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Achei que não fosse possível superar Resident Evil 7, mas eu estava enganado. A criatividade dos desenvolvedores da Capcom se mostra tão inspirada que, embora em sua superfície pareçam ideias manjadas (vampiros, lobisomens, etc.), são aplicadas da maneira mais inesperada e surpreendente possível em Resident Evil Village. Como fã da série e do estilo de perspectiva em primeira pessoa, que funcionou muito bem para a ambientação na casa da família Baker, eu estava sedento por outro game com Ethan Winters.

O hype com o 8º jogo da série principal, potencializado pelos trailers e demos, é mais do que justo. Na verdade, os jogadores não sabem o que o aguardam. Village é uma montanha-russa com quatro loopings e um desfecho insano. É impossível não sair dessa experiência impactado pelas reviravoltas e revelações bombásticas que, obviamente, não darei spoilers. Se você é um jogador que não se assusta fácil, bem, isso irá mudar.

Os quatro lordes e sua líder

A campanha de Resident Evil Village surpreende logo no início por oferecer áreas mais amplas pra explorar. A claustrofobia de Resident Evil 7 é mantida apenas em algumas áreas que demandam tal sensação angustiante, o que de forma alguma reduz a tensão de visitar o vilarejo decrépito e seus arredores. É neste antigo e estranho lugar isolado do mundo em que Ethan vai parar após Chris Redfield invadir sua casa e as coisas saírem do controle, com o desaparecimento da bebê Rose.

Quatro malucos e um bebê.

O vilarejo é rodeado por quatro casas, representando os lordes que vivem na região e seguem as ordens de sua líder, a Mãe Miranda. Alcina Dimitrescu, uma mulher gigante e vaidosa, comanda seu castelo junto de suas três filhas (Bela, Cassandra e Daniela). Donna Beneviento é uma marionetista com problemas mentais, que se comunica através da boneca Angie. Salvatore Moreau é uma aberração corcunda, um homem-peixe que vive em uma represa. E por fim temos o telecinesista Karl Heisenberg, que move objetos de metal à sua vontade.

Mãe Miranda aparece muito brevemente nas primeiras horas de jogo, deixando no ar suas verdadeiras intenções. A Rainha Corvo é tratada como uma líder religiosa, venerada pelos habitantes do vilarejo como se ela fosse a salvação de todos. Tal proteção dura pouco e os licanos surgem repentinamente em bando, atacando a população. Em meio a desolação, Ethan dá seus primeiros passos em terras encharcadas por sangue, em busca de sobreviventes e alguma explicação.

Ethan saco de pancada

Se você ainda não jogou Resident Evil 7, pare de ler este texto imediatamente. Resident Evil Village é uma continuação direta, totalmente conectada aos eventos com Eveline. Agora, aos que jogaram, lembra que o Ethan sofria ferimentos graves mas resolvia com um líquido mágico? A tal forma de recuperar vida pode parecer pura fantasia de videogame, mas no fim há uma explicação para a resistência à lá Wolverine do protagonista, abordada nesta nova trama. E sim, Ethan continua vulnerável a diversas situações de vida ou morte.

Os licanos de Resident Evil Village não marcam bobeira e atacam ferozmente.

Por falar em ameaças, o jogo traz um bestiário incrível, com uma grande variedade de inimigos. Não fique achando que a trama se resume aos licanos e ao Castelo Dimitrescu: este é apenas o começo de tudo, uma grande área para desbravar seguido por outras duas menores e uma última tão grande quanto a primeira. Um equilíbrio muito bem aplicado no game design para não cansar o jogador pelo excesso de acontecimentos ou coisas pra fazer e resolver. Até os quebra-cabeças surpreendem pela criatividade (não necessariamente pela dificuldade).

Cada área tem suas peculiaridades, tanto na ambientação quanto nos inimigos e chefão. Há também baús de tesouro para caçar, além dos tradicionais cristais e colecionáveis (cabras de proteção, entalhadas em madeira). Os baús dão itens valiosos que podem render uma boa grana, ainda mais os tesouros combináveis (juntando as partes), assim como puzzles que envolvem encontrar uma bola metálica e colocá-la para rolar em maquetes interativas até o fim do percurso. Estes puzzles, assim como os inimigos mais difíceis, premiam com cristais valiosíssimos que posteriormente são trocados por Lei (a moeda do jogo) no Empório do Duque, um carismático comerciante com obesidade mórbida – e um ótimo cozinheiro.

Sim, a inspiração em Resident Evil 4 é evidente e fiquei feliz de não ter mais que procurar moedas antigas pra colocar em gaiolas para liberar novas armas e upgrades. O Duque, inclusive, conhece o famoso comerciante que guarda suas mercadorias em seu sobretudo. Os licanos também tem certa semelhança com o comportamento dos camponeses infectados pelas Las Plagas, utilizando facões, foices e até um arco e flecha com fogo. Aliás, a Inteligência Artificial está de parabéns: várias vezes fui surpreendido pelos inimigos, mesmo ao tentar fugir ou me defender.

Hora de caçar porcos, galinhas, peixes e licanos maiores.

Resident Evil Village e suas boas decisões

Uma vez que o game premia o jogador com itens que só servem para trocar por dinheiro, não faria sentido ter um único inventário pra tudo. Ou ter o famigerado baú, que no fim das contas só serve pra forçar o “backtracking”. Para os recursos de criação (como fluído químico e pólvora) e os itens importantes para avançar na trama, a Capcom tomou a decisão de manter cada coisa sob um menu independente, sem ocupar espaço no inventário de Ethan. Nele ficam apenas as armas, upgrades, munições, bombas, medicamentos e gazuas. Ou seja, mantém o foco do jogador no que importa: a ação e exploração.

O visual impressiona demais e a ambientação ganha uma camada ainda mais densa com a excelente trilha e efeitos sonoros. Jogue com fone de ouvido para ter a melhor experiência possível, além da luz devidamente apagada. Se você tiver uma TV (ou monitor) com HDR, aproveite a tecnologia para ter a simulação completa da iluminação, que alterna entre a luz e a escuridão assim como o olho humano faz na vida real. E prepara-se para ficar afoito nas áreas menos iluminadas do game, onde a tensão é crescente.

Eita! Que diabos é isso?

Outra novidade é a inédita dublagem em Português do Brasil. Finalmente a Capcom liberou a localização completa, resultando em um trabalho primoroso da Maximal / Keywords Studio. Não só acertaram em cheio na escolha do elenco como dá pra notar o empenho dos dubladores ao incorporar a personalidade de seus respectivos personagens. A sincronia labial pode não estar 100%, uma vez que o jogo usa como base a língua inglesa, mas o resultado surpreende. Veja este vídeo de comparação de dublagem e tire suas próprias conclusões.

Terminado Resident Evil Village, que dura entre 10 a 12 horas na primeira jogatina, abre-se a opção Bônus no menu principal. Lá você terá acesso ao modo Os Mercenários (pela primeira vez na perspectiva FPS), os filmes do jogo para rever, a lista de desafios para concluir e a loja de conteúdo extra, onde você gasta PC (Pontos de Conclusão) para desbloquear armas, munição infinita, miniaturas 3D e artes conceituais – com direito a comentários do diretor, Morimasa Sato.

Não me pergunte como o Duque cabe nessa carroagem.

Os Mercenários voltaram!

A campanha é boa demais para jogar uma única vez, e as novas armas desbloqueadas ajudam a encarar a aventura de outra forma. Porém, o modo Os Mercenários sozinho já garante muitas horas extras. Os cenários do jogo são reaproveitados trazendo toda a variedade de inimigos na tradicional correria contra o tempo e baseado em combos – que confere tempo extra. Os cenários são intercalados com o Empório do Duque, para reabastecer seu arsenal e comprar novas armas.

Para equilibrar com a dificuldade crescente dos inimigos e objetivos a serem concluídos, você encontra artefatos coloridos que, ao serem quebrados, dão bônus acumulativos como movimentação mais rápida, dano ampliado, especialização em armas, e assim por diante. Leva tempo pra pegar as manhas e conseguir boas notas e recompensas, mas é indiscutível o quão divertido este modo é. Não é à toa que ele voltou!

Esta criatura lembra um Nazgûl, de O Senhor dos Anéis.

Resident Evil Village é um destruidor de expectativas. Uma obra prima que supera o horror psicológico de Resident Evil 7, título que até então tinha como o meu favorito da série. Fazia tempo que não sentia medo pra valer com um game, de apertar os dedos do pé e virar o corpo pra fugir de uma criatura. Levei susto até da minha esposa, que veio conversar comigo na hora errada, em plena escuridão. Se eu fosse galinha, tinha botado uns 10 ovos naquele momento.

Gostaria de pontuar e elogiar outras qualidades do game, que são muitas, mas prefiro evitar os spoilers. O que posso dizer é que a Capcom acertou em cheio ao usar Drácula, Frankenstein, Kappa (do folclore japonês) e outras referências para criar suas próprias criaturas fantásticas. Há alguns exageros, claro, mas tudo o que acontece na trama satisfará até os fãs mais exigentes. Dito isso, pegue sua fatia de bolo do aniversário de 25 anos da série e vem comemorar comigo.

SCHiM

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