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Permitam-me começar este review do sombrio A Plague Tale: Innocence com uma curiosidade: sua desenvolvedora, a francesa Asobo Studio, é conhecida por ter anteriormente produzido nada mais, nada menos que o game de Ratatouille, entre outros títulos infantis licenciados pela Disney. Se você já está familiarizado com a temática deste novo game, deve então saber que ratos também são um componente central de sua história e jogatina, mas completamente de outra forma.

Ambientado em solo francês durante a brutal Inquisição, o jogo nos apresenta a dois irmãos, Amicia e Hugo, que devem enfrentar tanto a praga dos roedores quanto os soldados impiedosos do Inquisidor Vitalis. Não, não há ratinhos cozinheiros para amenizar o clima. As belas paisagens francesas, com seus moinhos de vento e árvores coloridas, estão repletas de cadáveres de homens, mulheres, crianças e outros animais atacados pelos ratos ou falecidos nas batalhas contra os ingleses.

Ratinhos encrenqueiros

Ainda assim, dos dois males, os irmãos aprendem logo de antemão que o humano pode ser o mais insidioso deles. Amicia, a irmã mais velha, se vê na obrigação de proteger seu caçula Hugo após sua família e seu castelo serem brutalmente atacados pelas tropas de inquisição. O motivo de tal ataque é misterioso, assim como as enxaquecas que afligem o pequeno garoto, mas esta não é a hora para perguntas, e sim para a fuga.

Imagem do jogo A Plague Tale: Innocence
Yep.

Na viagem através do desolado solo francês, o que parece um drama de época realista e violento vai assumindo contornos muito bem-vindos de fantasia, principalmente quando a conexão entre as enxaquecas de Hugo e a praga dos ratos passa a ser mais explorada. No decorrer de A Plague Tale: Innocence, vilões ameaçadores são apresentados, viradas chegam para abalar jornada e tudo culmina em um conflito grandioso, mantendo a possibilidade para outras aventuras nesse universo. É um bom conto para jovens adultos.

Em seu funcionamento mecânico, A Plague Tale: Innocence pode ser definido como um game de ação e aventura, com foco especial dado aos puzzles e à furtividade. Há dois tipos principais de oponentes aqui. Os ratos, que surgem aos montes, são imbatíveis sem as ferramentas certas, e a prioridade é desviar deles com soluções de puzzles. Os homens, por sua vez, podem ser despistados, mas também é possível usar os ratos para trucidá-los.

De fato, há diversas possibilidades de abordagem para as situações de A Plague Tale: Innocence, e embora não alcance o nível de um Dishonored, é sempre divertido adivinhar como sair de cada enrascada. Tendo sempre em mente que os ratos são repelidos ou desviados pela luz, eles são tanto ameaças quanto ferramentas vivas. Por isso, é necessário estar sempre atento ao que os ambientes lhe oferecem se quiser evitar grandes dores de cabeça.

Imagem do jogo A Plague Tale: Innocence
A noite é escura e cheia de ratos.

Amicia também terá acesso a novas parafernalhas conforme o game avança, como um sonífero para derrubar soldados, uma bombinha para acender palheiros e outros inflamáveis, e até o oposto disso, um repelente que extingue fontes de luz – algo extremamente útil para derrubar oponentes com tochas que estejam próximos aos ratos. Nas seções em que o controle é passado para Hugo, a estratégia é, na maioria das vezes, desviar ou se esconder em lugares pequenos.

Outros trechos envolvem especialmente o raciocínio e a cooperação. Amicia pode comandar Hugo a atravessar aberturas pequenas e outros personagens a ativar alavancas e outros mecanismos, além de distrair guardas ou abatê-los. As ações de contexto são sempre muito bem sinalizadas, seja por ícones ou colorações que se destacam, e é improvável que o jogador se perca durante estas seções de quebra-cabeça. Ainda assim, não são uma completa moleza e completá-las é sempre satisfatório.

Corrida pela vida

A furtividade e o uso dos ambientes são, no caso, o forte de A Plague Tale: Innocence, complementando a atmosfera madura da narrativa. Dito isso, há algumas situações de combate direto e estas tem resultados mistos. Os momentos em que se deve fugir correndo de soldados e outras ameaças, seguindo um caminho linear com obstáculos a la Tomb Raider, são mais felizes já que não exigem o uso das mecânicas menos sólidas do game.

Imagem do jogo A Plague Tale: Innocence
Enferrujado e ferrado.

Estas mecânicas são as de tiro – de estilingue – e esquiva, exigidas em batalhas de chefe. Tais batalhas apresentam algumas boas ideias e dinâmicas, principalmente aquela que envolve um cavaleiro com espada flamejante, mas saem prejudicadas por uma mira de lock-on teimosa e o movimento pouco refinado de Amicia em “strafe”, especialmente quando se quer ir para trás e para os lados. Ao menos são trechos visualmente espetaculares, com destaque para o deslumbrante chefe final.

Ao longo da jornada, há um sistema de melhorias para facilitar a vida de Amicia, Hugo e do jogador. É possível expandir capacidade de munição do estilingue, de itens de distração, materiais para confecção, a duração das pirotecnias, entre outras coisas. As melhorias mais úteis são as de silenciamento do estilingue, permitindo usá-lo no stealth, e, mais que todas, a capacidade de realizar melhorias fora de uma oficina. Essa busca por aprimoramentos exige atenção aos recursos espalhados pelos requintados cenários.

O grande problema com este sistema de upgrades, no entanto, é que todas as melhorias feitas não são mantidas para um novo jogo – leia-se: não há new game plus -, e nem mesmo na seleção de capítulos individuais elas são carregadas conforme estavam no encerramento da campanha, mas sim de acordo com seu estado naquele momento da história. Ou seja, só é possível jogar a última fase com todas as melhorias – ou melhor, todas que foi capaz de realizar.

Imagem do jogo A Plague Tale: Innocence
Uma das melhorias mais úteis do game.

Outro problema é que não há muito o que fazer depois de concluir a história, que dura cerca de 13 horas. Há colecionáveis que podem ser visitados através de um códice, mas devido à estrutura linear e segmentada do game, devem ser coletados como em um game de Uncharted, reprisando uma fase toda e checando cada canto como um maníaco obsessivo. Se terminar a fase e algum tesouro ficar faltando, terá que rejogá-la do início ao fim.

Essas “peculiaridades” remetem a uma era de jogos que não parecem mais existir em tanto volume, em meio a campanhas absurdamente longas – e arrastadas – e mapas que são, ao menos, mundos em hub. Aqui, a estrutura de fases e a duração da história podem repelir ou frustrar alguns jogadores, mas apesar destas escolhas irem contra um dos sistemas do jogo e sua longevidade, não fazem A Plague Tale: Innocence um jogo decepcionante de maneira alguma.

Mórbida surpresa

Se esta análise aparenta repleta de ressalvas, devo esclarecer que este é na verdade um dos títulos mais surpreendentes do ano até então. Assim como fez com The Surge, a publisher Focus Home Interactive fez uma aposta acertada no trabalho da Asobo para mostrar que, em breve, terão pernas para distribuir games equivalentes aos AAA. Provas disso são os belíssimos gráficos, boa performance, direção de arte mórbida e detalhada, e por fim outra maravilhosa trilha do compositor Olivier Deriviére.

Imagem do jogo A Plague Tale: Innocence
Os detalhes nos cenários são um assombro.

Somem a isso uma sólida, instigante narrativa, bons sistemas de furtividade, puzzles ambientais criativos e terão um game que tem sucesso no que a definição em si sugere: ser um bom game, sem necessariamente ser um pacote que transborda de conteúdo. Não há infinitas horas de jogatina, mas cada uma delas aqui é preciosa e instiga a jogar a próxima. A Plague Tale: Innocence é um jogo de poucas firulas e algumas ressalvas, mas apresenta o bastante para deixar uma forte impressão e fazer desejar por novos capítulos.

SCHiM

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