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Um guerreiro que já teve seu dias de glória, mas que hoje estremece para se manter em pé sob sua reluzente armadura. É assim que descrevo Titan Quest, desenvolvido pela Iron Lore, em sua remasterização feita pela THQ Nordic. Não entendam mal: o jogo criado por Brian Sullivan (de Age of Empires) é bom, realmente.

Lançado originalmente em 2006, Titan Quest era descrito adequadamente como o Diablo das antigas mitologias grega, egípcia e chinesa. O jogador assumia o papel de um guerreiro, cujas façanhas eram escolhidas conforme diferentes maestrias (classes). Sua missão então era combater aos monstros que assolavam as civilizações, e encontrar a raiz desse mal para extingui-lo de uma vez por todas. Uma fórmula básica e eficiente, porém com a verdadeira inovação do multiplayer online cooperativo.

O chamado à aventura

O subgênero do “clone de Diablo” até hoje já ganhou diversos títulos de qualidade, entre eles The Incredible Adventures of Van Helsing, Path of Exile e Victor Vran. Há portanto diversas opções no mercado para os aficionados, e em meio a isso a THQ Nordic decidiu remasterizar e relançar Titan Quest, que enfim faz sua estreia nos consoles (em breve no Switch). Mas por mais que seja ótima a intenção de apresentar o título a uma nova leva de jogadores, essa boa ação necessitava de um maior cuidado e refinamento.

Imagem do jogo Titan Quest
Alguns ambientes são lindamente detalhados.

Como panela velha ainda faz comida boa, Titan Quest oferece exatamente o que se espera: perspectiva isométrica, hordas de inimigos, cenários elaborados e uma PORRADA de “loot” (tesouros, armas e muito mais). Adicione a isso uma estrutura de atos, que funcionam como diferentes campanhas.

Apesar dos menus inicialmente confusos, é simples entrar na lógica do game, que é bastante intuitiva. Os mapas são surpreendentemente abertos, sem telas de carregamento ao entrar em cidades ou cavernas, e apesar do tamanho substancial, não é cansativo andar de um canto a outro. Os caminhos principais também são bem definidos, e o jogador encontra as próximas etapas de sua jornada naturalmente, sem precisar de um “waypoint”. Para ajudar ainda mais, há diversas fontes que servem como pontos de checagem (checkpoints) espalhadas pelo cenário, e é possível desde o início criar portais de viagem rápida para as grandes cidades.

Durante os primeiros momentos da exploração, não se deixa de notar a boa direção de arte, estudada em detalhes arquitetônicos históricos e também em cima de filmes icônicos de fantasia (principalmente os animados por Ray Harryhausen), que conta com um certo charme e até gera um pouquinho de nostalgia para quem sempre curtiu os bons e velhos filmes de aventura inspirados na mitologia grega (algo que se reflete até na trilha-sonora). Com a câmera desaproximada ao máximo do personagem (minha maneira preferida de jogar títulos do tipo), as locações são vivazes e variadas, beneficiadas ainda pelo aumento na resolução de imagem, permitindo que saltem detalhes como as cores e a vegetação, que é animada de maneira dinâmica e reage ao toque do jogador. Porém nem tudo são flores…

Imagem do jogo Titan Quest
Vá e tente pegar aquele único item do seu interesse sem um mouse… e no escuro!

Pedras no caminho

O combate por sua vez pode decepcionar àqueles que esperam pela velocidade ou o dinamismo de um Diablo III. Os embates de Titan Quest seguem o formato de RPGs mais antigos, mais baseados em estatísticas do que em malabarismos. Não há botão de esquiva nem de defesa, apenas dois comandos de ataque. O sucesso nos confrontos depende então do bom gerenciamento das forças e fraquezas do personagem, como habilidades que permitem uma maior resistência aos ferimentos ou até materiais que podem ser combinados com armaduras e outros itens, alguns aumentando a taxa de regeneração de vida enquanto outros criam efeitos de envenenamento ou sanguessuga que afetam os inimigos fortemente. Se você está de acordo com esse tipo de pancadaria em seus jogos, então a falta de movimento pode não ser um grande problema.

Falando em movimento, aproveito para tocar em um dos problemas desta remasterização/port para consoles: o controle do personagem. Joguei Titan Quest já com sua atualização 1.02, que trouxe diversas melhorias na movimentação, mas ainda é notável a rigidez com a qual meu personagem se movia pelo mapa. Há problemas de pathfinding, com diversos “tropeços” pelo caminho, e a visão radial usada para mirar nos inimigos também sofre de atrasos e dificuldades (às vezes a direção da mira era completamente oposta à do analógico). É em momentos como esses que percebemos a má adaptação do mouse e teclado para um controle, e por falar nisso…

Sendo um Diablo-like repleto de armas, relíquias e poções para coletar, não posso deixar de mencionar outra deficiência grave que resulta da falta de um mouse: a dificuldade em escolher um item específico no meio de apenas três ou mais. Os itens devem ser selecionados com a posição do personagem, que é extremamente complicada de definir com precisão. E como grande parte de Titan Quest se baseia em coletar coisas, ainda com o cuidado de gerenciar um inventário limitado, a falta de praticidade na hora de escolher o que levar ou não se torna irritante em pouco tempo, e uma falha dessas é quase inaceitável quando temos trabalhos de adaptação excelentes como os de Diablo III e Victor Vran aos consoles.

Imagem do jogo Titan Quest
O que era um lugar assustador logo se torna uma fonte infinita de XP.

Apesar da performance também ser uma decepção, com uma taxa de quadros destravada e às vezes loucamente variável (aproximar a câmera ao personagem pode resultar em travamentos momentâneos), os gráficos são exatamente o que se espera de um game de 12 anos atrás (desconsiderem blockbusters como Gears of War). No entanto há efeitos discretos que pouco a pouco se tornam perceptíveis, principalmente em campos cheios de vegetação: a tela parece apresentar um problema de flicker (piscadas rápidas de frame), e dependendo do local onde se joga isso pode se tornar um pouco cansativo aos olhos, embora não afete tanto a experiência.

Pediu pra ralar, ralou

De resto, os problemas e virtudes de Titan Quest recaem sobre sua proposta e dependem do que se espera de um título como esse. Ora o jogo está mais viciante que Doritos e mantém você obstinado em passar para o próximo nível; ora há momentos em que para avançar você deve ralar e depois ralar ainda mais para ficar poderoso o bastante (a infame “grind”). E vejam bem: Titan Quest não é um game difícil, mas por ser baseado fortemente nas estatísticas do jogador, momentos de desbalanceamento podem representar um obstáculo no caminho do envolvimento. Em um certo trecho, após me tornar poderoso o bastante para derrotar diversos monstros, me deparei com três inimigos (as górgonas) muito à frente dos que já havia enfrentado, o que me forçou a dedicar horas e horas “farmando” experiência e pontos de atributos. É um tipo de situação recorrente em RPGs, claro, mas ainda assim é um ponto baixo em uma jornada que até então seguia tão variada.

Contudo, mesmo após tantas críticas, não deixo de considerar Titan Quest um bom jogo. Há uma penca de conteúdo com considerável variedade visual (a versão de consoles ainda conta com uma 4ª campanha DLC, Immortal Throne) e uma fórmula que, mesmo segura, ainda funciona de acordo com as expectativas, e isso pode ser o bastante para quem adora passar boas horas imerso em um RPG a la Diablo. E para quem está curioso e aflito, mencionei Diablo seis… espera… sete vezes nesse texto. Ou seja, se sempre quis uma mescla entre a franquia da Blizzard e clássicos como Jasão e os Argonautas e Fúria de Titãs, Titan Quest talvez seja do seu interesse… só espere por mais refinamentos ou aquele desconto amigo.

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