Haddonfield, em Illinois, é uma cidade fictícia que se tornou tão real na cultura pop que pode ser colocada ao lado de locais como Elm Street e o acampamento Crystal Lake em um atlas do horror. Ela é o palco da Sombra, ou do Formato, mas, na realidade, seu nome é Michael Myers, a encarnação das trevas de acordo com o Dr. Samuel Loomis. Agora, eles se enfrentam de novo em Halloween: The Game.
O título foi criado pela IllFonic, uma empresa cujos lançamentos venho cobrindo consistentemente aqui no site, com jogos como Predator: Hunting Grounds e o excelente Killer Klowns from Outer Space. Além disso, Halloween: The Game é co-distribuído pela Gun Interactive, responsável por The Texas Chain Saw Massacre, trazendo algumas ideias vistas no excelente jogo de fuga da casa dos canibais texanos.
O retorno da forma sombria
Halloween (1978) é, sem dúvida alguma, o meu filme favorito de horror de todos os tempos. Mesmo amando Sexta-Feira 13, Príncipe das Sombras, Drácula e tantos outros clássicos, admito que assisto a Halloween de forma religiosa todo dia 31 de outubro. Michael Myers foi um dos pioneiros em deixar sua marca, mudando para sempre a mente dos sobreviventes e do público.

A história começa com Michael Myers assassinando sua irmã Judith durante a noite de Halloween de 1963. Após este evento, ele se fechou completamente, nunca mais dizendo uma palavra e sendo internado em um sanatório. Após anos de reclusão, em uma noite chuvosa, Michael consegue romper o portão de entrada do local e roubar o carro do Dr. Loomis, indo em direção a Haddonfield, pois algo o chamava para lá.
Ao chegar à cidade, lentamente Michael faz sua presença ser notada, matando alguns transeuntes e roubando um macacão de mecânico, além da máscara que se tornaria sua marca registrada. Com o passar do tempo, ele visita sua antiga casa e descobre o porquê de ter voltado a Haddonfield: ainda há uma parte de sua família viva. Trata-se de sua irmã, Cynthia Myers, que agora responde pelo nome de Laurie Strode.
Perseguindo-a durante o filme, Michael busca matá-la custe o que custar, eliminando também seus amigos enquanto despista a polícia e o Dr. Loomis em seu encalço. Halloween: The Game conta perfeitamente esta história até o final do primeiro filme, com essa introdução servindo como um tutorial para o jogador aprender a controlar Myers por Haddonfield e utilizar suas habilidades assassinas.

Uma noite inesquecível
Halloween: The Game coloca o jogador sob o controle de Michael Myers ou de um sobrevivente tentando se salvar, além de proteger os outros jogadores e os habitantes de Haddonfield. Sob o controle dos sobreviventes, a partida começa em pontos aleatórios de mapas que retratam diferentes partes da cidade. Os que vi até agora incluem a área central comercial (onde Michael rouba sua máscara), duas áreas suburbanas (sendo uma delas a icônica Mission Street do filme) e uma área industrial.
O objetivo principal é conseguir uma forma de escapar, seja fugindo de carro ou utilizando um dos alçapões de abrigos contra tempestades espalhados pelo mapa. Parecem ser tarefas fáceis, mas acredite: não são, pois Michael está à solta e em busca de vítimas. Além disso, há uma distinção entre os moradores da cidade em cada partida, havendo sempre cinco civis comuns e três civis importantes, que geralmente são os outros sobreviventes disponíveis para seleção.
Cada sobrevivente possui uma habilidade principal. Marcus Navarro, por exemplo, foi o personagem com quem mais joguei; por ser um exímio mecânico, com ele sempre consigo realizar a fuga através do carro. No entanto, para evitar que o jogador foque em apenas um personagem, o jogo faz com que cada um tenha um item inicial passível de desbloqueio ao atingir o nível quinze.

Marcus, por ser um mecânico, teria a vantagem de começar com uma ferramenta de reparo, certo? Porém, ao chegar no nível quinze, ele desbloqueia uma cerveja. Na verdade, é preciso jogar com Laurie Strode até o nível quinze para então liberar o kit de ferramentas para os outros! O grande problema é que Laurie, Robie e Alexis se encontram atreladas à versão Deluxe, então não sei como esses personagens podem ser desbloqueados na progressão normal do jogo base.
O terror de ser observado
Como dito anteriormente, o jogador deve entrar nas casas, conversar com os civis e convencê-los de que Michael está à espreita em busca de sangue. Para isso, é preciso realizar dois minigames, que variam entre acertar uma sequência numérica ou apertar um botão do mouse no tempo correto. Após conseguir provar que o assassino está à solta, o jogador deve escolher se quer que o NPC o acompanhe ou se prefere pedir para que ele ligue para a polícia.
Caso peça para que o civil chame as autoridades, o contador da polícia — representado por três escudos — se encherá um pouco. Sempre que um escudo se completa, uma viatura é enviada ao local. Isso ajuda em partes, mas pode ser um tiro pela culatra dependendo da astúcia do jogador que controla Michael. Ao realizar essas tarefas, ligar para a polícia ou resolver os minigames, o sobrevivente ganha experiência para desbloquear cartas que aprimoram suas habilidades.

Essas habilidades variam desde barricar portas mais rápido, correr mais e convencer facilmente os habitantes, até ter maior resistência aos ataques físicos de Myers ou conseguir golpeá-lo com mais força. Sim, os jogadores podem lutar contra Michael e devem, sempre que possível, fazer de tudo para derrubá-lo. O inventário permite carregar até três itens pequenos e um item grande — que pode ser um galão de gasolina para o carro de fuga, armas brancas ou de fogo. Já os itens pequenos incluem bebidas e baseados para acalmar o personagem, facas e canivetes para escapar dos agarrões do assassino, e chaves que abrem os abrigos de tempestade ou dão partida no veículo de fuga.
Estes recursos estão espalhados pela cidade e devem ser procurados pelos jogadores nas casas dos civis, vasculhando gavetas, caixas e armários. Michael pode frustrar a fuga fechando os abrigos após terem sido abertos (exigindo um novo minigame para destrancá-los) ou surgindo na frente do carro para danificá-lo, forçando um novo reparo — pelo menos não é preciso abastecê-lo novamente. Até onde consegui ver, há como fugir em um camburão ou nos próprios carros de patrulha da polícia.
Tomando as sombras para si
Do outro lado da moeda, o jogador que controla Michael Myers tem total domínio sobre as trevas. Essa mecânica segue a lore original do filme, na qual Michael é quase uma entidade mítica: o assassino se torna uma sombra e pode se teleportar por Haddonfield, encurralando jogadores e civis. O salto das sombras só pode ser feito em locais escuros e fora do campo de visão de qualquer pessoa, criando a tensão perfeita de ver o vilão simplesmente surgindo do breu.

Utilizando a escuridão a seu favor, Michael pode destruir as caixas de luz e os fios de telefone do lado de fora das casas. Com os ambientes imersos nas trevas, Myers consegue atravessar portas trancadas sem precisar quebrá-las e brotar de dentro de armários, dando real sentido à sua alcunha de Bicho-Papão. Diferente de Dead by Daylight e outros jogos do gênero, aqui a paciência e a espreita são muito bem recompensadas.
Além do salto, Michael pode focar sua visão em um zoom nos civis e jogadores, aumentando seu nível de obsessão por aquele alvo. Quando a perseguição chega ao nível três, executar a vítima garante a Myers um boost significativo de energia sombria e enche seu medidor sanguinário. Isso o torna mais forte, veloz e letal, além de render mais pontos. Porém, se for derrubado ou ficar muito tempo exposto à luz, ele perderá essa força, então a regra de ouro é: mantenha-se nas sombras.
Com os níveis de obsessão elevados, Michael pode realizar finalizações diferentes, chamadas de execuções contextuais. Elas são retiradas diretamente dos filmes ou nascem de ideias sádicas inéditas, como jogar alguém em uma fogueira para cravar uma lâmina quente na barriga, esmagar a cabeça de vítimas com pedras, usar elevadores de carros como armadilhas ou até mesmo prender corpos nas paredes usando facas. Esse último recurso serve para aterrorizar civis e jogadores que passarem pelo local, aumentando drasticamente o pânico coletivo e deixando-os desorientados e lentos.

Ajuda do além
Ao controlar os sobreviventes, o jogador possui dois tipos de vitória. A primária é simplesmente escapar, seja fugindo sozinho, levando outros moradores da cidade junto ou enviando os NPCs sozinhos para as saídas, diminuindo as vítimas em potencial. Ao reduzir as mortes pela cidade a um número considerável, o jogador garante uma vitória — seja ela mínima ou máxima — por ter impedido o massacre.
Mesmo após escapar, o jogador pode continuar ajudando os membros restantes. No modo espectador, é possível realizar minigames que concedem melhorias aos aliados em campo através das cartas de upgrade, ou até mesmo retornar à partida na pele de um policial. Usando armas de fogo, esse oficial pode derrubar Michael Myers e esvaziar seu marcador sanguinário; dependendo da quantidade de vezes que o assassino cair, e se o Dr. Loomis estiver presente na partida, é possível até mesmo prender o vilão.
Jogando como Michael, há também a vitória mínima, conquistada ao ultrapassar o marco de dois mil pontos, ou a vitória absoluta, alcançada ao eliminar praticamente todos os NPCs do mapa — independentemente de um ou mais jogadores reais conseguirem fugir. Existe até uma maneira oculta de Michael escapar antes de a partida acabar; isso ocorreu comigo uma vez, mas ainda não consegui replicar o feito.

Mesmo com uma premissa que pode soar repetitiva, Halloween: The Game (tal como os títulos anteriores das desenvolvedoras) consegue refinar a fórmula assimétrica. O título traz inúmeras referências aos filmes e possui um loop de gameplay divertido e viciante. Já se tornou o meu favorito entre os jogos lançados por essas empresas até então, embora ainda haja certos elementos cansativos e mecânicas um pouco desbalanceadas.
Problemas a lá H2O
Um dos maiores problemas que tive com o jogo é a velocidade de Michael. Isso pode ser um grande empecilho para os jogadores iniciantes que ainda não possuem as habilidades necessárias para um controle efetivo de área. Michael é como uma parede de tijolos ambulante: pesado e devagar. Muitas vezes, ter as habilidades em cooldown evita que o assassino consiga finalizar o trabalho.
Além disso, é muito fácil fazer loop em Myers (ficar correndo em círculos ao redor de um obstáculo). Para haver um equilíbrio, acredito que o nível de pânico deveria subir de forma passiva sempre que o sobrevivente ficasse muito tempo na presença do assassino, evitando assim aquele looping infinito ao redor de balcões e carros. Outro grande problema que o jogo pode enfrentar em breve é a morte por sufocamento de conteúdo. Infelizmente, diferente de Dead by Daylight, jogos focados em uma única licença têm uma quantidade finita de novidades que podem ser lançadas.

Por orbitar exclusivamente ao redor da franquia Halloween, a comunidade pode acabar enjoando da repetição, diferentemente do sucesso da Behaviour, que possui uma onda constante de novos assassinos e parcerias para manter o jogo fresco e inovador. Por isso, temo que o tempo de vida útil de Halloween: The Game — assim como o de The Texas Chain Saw Massacre e Killer Klowns from Outer Space — possa estar com os dias contados. Eu ficaria muito feliz, no entanto, em ser provado errado neste caso.
Apesar das ressalvas, Halloween: The Game é uma excelente pedida para os fãs do cinema slasher e de jogos assimétricos. Ele traz muito conteúdo extra, vários desafios e cosméticos desbloqueáveis para manter a base de jogadores presa em Haddonfield por um bom tempo. Diferente do Dr. Loomis, eu espero que a ameaça de Michael Myers continue viva na indústria, para que possamos continuar aproveitando o terror atmosférico e o frio na espinha que só um encontro furtivo com o Bicho-Papão consegue proporcionar.
Prós:
🔺Extremamente fiel ao primeiro filme e incrívelmente imersivo
🔺Mecânicas de gameplay divertidas e engajantes de ambos os lados
🔺Grande quantidade de conteúdo para fãs novos e antigos
Contras:
🔻Loop de gameplay pode se tornar repetitivo
🔻Possível curto tempo de funcionamento
Ficha Técnica:
Lançamento: 08/09/2026
Desenvolvedora: Illfonic
Distribuidora: Illfonic, Gun Interactive
Plataformas: PC, Playstation 5, Xbox Series S|X
Testado no: PC


