Se o estilo rubber hose dos desenhos animados dos anos 30 garantiu à Cuphead um sucesso estrondoso, por que não tentar levar essa estética para o universo dos jogos de tiro em primeira-pessoa? Foi exatamente isso que os devs do estúdio polonês Fumi Games pensaram em 2022. Após anos de trabalho árduo e muita teimosia, MOUSE: P.I. For Hire finalmente está entre nós. Um game indie estiloso, todo em preto e branco, com perspectiva 3D e a loucura desenfreada que se espera das animações típicas daquela época.

Por se tratar de um FPS, a Fumi Games enfrentou o desafio de mesclar animação tradicional 2D (feito à mão, frame a frame) com um mundo totalmente construído em 3D. Para os inimigos e NPCs, tiveram que apelar para o formato old-school do gênero, pegando como referência jogos como Duke Nukem e Doom. Nestes jogos antigos os adversários são representados por sprites animados em um único plano, que giram no eixo conforme a posição do jogador (e cenário), simulando um falso 3D. Tal técnica causará estranheza para quem não jogou FPS nos anos 90, mas funciona perfeitamente em MOUSE: P.I. For Hire.

MOUSE P.I. For Hire

Entre pistas e queijos

Nesse mundo em que todo mundo é rato, você encarna o investigador particular Jack Pepper. O protagonista largou o trabalho de policial em Mouseburg devido à corrupção. Com suas próprias convicções e uma queda por apostas, ele faz bicos para pagar seu queijo de cada dia. Eis que um novo caso, oferecido pela jornalista Wanda Fuller, o coloca em meio a intrigas, assassinatos e corrupção generalizada. Seu objetivo é coletar pistas para ligar os pontos e solucionar casos, por consequência desvendando o grande vilão da história.

A primeira fase introduz um breve tutorial enquanto você persegue um alvo. Você aprende os movimentos básicos, como destravar fechaduras e cofres, e por aí vai. Jack acaba falhando e a história volta algumas semanas para narrar como tudo começou. Neste momento o jogador conhece a hub do detetive, um escritório no centro da cidade, onde você interage com Wanda e vários outros NPCs importantes no entorno.

MOUSE P.I. For Hire

O começo morno de MOUSE: P.I. For Hire, com ritmo lento e pouca ação, me fez ficar preocupado. Felizmente, o combate frenético vem com força nas áreas seguintes, embora nunca deixe a história em segundo plano. A dublagem de Jack, feita por Troy Baker (que dublou o Joel em The Last of Us, dentre vários outros games), dá um charme todo especial pro jogo, com piadas pontuais. Mesmo quando você encontra jornais e anotações para ler, Jack faz uma breve observação complementar em cima. Sempre com muito humor, claro, mas sem forçar a barra.

Conforme vai avançando pelas fases liberadas, acessadas de carro dirigindo por um mapa em perspectiva isométrica, novos NPCs (e opções) vão surgindo na hub. Dentre eles está a mecânica Tammy Tumbler, onde você realiza melhorias nas armas que obteve. O arsenal, ainda que manjado, traz algumas ideias próprias como uma arma que atira ácido tóxico que derrete os inimigos. Todas as armas possuem tiro secundário e são introduzidas com aquela animação de manuseio estabelecida em Doom (2016), inclusive após fazer as melhorias. Ver isso rolando em animação tradicional é incrível e realmente único.

MOUSE P.I. For Hire

Homenagem atrás de homenagem

MOUSE: P.I. For Hire foi feito com um carinho imenso. Você notará isso a todo momento com o capricho no visual, no desenrolar da ótima história, nos papos com o NPCs e, principalmente, nas homenagens que o game presta. E não estou falando apenas de jogos não: a Fumi Games homenageia filmes e desenhos animados clássicos que também influenciaram seu FPS. Em um momento você está pegando um potencializador que é uma lata de espinafre, transformando Jack num fortão igual o Popeye. Em outro momento, com outro potencializador, você atira com a ponta do dedo igual Cuphead e Mugman fazem no jogo do Studio MDHR.

Se você faz parte da geração z, talvez não pegue todas as homenagens. Mas quem nasceu em gerações anteriores terá uma experiência realmente especial. Citando mais um exemplo, ao iniciar uma nova fase olhei ao redor da rua onde Jack estacionou seu carro. Ao fundo do cenário havia um túnel, mas algo não estava certo ali: não era um túnel normal em 3D, mas sim um desenho na parede. O que para alguns jogadores possa parecer apenas uma textura simplificada é, na verdade, uma homenagem ao desenho do Road Runner (Papa-Léguas). Um episódio clássico do Looney Tunes em que o Coyote tenta enganar o Papa-Léguas com um desenho de túnel na parede.

MOUSE P.I. For Hire

Com games, o jogo presta homenagem à Pitfall, Duck Hunt, Donkey Kong, Resident Evil e até o código Konami, só para citar mais alguns. Até os colecionáveis, bonequinhos do Jack muito bem escondidos pelas fases, são uma clara homenagem ao Doom moderno. Essas brincadeiras se extendem inclusive para o gameplay, por exemplo quando o jogo introduz novas habilidades para Jack, como usar seu rabo para planar e se pendurar por ganchos como se estivesse usando um chicote do Indiana Jones.

Não dá vontade de parar de jogar

O gameplay é rápido e responsivo, dando opções como dash e pulo duplo para você se safar do tiroteio em combates de arena, lotado de inimigos. Os chefões então, são todos sensacionais, embora alguns sejam fáceis demais. Caso esteja bastante acostumado com games de FPS, minha dica é: jogue na dificuldade Detetive para ter uma experiência melhor equilibrada. Nos puzzles, ao destrancar coisas usando a ponta do seu rabo, o jogo apresenta alguns desafios extras como um contador de movimentos e/ou de tempo, incluindo espinhos pelo trajeto. Nada muito complexo, mas sempre divertido.

MOUSE P.I. For Hire

A única falha de MOUSE: P.I. For Hire, por enquanto, reside em sua performance – mesmo após o primeiro patch antes do lançamento. Jogando no PC e com um setup potente, o jogo apresentou quedas no frame rate mesmo usando DLSS no modo qualidade – algo até irônico de ver num jogo indie teoricamente simples como esse. E alguns glitches e bugs surgiram durante a minha jogatina, porém nada que demonstrasse falta de polimento. No Steam Deck, o game recebeu a verificação da Steam e roda estável com uma configuração pré-estabelecida.

O jogo é longo e cheio de coisas diferentes pra ver e explorar, como um minigame viciante à lá Gwent, no qual jogamos partidas de carteado de baseball como atacante e arremessador. Um pouco confuso no início para quem não está familiarizado com o esporte, mas rapidinho você entende como jogar. Juntando isso às outras muitas qualidades, como a trilha sonora maravilhosa, MOUSE: P.I. For Hire é um game que entrará pra história. De longe, um dos FPS mais únicos que tive o prazer de jogar.

95 %


Prós:

🔺Visual único e marcante
🔺Mistura eficaz de 3D com 2D
🔺Gameplay evolui a todo momento, para não enjoar
🔺O minigame de cartas de baseball é viciante
🔺Excelente trilha sonora e dublagem
🔺Dura bem mais do que o esperado
🔺Ótima tradução PT-BR, com piadas adaptadas

Contras:

🔻Precisa de ajustes na performance

Ficha Técnica:

Lançamento: 16/04/2026
Desenvolvedora: Fumi Games
Distribuidora: PlaySide
Plataformas: PC, PS5, Xbox Series, Switch 2
Testado no: PC

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