Infinitevania chega como uma carta de amor muito consciente aos metroidvanias clássicos, mas com identidade brasileira suficiente para não soar como simples homenagem. O resultado é um jogo que entende bem o que faz esse gênero funcionar, fruto do excelente trabalho do estúdio brasileiro JHT Games, com exploração recompensadora, combate preciso, chefes memoráveis e uma ambientação cheia de personalidade.

Quando a porta de casa vira portal

De Caverna do Dragão aos Isekais modernos, o jogo busca uma premissa direta e eficiente, com Garoto, o protagonista, recebendo a notícia de que a mãe saiu do coma e precisa correr para o hospital, mas ao abrir a porta de casa, ele é engolido por um portal que o leva ao mundo de Infinitevania.

Infinitevania

Já nesse lugar misterioso, um ancião surge para guiá-lo numa jornada de retorno, enquanto o protagonista precisa destruir o núcleo desse universo para voltar para casa. A história não depende de grandes reviravoltas para funcionar, pois ela aposta no carisma, nos diálogos bem-humorados e no clima de aventura absurda que combina com a proposta.

O que sustenta a narrativa, porém, não é apenas a trama principal, e sim o jeito como o jogo espalha diários pelo mapa para ampliar o entendimento do mundo, dos personagens e das criaturas. Essa camada extra dá mais peso à exploração e faz o universo parecer maior do que a linha principal sugere. Em um metroidvania, isso importa muito, porque faz cada retorno a uma área antiga parecer menos burocrático e mais revelador.

Infinitevania

Infinitevania não esconde suas referências a Castlevania: Symphony of the Night e Hollow Knight, mas o interessante é que elas não ficam só na superfície. O jogo absorve a estrutura dos clássicos, a cadência do combate, o ritmo da exploração e até a forma como recompensa o jogador, mas tempera tudo com humor, personalidade brasileira e um respeito genuíno ao público fã de games e anime.

Um tributo que não tem medo de ser fã

Essa mistura rende momentos que vão além da nostalgia fácil, com piadas internas, personagens com falas marcantes e um senso de carisma que conversa bem com quem cresceu cercado por cultura pop, RPGs, animes e jogos de ação 2D. Não é só um jogo inspirado em alguma coisa, mas sim um título indie nacional que quer dialogar com a memória afetiva do jogador sem perder a própria voz.

Infinitevania

Dentre as mecânicas presentes no gênero, Infinitevania aposta em um sistema de combate que claramente bebe da escola de Hollow Knight, especialmente no uso da cura, enquanto mantém a movimentação e a sensação de avanço muito próximas do que se espera de um bom metroidvania moderno, com um palpite da minha parte em tentar resgatar um estilo Prince of Persia original, de MS-DOS. O protagonista ganha ferramentas clássicas do gênero, como pulo duplo e dash, além de um sistema de espíritos que amplia habilidades e atributos ao longo da jornada.

Esse sistema de espíritos é um dos elementos mais interessantes porque adiciona uma camada de personalização sem complicar demais a experiência. Ao encontrar essas almas, o jogador pode equipá-las e ajustar sua build de acordo com seu estilo, o que ajuda a dar variedade às lutas e à exploração. É uma solução simples, mas eficaz, que conversa bem com a proposta de evolução constante do personagem.

Infinitevania

Infinitevania apresenta regiões distintas numa estrutura de áreas que consegue se destacar, como os padrões floresta e vulcão, além do Castelo de Etrom, que é uma das locações mais interessantes do jogo por sua inspiração no castelo do Drácula e pelo nível de desafio que oferece. Esse é o tipo de fase que me fez sorrir pela nostalgia ao mesmo tempo em que fazia sofrer com armadilhas e caminhos traiçoeiros.

No entanto, os desenvolvedores não pesaram a mão na dificuldade, pois o jogo recompensa seu esforço com muitas recompensas e que podem até enfraquecer um pouco a curva de dificuldade. Dinheiro, artefatos, melhorias de vida e recursos surgem com bastante frequência, permitindo que o jogador fique forte rapidamente, diminuindo parte da tensão que um metroidvania costuma construir.

Arte que respira cultura pop

Visualmente, Infinitevania trabalha muito bem sua identidade por meio de uma pixel art desenhada à mão, e a variedade de mundos ajudam a criar cenários que não parecem apenas blocos de fase, mas espaços com intenção estética e narrativa. A equipe da JHT Games conseguiu dar ao jogo uma cara própria, e isso é importante num gênero que vive cercado por comparações.

Infinitevania

O Castelo de Etrom, por exemplo, concentra o tipo de reverência visual que fãs de Castlevania costumam adorar, mas sem parecer uma cópia. Há também personagens com designs marcantes, que reforçam a sensação de um projeto feito com carinho e atenção aos detalhes, numa escolha estética que contribui para que o jogo pareça ser mais autoral e menos dependente das referências que o alimentam.

Infinitevania carrega o mesmo cuidado em sua trilha sonora, com o espetacular trabalho de Tatyana Jacques, com melodias que absorvem as referências certas e ainda assim entregam personalidade própria, o que é justamente o que uma boa homenagem precisa fazer. Em um jogo de exploração e chefes intensos, a música carrega boa parte da atmosfera, e aqui ela cumpre esse papel com segurança.

Infinitevania

A dublagem brasileira também chama atenção por aproveitar bem o tom cômico da obra, com falas durante golpes, ataques anunciados pelos próprios personagens e participações que reforçam o clima de paródia carinhosa ao universo gamer, incluindo o trabalho de Guilherme Damiani como Nilbog. Esse conjunto ajuda muito na imersão e dá ao jogo um sabor local que faz diferença na experiência final.

Se você chegou ao final deste review ainda na dúvida se Infinitevania é um bom jogo, então tenha certeza de que é um daqueles jogos que ganham força justamente por saber exatamente o que deseja entregar para os fãs. A JHT Games não tenta reinventar o gênero metroidvania, mas busca homenageá-lo com técnica, humor e um estilo brasileiro muito bem-vindo. Para quem gosta de ação 2D, backtracking muito bem justificado, chefes desafiadores e referências geek bem encaixadas, Infinitevania com certeza está entre os melhores jogos do ano e merece atenção imediata.

100 %


Prós:

🔺Level design excelente
🔺Movimentação e combate fluidos
🔺História carismática e diálogos divertidos
🔺Muitas referências geek e aos jogos clássicos
🔺Sistema de espíritos é uma boa adição
🔺Trilha sonora e dublagem brasileira de qualidade
🔺Pixel art com identidade visual própria

Contras:

🔻Recompensar bastante o jogador nem sempre é um problema

Ficha Técnica:

Lançamento: 24/07/2026
Desenvolvedora: JHT Games
Distribuidora: JHT Games
Plataformas: PC

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