Talvez eu tenha chegado a Resonance: A Plague Tale Legacy pelo caminho mais improvável possível: sem conhecer a franquia. Enquanto muitos de vocês chegam aqui carregando as lembranças de Amicia e Hugo, eu comecei essa aventura sem qualquer conhecimento prévio sobre os acontecimentos dos jogos anteriores (claro que já ouvi falar e tenho ideias de como são as narrativas). Mas talvez isso tenha sido até melhor, já que pude conhecer Sophia e sua história sem expectativas ou comparações.
Desenvolvido pela Asobo Studio, Resonance: A Plague Tale Legacy apresenta uma nova protagonista e uma nova história dentro desse universo, levando o jogador para uma aventura que mistura ação, furtividade, exploração e muitos (sério, muitos) puzzles em um mundo inspirado por mitologia e acontecimentos históricos. E se existe algo que me conquistou logo nos primeiros minutos, foi perceber que a Asobo não está tentando transformar tudo em um gigantesco mundo aberto.
Aqui existe uma aventura linear, cuidadosamente construída, daquelas que parecem pertencer a uma época em que avançar, encontrar um puzzle e descobrir o caminho para a próxima área era motivo suficiente para continuar jogando. Resonance faz isso e muito mais, adianto que o jogo conquista já em seu menu inicial com uma de suas canções gregas.
Uma história que começa no passado
A aventura começa apresentando Sophia ainda durante sua infância. É um início bastante envolvente e que consegue estabelecer rapidamente a personalidade da protagonista e algumas das circunstâncias que vão moldar sua jornada. Mesmo que alguns acontecimentos sejam relativamente previsíveis, existe uma preocupação evidente em construir essa personagem antes de colocá-la diante dos grandes desafios que a aventura reserva. Honestamente, fica nítida a dedicação da Asobo na construção da narrativa.
E isso funciona principalmente pela qualidade da apresentação. Resonance: A Plague Tale Legacy é simplesmente lindo, não importa o enquadramento da câmera, cada canto vira uma fotografia memorável. Não estou falando apenas de cenários ou efeitos visuais, mas também das expressões faciais, das animações e, principalmente, da atuação dos personagens. Os diálogos são muito naturais e os personagens conseguem transmitir emoções através de pequenos gestos e expressões, fazendo com que as cenas tenham um peso muito maior.
Para alguém que está conhecendo esse universo agora, Sophia funciona muito bem como porta de entrada. Existe um passado importante por trás dela e, aos poucos, a aventura começa a revelar os mistérios que envolvem sua história e o mundo ao seu redor. Tudo ganha uma importância muito maior do que simplesmente vivenciar uma jornada em busca de tesouros, que é uma das primeiras impressões que o jogo passa, já que fazemos parte de uma gangue de saqueadores.

Pode-se dizer que toda a história acontece de uma maneira contemplativa. Absolutamente todos os lugares apresentados são belos, com escalas imensas, mas repletos de detalhes que os tornam tangíveis. Você se sente como se estivesse viajando para a ilha do Minotauro, de fato. Mas não se engane, não demora muito para percebermos que Sophia não é exatamente uma protagonista indefesa ou pacífica e este mundo está longe de ser seguro.
O jogo está cheio de combates e é baseado em uma combinação de ataques comuns com a espada, golpes rápidos, pesados, gancho, defesas e esquivas. Parece simples quando colocado dessa maneira, mas executar essas ações durante os confrontos é extremamente prazeroso. Lembra um hack and slash, mas requer atenção para realizar parries e quebrar defesas. Existe uma resposta muito boa aos comandos e uma sensação satisfatória ao defender um ataque no momento certo, encontrar uma abertura e devolver com um golpe ainda mais poderoso.

A defesa e a esquiva acabam sendo especialmente importantes porque os inimigos não ficam simplesmente esperando para apanhar. É necessário observar seus movimentos, entender quando atacar e, principalmente, quando recuar. As espadas também mudam seus golpes. Existem várias espadas para equipar e elas alteram seus estilos de combate, algumas trazendo atordoamentos mais fáceis ou modos diferentes de atacar, o que torna os confrontos muito mais dinâmicos.
Além disso, Sophia também pode utilizar um gancho que, além de quebrar a defesa, pode trazer os inimigos para perto (Get over here!?). Ele ajuda muito para derrubar arqueiros das torres. Outra estratégia bem legal é usar os chutes para empurrar seus inimigos nos precipícios (This is, Sparta! Ops, Sophia!). Existem maneiras de evoluir o combate com pontos de melhoria, mas não espere nada muito elaborado. Pode parecer limitado, mas honestamente, os golpes apresentados funcionam bem e se sustentam ao longo de toda a jornada.

Sei que essa é uma das maiores mudanças para quem conhece A Plague Tale: aqui existe uma protagonista muito mais preparada para o combate, diferente do que existe em Innocence e Requiem. Ainda temos furtividade e momentos em que evitar o confronto é a melhor escolha, mas Resonance parece muito mais confortável em colocar uma espada e uma adaga nas mãos do jogador e dizer: “agora você pode reagir”.
E digo mais, os combates acontecem no presente, na pele de Sophia, e também ao reviver memórias de Teseu. Isso faz parte de uma habilidade de conexão misteriosa que a personagem possui com o guerreiro grego, mas ajudará (e muito) a contar o mito do Minotauro, entender puzzles e descobrir todos os segredos desta ilha. Sério, os momentos em que revivemos essas memórias fazem o cenário em ruínas se tornar vivo, com construções lindas, povos eufóricos contemplando os eventos e, claro, batalhas sangrentas com guerreiros muito bem equipados com suas armaduras. É incrível!

Até aqui, essas mudanças funcionam muito bem. Resonance: A Plague Tale Legacy proporciona uma aventura que mistura excelentes receitas, mitos gregos, batalhas que podem parecer simples, mas são muito boas e divertidas, uma exploração linear que é cativante, daquelas que te fazem olhar cada cantinho para ver o que pode encontrar, como nos velhos tempos. Não é um mundo aberto cheio de possibilidades, mas existem bifurcações importantes que te fazem questionar se está deixando algo para trás. Talvez ele te leve apenas para uma área sem nada relevante, mas talvez você encontre algo valioso ou uma vista de tirar o fôlego.
As inpirações de Resonance: A Plague Tale Legacy
No começo, confesso, existia uma sensação difícil de explicar. De cara, vendo alguns vídeos do jogo e até a capa, ele me remetia a jogos como Prince of Persia e até God of War. Quando comecei a jogar, isso ficou ainda mais forte e se ampliou para lembranças de Uncharted e Tomb Raider. Mas ainda não entendia se era um sentimento bom ou ruim. Seria algo inspirado nestes games ou tentaram fazer igual, sabe?
Não porque Resonance copie qualquer um deles, mas porque compartilha algumas daquelas estruturas de aventura linear que parecem ter ficado cada vez mais raras. Você explora uma área, encontra um obstáculo, entende o ambiente, resolve um puzzle, enfrenta alguns inimigos, descobre um segredo e segue em frente. Tudo isso enquanto a narrativa conduz o jogador para o próximo acontecimento. Apesar de seguir essa estrutura e até de existirem mecânicas que lembram os jogos citados, Sophia tem sua própria identidade e nos convence de que é única.

Honestamente, eu estava sentindo falta dessa estrutura linear. Resonance: A Plague Tale Legacy mostra que não existe a necessidade de colocar um mapa gigantesco na tela para convencer o jogador de que existe muito o que fazer. O próprio caminho é parte da experiência. A exploração acontece enquanto você avança pela história e, em determinados momentos, é possível sair um pouco da rota para encontrar coletáveis, recursos, pequenos segredos ou até uma nova vista incrível.
É uma estrutura que prioriza o ritmo da aventura e faz cada cenário parecer construído para aquele momento específico. E, neste sentido, a Asobo acertou em tudo. O ritmo é muito balanceado, você está sempre descobrindo algo novo, um novo tipo de chave, de mecânica, de puzzle e até inimigos com padrões diferentes para dar aquela variada nos combates. Então não adianta achar que todos vão cair na sua estratégia de chutes e ganchos, combinado?

Uma ilha que faz jus aos seus mitos
Resonance também sabe alternar suas propostas. Em determinados momentos, Sophia encara os mais variados puzzles, em partes em companhia de sua fiel parceira Leni ou até com Faro, um personagem importante nesta história toda. Nestes momentos, a primeira coisa que esperamos são as dicas inconvenientes e constantes. Mas parece que a Asobo Studio sabe o quanto isso incomoda e, em vez de jogar dicas na nossa cara, deixa ali um botãozinho discreto e o mais puro silêncio para que o artista possa se concentrar. Quando você cansar de tentar, tome aqui uma diquinha, só não espere uma resposta clara, ok?
Dito isso, os puzzles são muito bem elaborados. Na maior parte, envolvem manipulação de luzes com espelhos e a geração dessas luzes com uma esfera minoica, que também age como uma chave e até como uma espécie de lanterna que revela mensagens ocultas em paredes e mosaicos. Dá para dizer que não são lá tão complicados, mas podem sim te segurar por alguns momentos até entender como solucioná-los. O ponto é que eles são realmente divertidos de serem realizados, principalmente por não ter ninguém te pressionando.

No início, quando chegamos à ilha, o caderno de desenhos de Sophia será primordial para entender muitas das localizações e passagens deste lugar. Vale dizer que tais desenhos foram feitos na sua infância, e muitos já tentaram se guiar por eles. Agora chegou sua vez. Vemos essas cenas e é realmente legal usá-los como um guia de viagem. Mas nem tudo está registrado e é agora, conforme descobrimos novas informações, que Sophia registra tudo em seu caderno. Tudo isso faz com que a dinâmica se alterne entre consultar os desenhos e encontrar novas pistas usando a esfera.
Alguns lugares até escondem tumbas, daí a lembrança de Tomb Raider, e elas são ligeiramente complicadas de solucionar, mas resultam em novas espadas que, além de lindas, vale lembrar, mudam seus golpes. Você também pode encontrar baús com itens que proporcionam melhorias passivas, como chances maiores de atordoamento, redução de danos e etc. Além disso, Sophia irá vesti-los, sendo pulseiras, aneis e outros acessórios, deixando o visual da saqueadora ainda mais bonito.

Essa variedade é importante porque impede que a experiência fique presa a uma única mecânica. A aventura consegue alternar entre ação, momentos mais tranquilos de exploração, puzzles, timing, desafios de plataformas e ainda, sem que uma parte pareça completamente desconectada da outra. Conforme avançamos, existem, inclusive, novas chaves e mecânicas que surgem, te fazendo aprender coisas novas e tornando a jogatina sempre renovada.
Acionando estruturas mirabolantes
Tais puzzles também ajudam a dar personalidade aos cenários em que Resonance: A Plague Tale Legacy se passa, pois quem conhece o mito do Minotauro sabe que ele é rodeado por provações e labirintos. Em vez de simplesmente avançar de uma batalha para outra, é preciso observar o ambiente e entender como determinadas estruturas podem ser utilizadas para abrir caminhos. E convenhamos, quem é que não gosta de observar e botar para funcionar essas estruturas mecânicas gigantes? É divertido demais, ainda mais com uma direção de som maravilhosa, onde podemos ouvir tudo rangendo.
E é justamente nesse ponto que a comparação com Prince of Persia e até God of War começa a fazer ainda mais sentido. Existe aquela sensação gostosa de estar diante de uma estrutura aparentemente impossível e precisar descobrir como aquele lugar e todos aqueles trecos funcionam para continuar avançando.

A ambientação é de tirar o fôlego. Sophia está em uma aventura cercada por mitologia, ruínas e mistérios, criando um cenário que consegue ser bonito e ameaçador ao mesmo tempo. A inspiração na mitologia dá ao jogo uma identidade própria e permite que a narrativa trabalhe com elementos que vão muito além de uma simples aventura medieval. Existe uma sensação constante de que há algo escondido por trás daquele mundo e que cada descoberta pode revelar uma parte maior da história.
A sensação se torna um perigo real com o tempo, quando a Fera surge nas sombras destas ruínas. E é neste momento que o jogo passa a ganhar uma nova camada, exigindo total furtividade, já que não há como enfrentar tamanha criatura. Esses momentos são realmente difíceis, pedindo timing, estratégias e atenção, já que também podemos acabar deixando um item ou outro passar despercebido durante a fuga.

Embora eu não tenha jogado os títulos anteriores da série A Plague Tale, é interessante observar como Sophia se diferencia das protagonistas anteriores. Enquanto a identidade da série ficou muito ligada à vulnerabilidade, à sobrevivência e à relação entre Amicia e Hugo, Sophia representa uma nova possibilidade para esse universo. Ela é confiante, sabe lutar e possui ferramentas que permitem enfrentar situações de maneira diferente.
Isso muda também a sensação de perigo. Poder reagir, defender e atacar faz o jogo ter de encontrar outras formas de criar tensão. É aí que a furtividade para lidar com a Fera ganha importância. Não ter que se preocupar com uma criança ajuda, mas aqui a presença da criatura junto com os desafios dos níveis consegue te deixar vulnerável mesmo com tantas habilidades, o que é realmente ótimo.

Até aqui já deu para perceber o tamanho do espetáculo de Resonance, certo? Destaquei e realcei muito da sua grandiosidade visual, narrativa e até a estrutura linear muito bem construída. Mas é impossível deixar de mencionar sua composição sonora.
Ouvindo canções gregas
Não se trata apenas de músicas que acompanham a jogatina. A composição foi feita por Olivier Derivière e possui um protagonismo à parte. É daquelas que ajudam a construir a atmosfera e fazem a aventura parecer maior do que suas próprias mecânicas.
As composições de Resonance: A Plague Tale Legacy foram escritas em inglês, mas transformadas em grego cipriota para serem cantadas pela Vasiliki Anastasiou, acompanhada por um excelente coral (detalhe: todos nativos da região) e ainda por instrumentos de época. Tudo isso resulta em músicas que, sem dúvidas, são obras de arte pura.

No YouTube você encontra os bastidores dessa criação e ainda pode conferir toda a trilha sonora. Os destaques ficam para ‘The Land’, ‘Patera’ e ‘The Depart’. São músicas que arrepiam e mostram a capacidade que os jogos têm de nos proporcionar uma experiência para além do jogo. A chance de ouvir canções assim é realmente marcante.
Uma curiosidade que encontrei no modo foto. A câmera acaba ultrapassando os limites do cenário e permite enxergar os “bastidores” da construção de algumas áreas. Tecnicamente é um pequeno bug, claro, mas confesso que não consegui enxergá-lo como algo negativo. Pelo contrário: achei muito interessante poder observar o que existe por trás daqueles cenários tão detalhados e perceber um pouco de como os desenvolvedores construíram aquele mundo. É aquele tipo de erro que, para quem gosta de videogames e de entender como eles são feitos, acaba sendo até divertido de encontrar.
Acompanhar Sophia me fez pensar que essa é uma aventura para quem sente falta de aventuras. Depois de tantas surpresas, uma coisa ficou muito clara: Resonance: A Plague Tale Legacy não parece preocupado em reinventar todos os conceitos dos jogos de ação e aventura. Ele simplesmente entende o que torna esse gênero tão divertido e nos entrega uma jornada completa.

Aqui existe uma história para acompanhar, personagens para conhecer, lugares para explorar, inimigos para enfrentar, puzzles para solucionar e segredos para encontrar, e tudo isso faz jus a uma ilha conhecida por tantos mitos e mistérios. Isso é suficiente.
Sendo sincero, Resonance foi uma completa surpresa. Me trouxe aquela sensação de jogar um grande AAA de aventura como os que encontrávamos com mais frequência em outras gerações. E quando essa fórmula é combinada com uma história envolvente, mitologia, mistérios e uma protagonista carismática, fica difícil não querer descobrir o que existe depois da próxima porta. Imperdível!
Prós:
🔺A história é envolvente e muito bem conduzida
🔺Sophia é uma protagonista forte e carismática
🔺Tem visual impressionante e animações faciais excelentes
🔺O combate é responsivo e divertido
🔺É uma ótima combinação de ação, exploração, furtividade e puzzles
🔺A mitologia grega é muito bem integrada à narrativa
🔺Está cheio de variedade de situações durante a campanha
🔺A trilha sonora é extraordinária
🔺A estrutura linear mantém o ritmo da aventura
Contras:
🔻Pequenos bugs pontuais na câmera do modo foto
Ficha Técnica:
Lançamento: 27/08/2026
Desenvolvedora: Asobo Studio
Distribuidora: Focus Entertainment Publishing
Plataformas: PS5, Xbox Series, PC
Testado no: PS5


