Aos cinquenta e dois anos de idade, eu estava seguro de acreditar que todas as minhas lembranças de adolescência estavam costuradas, esterilizadas, cicatrizadas e esquecidas, como um acidente antigo que deveria estar devidamente superado, uma anedota que não valeria cinco minutos em uma mesa de bar, para logo ser substituída por um assunto político, uma questão profissional ou o FOMO da semana. Mixtape tem o dom de recolocar em perspectiva uma fase conturbada da minha vida e de muitos de nós.
“Mas me disseram que não tem jogabilidade nenhuma e poderia ser um filme de animação”. A desenvolvedora Beethoven and Dinosaur (do ainda mais estranho The Artful Escape) tem o dom de recolocar em perspectiva uma discussão que já deveria estar resolvida e devidamente enterrada, com a graciosidade de quem sabe o que está fazendo. Esse “mix” está muito bem trabalhado e essa obra é uma grata e surpreendente combinação de jogabilidade nos momentos exatos, que reforçam, de forma que nenhuma outra mídia conseguiria, a sensação de ter estado lá.

Don’t You (Forget About Me)*
Mixtape é simples em sua premissa. É uma história que já foi contada milhares de vezes, é uma história que já foi vivida bilhões de vezes em bilhões de lares: é o rito de passagem, o assustador ponto de virada em que termina o colégio e se inicia a vida adulta. É o momento de decidir quem você realmente é, mas também é o momento em que as dúvidas são mais fortes e os sentimentos estão todos na flor da pele. A adolescência é um fio desencapado a espera de um contato, positivo ou negativo.
Nesse contexto, controlamos Stacey Rockford. Ela não é perfeita, está muito longe de ser perfeita, assim como todos nós nessa fase e a maioria de nós (se não todos) até o final dos dias. Rockford está vivendo a dor da despedida, na última noite ao lado de seus maiores amigos: a reprimida Cassandra e o sonhador Slater. Tudo que importa nesse dia é se preparar para uma grande festa que vai acontecer entre os jovens, mas essa meta esconde conversas mal resolvidas, assuntos pendentes e o grande elefante branco na sala: Stacey está indo embora, buscar o seu destino.

Essa é linha condutora para Mixtape alternar momentos no presente e memórias desse trio ao longo dos últimos anos. Superficialmente, pode parecer um jogo sobre banalidades, cenas extremamente constrangedoras, diálogos pseudo-filosóficos, um jogo sobre nada, um gigantesco videoclipe conduzido por uma trilha sonora quase desconhecida. Entretanto, o que a Beethoven and Dinosaur consegue fazer é destilar a essência da amizade, da felicidade presente nos pequenos detalhes, da liberdade almejada, mas também da busca constante por pertencimento, o conflito com as limitações impostas pelo tecido social e a confusão de não se ter as respostas.
Tudo se traduz em forma de aventura. Mixtape joga o realismo de lado, em prol da forma idealizada como nossas lembranças são construídas. Não com detalhes quase documentais ou objetivos, mas com sensações mágicas. A raiva é explosiva, a euforia é libertadora, a vitória é arrasadora, a derrota não tem cores. Nesse ponto, há uma escolha estética: nem a própria animação é fluida ou os modelos realistas, derivados do “stop and motion”. O resultado é um retrato que não é fiel, é um quadro construído de uma adolescência quase mítica. Não foi exatamente assim como as coisas aconteceram, mas assim é como parece.

Happy When It Rains **
Mixtape tira seu nome da trilha sonora preparada por Rockford. Obcecada pelo impacto que a música exerce na forma como ela lida com os eventos da vida, ela quebra a quarta parede para nos apresentar uma sequência de faixas que transmitem diferentes atmosferas para cada cena. É uma seleção curiosa, que foge de boa parte dos chavões dos anos 90. Nada de Nirvana, nada de Alice in Chains, nada de Pearl Jam, nada de REM ou quase qualquer coisa que tivesse atingido o Top 10 de alguma lista.
Essa seleção pode acabar funcionando como uma barreira de entrada para boa parte do público, inclusive os que viveram sua adolescência nesse período. A trilha sonora de Rockford está bem longe do Metal MTV, de Gastão Moreira, e bem próximo do Lado B, do reverendo Fábio Massari. Mixtape não fala com os normies ou com os headbangers ou os posers, mas dialoga com os shoegazers, com os geeks, com os esquisitos, com os invisibilizados dentro de uma geração que já tinha pouco espaço. E então Rockford flerta com as mais ouvidas, com faixas como “Candy” (Iggy Pop) ou “Freak” (Silverchair), para mergulhar em décadas mais antigas e resgatar músicas que eu jamais escutei. Ao mesmo tempo, Rockford é um enciclopédia musical ambulante, com detalhes sobre datas de gravação e análises rápidas das faixas. As duas últimas canções me devastaram. Não apenas por conhecê-las ou amá-las, mas porque elas se encaixam com perfeição na conclusão dessa jornada.

Ao focar em apenas três personagens, Mixtape vai construindo um quebra-cabeças de relações. Em questão de minutos, já simpatizamos com eles. Em questão de minutos, eu queria ter sido amigo de Rockford, Cass e Slater. Acompanhamos suas crises de insegurança, seus atos de egoísmo e como tão somente a união improvável que os conecta é capaz de servir como combustível para transformações. Não percebemos a importância dos outros em nossas vidas até estarmos distantes demais e só aí entender que uma única faísca pode desencadear o Inferno.
Beethoven and Dinosaur tem a sensibilidade de não dourar demais a pílula da nostalgia, nem pesar demais os dramas que afligem o nosso trio. A inevitabilidade da partida de Rockford é um fantasma mais do que suficiente para gerar os momentos mais fortes da experiência.

Mixtape é jogo?
É estranho demais acompanhar a existência de uma polêmica em torno de Mixtape. Não que seja impossível não gostar desse jogo. Mixtape não vai falar com todo mundo da mesma forma que falou comigo. Vivências diferentes, percepções diferentes. E, se pareço emocionado, é porque estou emocionado. Poucos foram jogos os que terminei em lágrimas. Esse foi o único em que terminei soluçando.
Por outro lado, a experiência da Beethoven and Dinosaur é uma experiência profundamente narrativa. Personagens, música, eventos ocupam o ponto central. A jogabilidade está em segundo plano, é pontual. E esse pode não ser o tipo de experiência que alguns jogadores buscam.
Ainda assim, é uma discussão ultrapassada questionar o mérito de MIxtape de ser classificado como jogo ou não. Se funcionaria melhor como filme ou não. Em pleno 2026? Em que campanhas de títulos AAA nos apresentam longas e cinematográficas sequências, que são interrompidas para que o jogador dispare duas dúzias de balas contra inimigos pré-determinados em espaços pré-determinados? Em que gênios como Hideo Kojima podem introduzir cenas e diálogos que duram até 60 minutos e o jogador aperta um botão ou outro ao longo desses momentos? Em pleno 2026, treze anos depois de Gone Home? Em pleno 2026, quinze anos depois de To The Moon ter nos mostrado que era possível oferecer uma experiência inigualável, com gráficos simples, trilha sonora arrebatadora, personagens cativantes e interatividade pontual?

Nenhum dos exemplos citados está errado em seu design. E todos eles tem algo em comum: a jogabilidade está ali a serviço da narrativa. Porém, é importante apontar que isso é ainda mais válido em Mixtape. Cada um dos pontos de jogabilidade oferece a oportunidade do jogador se colocar no lugar de Rockford ou seus amigos e sentir ou lembrar uma fração do que deveria sentir aquele momento. É algo que um filme, um livro, uma música, não conseguem proporcionar. É a participação mecânica que amplifica a imersão. Quando Rockford mostra o dedo do meio e as coisas explodem ao seu redor, é a raiva dela contra as injustiças da vida que penetra em nós. Quando o trio desce a ladeira de skate, é a sensação de liberdade que nos invade. Até mesmo o controverso(?) momento do beijo de língua é uma representação estética e tátil de como aquele momento foi desconfortável para a protagonista. É preciso filmar a festa para entender como aquela festa é legal.
Muitos são os jogos independentes que são lotados de sensibilidades, de boas intenções, mas não conseguem integrar o que se pede com o que se mostra, não conseguem juntar a jogabilidade com a narrativa. De cabeça, poderia citar Solo e A Fold Apart. É a famigerada dissonância ludonarrativa. Nesse sentido, as mecânicas de Mixtape são poucas, mas impecáveis, e evocam a cavalgada de River em To The Moon: é preciso controlar a personagem para entender como aquele momento é gratificante para ela. O jogador vai sendo condicionado ponto a ponto a participar. Até o momento final de Mixtape, em que essa participação é extremamente dolorosa. Até o momento, em que não dá mais para participar.
Mixtape faz um recorte muito específico sobre a adolescência, mas sua história acaba sendo universal. Onde houver música, onde houver amigos, onde houver incertezas e a busca por si mesmo, haverá uma trilha sonora.
* “Don’t You (Forget About Me)” é o grande hit da banda Simple Minds, lançado originalmente em 1985. A música se tornou famosa na trilha sonora do filme “Breakfast Club” (“Clube dos Cinco”, no Brasil), do diretor John Hughes, considerado o pai dos filmes de adolescentes dos anos 80.
** “Happy When It Rains” é uma faixa do segundo álbum de estúdio da banda The Jesus and Mary Chain, lançada originalmente em 1987. A banda comparece no jogo com uma faixa do disco de estreia.
Prós:
🔺Excelente escolha de músicas
🔺Personagens cativantes
🔺Mecânicas enxutas que se integram com a narrativa
🔺História sensível executada com perfeição
Contras:
🔻Alguns diálogos podem parecer fora do tom
🔻GPU ferve
Ficha Técnica:
Lançamento: 07/05/26
Desenvolvedora: Beethoven and Dinosaur
Distribuidora: Annapurna Interactive
Plataformas: PC, Switch 2, PlayStation 5, Xbox Series
Testado no: PC


