existe uma força maior controlando os acontecimentos. Saber que os personagens têm consciência de que são personagens já é suficiente para nos instigar nessa aventura.
A história parece simples em um primeiro momento, mas rapidamente ganha contornos mais interessantes ao brincar com conceitos de destino, livre-arbítrio e personagens que começam a questionar o papel que receberam dentro daquela narrativa, o que, às vezes, gera momentos até cômicos. Mas não espere uma história contada de forma convencional. Assim como outros roguelites, Realm of Ink entrega boa parte de seu contexto aos poucos, conforme avançamos nas tentativas e desbloqueamos novos diálogos.

O que realmente chama atenção desde o primeiro minuto é sua direção artística. Todo o universo parece construído a partir de pinturas feitas com tinta nanquim. Árvores, montanhas, rios e construções possuem um visual que mistura pintura tradicional oriental com animações modernas. É lindo tanto na TV quanto no modo portátil do Switch.
Os cenários parecem páginas de um pergaminho ganhando vida diante dos nossos olhos. Honestamente, depois de ter visto as páginas de Yoshi and the Mysterious Book ganharem vida, foi interessante encontrar outra proposta com esse aspecto. Os designs dos personagens e das criaturas são um charme à parte, inclusive cada chefão reserva boas surpresas por serem tão bem elaborados.

Apesar de toda sua beleza, curiosamente, as cutscenes de Realm of Ink no Switch 2 se apresentam em baixíssima resolução, quase como um canal de TV analógica com problemas de sinal. Tentei até reinstalar o jogo, mas não fez diferença alguma e é uma pena, já que atrapalha um bocado as transições de cena, embora não haja diálogos nesses momentos. Já rolou uma atualização desde seu lançamento, mas ela ainda não corrigiu esse detalhe.
Felizmente, a gameplay tem um bom desempenho quase todo o tempo. Somente no início de cada sala dá para notar um leve delay, onde os inimigos se movimentam antes de podermos assumir o controle da espadachim. Ainda assim, mesmo quando repetimos áreas diversas vezes, é difícil não admirar a forma como as cores se misturam com os efeitos de partículas e com as pinceladas que surgem durante os combates. É um verdadeiro show de cores e transformações preenchendo a tela.

Realm of Ink possui legendas e menus em português, o que é maravilhoso para compreender sua história e também seus diversos menus de itens, elixires, criaturas e demais informações. Com a atualização mencionada, os textos foram ajustados para caber dentro da tela, já que antes as caixas de diálogo ultrapassavam os limites, deixando algumas informações e até opções incompreensíveis.
Os reflexos rápidos de Realm of Ink
Além da arte chamar atenção, é o combate que sustenta a experiência. Realm of Ink segue a fórmula clássica dos roguelites de ação. Entramos em uma sequência de salas repletas de inimigos, coletamos melhorias temporárias durante a partida e tentamos avançar o máximo possível antes de sermos derrotados (o que é inevitável. Goste ou não, isso quase funciona como um requisito para evoluir e avançar na história).

Os combates são extremamente ágeis e exigem movimentação constante. Esquivas, ataques especiais e habilidades precisam ser combinados o tempo inteiro para lidar com grupos de inimigos que rapidamente lotam a tela. Para ajudar, existe o suporte da criatura Momo. O bichinho se transforma a cada Relíquia de Tinta que você encontra. Sem dúvidas, é divertido acompanhar essas transformações, que lembram algo entre Pokémon e Digimon.
O pet é uma das mecânicas mais interessantes de Realm of Ink. Cada transformação oferece diferentes tipos de habilidades passivas ou ataques automáticos. Dependendo das combinações escolhidas, os companheiros podem aumentar dano, controlar grupos de inimigos ou complementar estilos específicos de combate.
Companheiros improváveis
Momo e Red ganham habilidades diferentes conforme os equipamentos de tinta são adquiridos. Dá para carregar duas pedras ao mesmo tempo e, conforme você aprimora seus poderes, elas podem ser combinadas em uma terceira habilidade, o que gera um verdadeiro apocalipse visual na tela. E o melhor: é extremamente divertido.

Dentre os poderes, existem ciclones, venenos, efeitos congelantes, elétricos, bolas de fogo, invocações de clones, demônios e até outras criaturas e insetos impensáveis. São muitas variações capazes de modificar completamente a sua jogatina. Claramente vale mais a pena ficar atento às opções que tornam você mais forte do que às que deixam o Momozinho mais estiloso, risos.
Mais adiante, Realm of Ink apresenta novas armas, elixires e estilos de combate. Cada um deles altera significativamente a forma de jogar. Algumas opções favorecem ataques rápidos e agressivos, aumentam o dano de habilidades e pets ou até melhoram sua saúde, enquanto outras recompensam uma abordagem mais estratégica. Vale lembrar, porém, que a maioria dessas vantagens só permanecerão com você durante a run.

Toda essa variedade é essencial para um roguelite e ajuda a manter as partidas interessantes mesmo após várias horas. Pouco a pouco, o jogador deixa de apenas reagir aos desafios e passa a construir verdadeiras fórmulas capazes de transformar completamente uma partida, sempre atento ao que realmente vale a pena equipar, trocar ou descartar.
Esses sistemas adicionam camadas de personalização à experiência, algo importante para um jogo baseado em repetição constante, não é mesmo? Isso ajuda a perceber a progressão tanto na narrativa quanto na evolução dos próprios personagens.
Nesse sentido, Realm of Ink acerta bastante e acaba sendo extremamente viciante, daqueles jogos em que você simplesmente não percebe o tempo passar.

Fora das partidas, você é carregado de volta a um templo por uma raposa gigante. Sua enorme cabeça na entrada do templo lembra bastante a policial Aylin, de Luna Abyss. É nesse lugar que realmente percebemos aquilo que permanece após as derrotas, já que Realm of Ink também oferece sistemas de progressão permanentes.
Escolhendo sua próxima espadachim
Você vai encontrar um painel para adquirir melhorias de atributos, novas personagens (sim, existem diferentes espadachins e cada uma conta com estilos próprios de combate), além de novas opções de batalha e roupas que vão sendo desbloqueadas aos poucos.
Essa evolução contínua garante aquela sensação clássica de “só mais uma tentativa para ver o que mais vou ganhar”. Mesmo quando uma corrida termina de forma frustrante, quase sempre existe alguma recompensa que contribui para o próximo avanço. Sem contar que os diálogos mudam mesmo quando você perde.

O jogo está abarrotado de possibilidades, inclusive com finais diferentes, tá? E, apesar de os trajetos até o final serem relativamente curtos, somando todos os finais, espere boas horas de jogatina. Isso sem contar aqueles que quiserem obter todos os desbloqueáveis que o jogo oferece, neste caso, há muito o que explorar.
Realm of Ink não tenta reinventar completamente o gênero, mas encontrou maneiras inteligentes (e lindas) de construir sua própria identidade. Seu combate rápido e satisfatório, aliado à excelente direção artística, aos pets e aos sistemas de personalização, cria uma experiência capaz de prender completamente o jogador, mesmo com os pequenos deslizes de desempenho no Switch, algo que provavelmente será corrigido com futuras atualizações.

Talvez sua história não seja o principal motivo para continuar jogando porque, honestamente, a arte e a ação acabam chamando mais atenção por aqui. Alguns elementos também podem soar familiares. Ainda assim, a forma como tudo é apresentado faz com que Realm of Ink encontre um jeito de surpreender em meio a tantas opções.
No fim, essa aventura entende perfeitamente o que torna os roguelites tão viciantes e usa isso ao seu favor. A camada artística, que é puro charme, reforça sua estratégia. Se você procura um jogo de ação frenética, visual marcante e dezenas de combinações para experimentar, Realm of Ink merece sua atenção.
Prós:
🔺A direção artística é inspirada em pinturas chinesas
🔺O combate é rápido, frenético e extremamente viciante
🔺Tem grande variedade de armas e combinações de habilidades
🔺O sistema de pets realmente impacta a gameplay
🔺A Progressão constante incentiva novas tentativas
🔺Tem boa quantidade de conteúdo para desbloquear
Contras:
🔻As cutscenes em baixa resolução no Switch 2 são estranhas
🔻Possui pequenos atrasos ao entrar em algumas salas
Ficha Técnica:
Lançamento: 26/05/2026
Desenvolvedora: Leap Studio
Distribuidora: 4Divinity
Plataformas: PS5, Xbox Series, PC, Switch
Testado no: Switch 2


