Descendo por um corredor insalubre, onde o chão, o teto e as paredes estão cobertos por um estranho material orgânico, você se depara com três criaturas de pequena estatura, que lembram vagamente cogumelos antropomórficos fugitivos do Inferno. O que você faz?
- Tenta conversar com os pequeninos
- Oferece um presente para os estranhos seres
- Queima e devora todos eles
Se você escolheu a opção número 3, parabéns, você está pronto para jogar Shroom and Gloom, o insano roguelike deckbuilder da desenvolvedora Team Lazerbeam.

Prepare o estômago
Para quem curte jogos de cartas, estamos vivendo uma das melhores fases dessa indústria. Balatro foi premiado como Jogo do Ano pouco tempo atrás, Slay the Spire ditou regras e ganhou continuação, Marvel Snap virou febre durante um intenso período, Vampire Survivors aderiu ao gênero com Vampire Crawlers e até o Brasil mostrou sua carta na manga, adaptando o ancestral truco para o formato eletrônico com Capote. Seria fácil afirmar que tamanha abundância poderia desgastar o seu nicho. Porém, jogos com diferencial sempre irão se destacar na multidão e Shroom and Gloom salta aos olhos.
Se a fase está sendo positiva para cardgames, vivemos tempos tenebrosos em que IAs generativas ameaçam drenar a criação humana para fabricar peças massificadas e sem personalidade. Nesse cenário pré-apocalíptico, é um sopro de frescor encontrar um jogo com arte feita à mão, com um estilo único de traço, uma mistura agridoce de engraçado e grotesco. O visual de Shroom and Gloom é um deleite que nos prepara para essa estranha realidade fungal onde é comer ou virar comida, em que tudo parece decadente e apodrecido e, ainda assim, simpático, para logo em seguida nos lembrar que há uma maldade sombria abaixo da superfície.

Entretanto, removida essa casca crocante do jogo, o que sobra? Um recheio úmido e viscoso, que derrete na boca. O título da Team Lazerbeam apresenta mecânicas bastante sólidas que dialogam com sua atmosfera. A temática se sustenta além do visual, penetra nas cartas e desafia o jogador, sem confiar demais na aleatoriedade.
Shroom and Gloom quer te arrastar para as profundezas
O jogo nos apresenta dois decks diferentes. Um deles será utilizado exclusivamente nos acampamentos, enquanto exploramos ambientes deploráveis, de uma caverna infestada de fungos a uma laboratório onde experimentos terríveis foram realizados. É nos acampamentos que precisamos gerenciar as ameaças que podem surgir e o sentimento crescente de apatia (o “Gloom” do título).
Porém, é também nos acampamentos que também podemos realizar atividades que irão trazer benefícios para a aventura, incluindo alimentar ratos magrelos com restos de comida em troca de presentes, escavar o chão com as nossas unhas em busca de tesouros, ou consumir alimentos que ninguém tocaria se não estivesse tomado pelo desespero. Cabe ao jogador pesar os prós e os contras de estender a duração do acampamento, mas seguir em frente é inevitável.

Continuando a jornada, entra em ação o segundo deck: o deck de combate. As cartas e seus combos irão determinar a quantidade de dano desferido nos inimigos e os múltiplos efeitos que podem ser aplicados. Na maior parte dos casos, a carcaça de seus inimigos poderá e será utilizada como algum tipo de recurso, incluindo comida e cura. Shroom and Gloom toma o cuidado de balancear a aventura para que o jogador nunca se sinta totalmente confortável com os perigos que podem surgir em cada área do mapa. Até a batalha final, em que a vitória chega muito próxima do impossível.
Shroom and Gloom está lançando em Acesso Antecipado, mas possui bastante carne em seus ossos. Vencendo o primeiro mapa, sobem os créditos. É o momento em que a desenvolvedora aproveita para soltar o seu senso de humor quase doentio.
Entretanto, esse não é o final. Concluir o primeiro mapa e atravessar os créditos é apenas uma forma de liberar o mapa seguinte, mais desafiador e com novas mecânicas. Completar determinadas etapas desbloqueia personagens diferentes, com cartas iniciais e aleatórias inéditas, o que garante longevidade para a brincadeira. O tempo voou para mim em minhas sessões e o título salva automaticamente a cada etapa de um mapa.

Infelizmente, esbarrei em um bug no segundo mapa. Em determinada etapa, o cenário inicia a animação de combate, quando deveriam surgir inimigos, mas eles não apareceram. Era impossível avançar, era impossível recuar, nenhum botão quebrava esse impasse. Reiniciei a jornada do zero e o problema não voltou a se repetir, até porque o cenário não se repetiu. Sendo um jogo de Acesso Antecipado de uma equipe bastante pequena, falhas como essa podem existir, mas devem ser corrigidas.
Shroom and Gloom conta com tradução para o português, mas faltou polimento nessa parte. Com tantos conceitos novos (lembra até mesmo Magic the Gathering com seu vasto grupo de regras), me senti mais confortável permanecendo no inglês mesmo.
Superados esses pequenos obstáculos, Shroom and Gloom é uma opção suculenta entre os jogos de cartas, com personalidade e simpatia. Adentre a escuridão, pequeno petisco…


