É possível se sentir confortável fora da sua zona de conforto? Sou um jogador majoritariamente de títulos de RPG e FPS, com a mente aberta para meia dúzia de outros gêneros. Simuladores não estão incluídos. Porém, aceitei o desafio de analisar The Bus e me peguei sentindo uma paz que nunca senti antes. Cinco anos depois, estou novamente curtindo um simulador de motorista de ônibus: Bus Bound.
Obviamente, existem muitas semelhanças entre os dois títulos. Não há muito o que se adicionar a uma fórmula, principalmente quando ela tem os pés (ou, no caso, as rodas) firmes na realidade. Ainda assim, a desenvolvedora still alive studios ousa adicionar um componente igualmente prazeroso na jogabilidade: contexto. O resultado é um simulador agradável com uma mensagem otimista sobre as vantagens do transporte coletivo no ambiente urbano.

Casual se vai ao longe
Dito isso, seria inútil fingir familiaridade com o gênero ou erudição. Ainda assim, Bus Bound oferece uma experiência muito mais amistosa do que The Bus. Naquele, o padrão era utilizar uma ampla gama de botões para realizar tarefas, desde acender a luz interna do veículo, até abaixar a suspensão para os passageiros embarcarem e desembarcarem, com uma opção de simplificar tudo para um conjunto mínimo de botões. Aqui, o padrão é apresentar um conjunto mínimo de botões, permanentemente expostos na tela, com a opção de ir ampliando a complexidade em busca de mais realismo.
Essa escolha de design da desenvolvedora permite que o jogo funcione tanto para o jogador casual que só deseja fazer alguns trajetos por uma cidade digital depois de um longo dia de trabalho real, quanto para o entusiasta de simuladores que montou um cockpit com volante em casa. Da visão interna da cabine, é possível controlar cada aspecto da viagem e do ônibus apertando botões no painel, o que aumenta a imersão dos pilotos virtuais.

No aspecto da Física do veículo, Bus Bound não complica demais. Dirigir um ônibus por um centro urbano está muito longe de ser uma atividade sequer parecida com meter o pé no acelerador sem medo de ser feliz de um Need For Speed, mas também está longe de ser um exercício de precisão, controle e frustração como estacionar em um Euro Truck Simulator. A still alive studios tem um currículo considerável, com títulos como Bus Simulator 21 e Bus Simulator 18, mas escolheu aqui o caminho do meio, em que o realismo não pode ser um obstáculo para a diversão, mas seu aliado. Apesar de tudo, é indispensável prestar atenção nas curvas, na capacidade de frenagem e outros detalhes que mudam de ônibus para ônibus, para evitar acidentes.
Em contrapartida, no aspecto técnico, Bus Bound deixa a desejar em alguns pontos. A IA dos outros carros ou é realista demais ou estúpida demais. O fato é que é muito complicado levar a vida como motorista de ônibus quando os outros motoristas parecem ignorar que o seu veículo está em um cruzamento. Múltiplas vezes, o sinal estava aberto para mim, eu estava cruzando com um ônibus gigante na frente da pista e, ainda assim, algum carro batia na minha lateral. Em todos os casos, eu era penalizado como se o erro fosse meu. Faltou um botão para colocar a cabeça pra fora do ônibus e gritar: “não está me vendo, não?”.

A IA dos “domingueiros” é estranha ao ponto de eu estar parado no ponto, pegando passageiro, e algum carro bater na lateral do ônibus, tentando entrar na minha faixa. É necessária uma precisão quase impossível para sair do ponto sem arranhar a pintura do desavisado, o que me rende uma punição. Faltou um botão para descer do ônibus com a chave de roda na mão e disposição pra tretar.
Bus Bound precisa de uma lanternagem
Os problemas de IA acabam se tornando pitorescos depois de um tempo e praticar direção defensiva adiciona uma nova camada de desafio. O real problema de Bus Bound está na sua falta de otimização. O título leva uma quantidade inacreditável de tempo para compilar shaders em sua execução inicial, ao ponto de quase desistir de analisar depois de tentativas que levaram 30 minutos. O jogo só se tornou jogável no dia em que deixei a compilação acontecendo e fui lavar uma pia cheia de louça do dia anterior. E, mesmo assim, a cada nova sessão, uma nova compilação era uma barreira de vários minutos antes de conseguir entrar no jogo.

Tanta compilação para entregar um jogo que seria bonito, se tivesse sido lançado umas duas gerações atrás. Grand Theft Auto V dispõe de uma cidade significativamente maior e mais bonita e é um título com mais de doze anos de idade. A still alive studios tem uma fração do orçamento da Rockstar Games, evidentemente, mas a tecnologia evoluiu, custos foram barateados, não há nada que justifique um visual tão ultrapassado. The Bus, de cinco anos atrás, era igualmente pesado, mas visualmente superior (exceto no quesito modelagem de pedestres).
Em sessões mais longas, Bus Bound começa a manifestar inconsistências que podem indicar vazamento de memória. Passageiros aguardando nos pontos de ônibus podem surgir enterrados meio metro abaixo do chão ou flutuando meio metro acima. Batidas que gerariam reclamações dos passageiros não são registradas. O calor que emana das entranhas do PC é vulcânico. Porém, é importante informar que joguei uma versão prévia destinada à imprensa, com quase um mês de antecedência. Há uma esperança de que o título tenha sido lançado com mais otimização e correção de bugs.

A mudança começa por você
Se a parte técnica é o ponto fraco desse motor, a parte narrativa é o ponto forte. Não que Bus Bound tente empurrar ao jogador uma historinha, com personagens, diálogos, mini-dramas ou algo parecido. Não há necessidade. Há um ensaio disso no começo, mas ele não evolui além do dispensável. O investimento da desenvolvedora está no contexto geral do modo carreira. Estamos aqui para mudar essa cidade.
A cada linha desbloqueada, a cada serviço bem feito, vamos conquistando a confiança dos moradores dessa cidade. O primeiro bairro em que essa empresa obteve o contrato de transporte está caidaço. Pouco a pouco, vamos mudando a percepção das pessoas em relação à vizinhança e elas vão abrindo mão dos carros. Isso permite que a prefeitura repagine o bairro, reformando prédios, criando faixas exclusivas para ônibus, melhorando a mobilidade, adicionando calçadas e transformando a região em um destino para mais pessoas. Bus Bound ainda oferece uma viagem inaugural pós-reformas, em que transportamos passageiros que vão se deslumbrando com como tudo ficou mais bonito. É estranho escrever, mas dá um quentinho no coração, principalmente para quem vive em uma metrópole com tantos bairros abandonados a sua própria sorte.

Desta forma, a cidade de Bus Bound está viva. Não apenas é possível fazer trajetos em diferentes ciclos de dia e de noite (com diferentes fluxos de passageiros), como também é possível viajar sob neblina ou chuva, o que torna as viagens que poderiam ser repetitivas em experiências muito mais prazerosas. E então, quando a reforma municipal vem, o bairro muda, as rotas se alteram e o jogo fica ainda mais rico. Ao longo dessa carreira, vamos levando renovação para outras áreas, pontes vão sendo liberadas, novos veículos vão sendo disponibilizados e o jogo cresce de uma forma muito orgânica.
Outra novidade (pelo menos para mim) é que jogo também vai além da tradicional customização de aparência de veículos. Em Bus Bound, é possível customizar todas as linhas de ônibus, incluindo aquelas linhas obrigatórias que o jogo vai apresentando. Quer dar uma volta pelo lugar X? É só editar. Quer adicionar aquele ponto de ônibus que ficou faltando uma conquista? É só editar. Quer criar uma linha do zero, que dê tantas voltas quanto sua imaginação permite e que enlouqueceria um fiscal da prefeitura? Pode criar também.
Tudo isso converge para uma jornada charmosa e pessoal atrás do volante de diversos ônibus. Você é um agente da mudança urbana, mesmo que às vezes dê vontade de xingar o trânsito.
Prós:
🔺O nível de complexidade é proporcional ao que o jogador busca
🔺Sistema de edição de linhas
🔺Evolução urbana
Contras:
🔻Gráficos ligeiramente datados
🔻Problemas de otimização
🔻Pequenos bugs
Ficha Técnica:
Lançamento: 30/04/2026
Desenvolvedora: stillalive studios
Distribuidora: Saber Interactive
Plataformas: PC, PlayStation 5, Xbox Series
Testado no: PC


