Dia parado, aquele marasmo de fim de tarde e um grupo sentado em uma mesa, estudando os movimentos uns dos outros em busca de sinais. Em uma fração de segundos, uma mão se levanta e desce com uma força descomunal na mesa, e a palavra TRUCO é gritada com convicção! Esta é apenas uma das diversas rodadas de Truco Paulista ou Mineiro que podem ser jogadas em Capote.
Produzido pela Luski Game Studio e distribuído pela CriticalLeap, Capote traz a experiência da mesa de bar, calçada de boteco ou mesinha de quiosque clássica, porém sem sair de casa. Simples em sua ideia, mas com uma vertente difícil de se ver nas mesas mais antigas — onde os jogos realmente variam de acordo com a sorte, seja com amigos ou pessoas aleatórias na internet —, Capote é uma surpresa muito bem-vinda.
Cyber Boteco 2077
Originalmente, Capote trazia apenas o jogo titular que adapta a famosa “fodinha” de bar para os computadores (afinal, dificilmente criariam um jogo chamado “Fodinha” como um hub de jogos de cartas). Até o momento, há apenas três jogos disponíveis, tendo um deles duas variantes de modalidades. Os cenários também se passam em dois bares: um aparentemente nas ruas de São Paulo e outro em uma sacada de quiosque na praia, podendo ser jogados no período da manhã ou à noite.

Além dos jogos de carta, é possível também jogar uma sinuquinha enquanto espera os lobbies ficarem cheios para as partidas; a única grande diferença é a falta da cervejinha “canela de pedreiro” rodando na mesa enquanto se aguarda. As conversas, geralmente, continuam sendo o mesmo papo furado. Para total imersão, o correto é jogar com um salgadinho Torcida aberto e uma Original gelada na mesa. Já para o Capote, recomendo uma 51 Ouro ou a clássica Velho Barreiro.
O maior diferencial em Capote é a total dependência do RNG e da sorte do jogador. Como não tem ninguém passando as cartas ou embaralhando, é impossível realizar o temido “maço” ou o golpe do “três é o jogo”. Ficar totalmente dependente das cartas aumenta um dos melhores aspectos do jogo: o blefe e a utilização de sinais.
Tirando o 21 da Bet, que sempre é jogado contra o bot homônimo, tanto o Capote quanto o Truco de mesa (paulista ou mineiro) geralmente são jogados contra outros jogadores. Claro que há como jogar os tutoriais, mas, após a primeira partida contra a máquina, o jogo instintivamente colocará você contra outros jogadores.

Pede pra sair, ladrão!
O grande chamativo de Capote tem sido suas mesas de Truco Paulista e Mineiro, adicionadas recentemente. Como dito, a diversão de ficar totalmente à mercê da sorte é mais presente pelo fato de o jogo impedir a criação de maços. Para quem não sabe, o maço é uma maneira de organizar o baralho ao juntar as cartas, deixando-as na sequência da menor para a maior e mexendo pouco ao embaralhar.
Se o oponente pedir para subir, você distribui primeiro para você e seu colega, vira e depois distribui aos adversários. Se cortar normal, começa-se distribuindo pelos oponentes e depois para você e seu parceiro. Quanto mais memória da posição das cartas você tiver, melhor para fazer isso “sem ser pego”. Além disso, é impossível ganhar ponto pelo “três cartas é o jogo”, uma vez que as mãos são sempre entregues corretamente.
Porém, o que pode pegar mesmo os jogadores são as diferenças entre o truco mineiro e o paulista. Eu mesmo, sendo mineiro, moro em uma região onde se joga mais o paulista por ter uma maior amplitude de virada de jogo, já que as manilhas são reveladas sempre após a distribuição das cartas — o que pode transformar uma carta fraca, como um quatro, na carta mais forte da rodada.

Já o truco mineiro joga com manilhas fixas, sendo elas: 4 de paus, 7 de copas, Ás de espadas e 7 de ouros. Essas cartas, diferente do truco paulista, não ficam viradas na mesa, mas rodam o baralho, além de cada rodada já valer dois tentos (pontos). Estas, no entanto, são apenas algumas das diferenças entre os dois tipos de truco, existindo convenções que muitos jogadores levaram bem a sério em minhas partidas.
Etiqueta antes de quebrar a mesa
Um grande diferencial entre as variações regionais do truco está na etiqueta da mesa e em como se portar. No truco paulista, a pontuação corre de 1 em 1 ponto; quando se pede truco, a progressão começa em 3 pontos e vai aumentando caso as duplas aceitem os desafios, com a escada ficando em 3 → 6 → 9 → 12 pontos, levando à vitória automática.
No truco mineiro, a pontuação sobe de 2 em 2 pontos, com as pontuações do pedido de truco indo de 4 → 6 → 10 → 12 (com variações regionais). No entanto, o mineiro tem uma de suas maiores diferenças no que diz respeito à etiqueta da mesa. Uma das grandes sacadas do jogo é o blefe: entrar na mente do seu oponente e fazê-lo acreditar que sua mão horrível é forte (fazendo-o correr e te dar o ponto) ou acreditar que sua mão forte é horrível (puxando-o para um duelo).

Uma vez que o palco do truco se abre em uma mesa paulista, muitos jogadores usam sinais para comunicar ao aliado o que têm na mão: uma passada de dedo no bigode, mexer na sobrancelha, ajustar a cadeira, acender um cigarro ou o jeito de beber no copo — vai da dupla. No truco mineiro, no entanto, isso muitas vezes é malvisto e, embora não seja uma regra obrigatória, a ausência de sinais na mesa é muito mais apreciada.
A direção de arte e o design dos personagens de Capote são pontos positivos à parte, com modelos bem caricatos e exatamente do tipo que se espera encontrar nesses barzinhos e botecos. Ao fim do dia, Capote é uma excelente saída para quem quer jogar um truco, 21 ou o titular Capote sem sair de casa — seja por chuva, falta de dinheiro ou falta de amigos para colar junto naquela semana.
Prós:
🔺Excelente tradução de ambientação e feeling de se jogar carteados em bar
🔺Ambientação excelente
🔺Extremamente divertido
Contras:
🔻Poderia haver maior quantidade de avatares
Ficha Técnica:
Lançamento: 20/08/2026
Desenvolvedora: Luski Game Studio
Distribuidora: CriticalLeap
Plataformas: PC


