Uma grande tristeza que sempre tive com a recepção do gamer médio brasileiro em relação às obras de horror é a crença de que o folclore nacional não possui criaturas aterradoras. Nascido e criado em uma cidade extremamente pequena, vi grande parte da natureza dar lugar a ruas e casas — a mesma natureza onde tios, amigos da família e meu avô materno me contavam lendas que agora retornaram para me caçar em Obscurium!

Os contos do meu avô “Vermeio Véio” tomavam conta da mente dos netos, fruto da sua juventude como peão armado e jagunço. Ele cruzou o Brasil afora, trazendo histórias de aventuras, tiroteios e encontros assombrosos. Com ele, aprendi a perder o medo da noite ouvindo como matou um lobisomem, lutou contra o “nego d’água” (caboclo d’água) e até sobre monstros criados por ele, como o Nhango (que pode ou não ser o Anhangá) e a “unhinha”.

Obscurium traz uma forte inspiração no título de cartas Inscryption, mas adiciona todo o nosso tempero nacional. O jogo troca os conteúdos das cartas eslavas e norte-americanas nativas por ilustrações que retratam elementos do Brasil. Os lobos dão espaço às onças; os arcos, às facas e espelhos malditos; e os inimigos barbados cedem lugar aos nossos monstros nacionais.

Obscurium

Até o momento, o jogo apresenta dois capítulos simples que mostram o que devemos esperar do seu futuro. A primeira região se passa aqui mesmo, no Sudeste, com o jogador utilizando suas cartas para selar espíritos vingativos que perambulam pela terra. Sendo o próprio jogador um desses espíritos, a busca consiste em prender os monstros do folclore que já não deveriam caminhar entre os vivos.

A primeira região faz com que o jogador siga o rastro da causadora das paralisias do sono, a famosa Pisadeira. Chegar até ela leva tempo e exige duelos contra inimigos. Mas, como se duela contra espíritos? Utilizando o seu baralho! Inicialmente, você começa com cartas bem fracas, mas, ao derrotar oponentes, tem a oportunidade de adicionar uma nova carta ao seu deck.

O tabuleiro possui espaço para quatro cartas, forçando o jogador a escolher muito bem o que invocar em cada espaço. Uma vez em jogo, elas não podem deixar o campo até perderem todos os seus pontos de vida, seja por combate ou por lento desgaste. Há cartas, como a Picada de Coral, por exemplo, que entram e já desaparecem, causando dois pontos de dano na carta à frente ou direto no inimigo.

Obscurium

Mesmo em sua fase simples, Obscurium já traz cartas suficientes para gerar poderosos combos destrutivos. Eu mesmo já consegui chegar ao final pelo menos três vezes usando sinergias como Flecha Ritualística, que ataca diretamente os pontos de vida do inimigo, combinada com Bafo de Onça, que, caso haja uma moeda de essência sobrando, ataca três espaços seguidos, estejam eles vazios ou ocupados.

O jogador possui dez pontos de vida e, sempre que acerta o oponente, ganha uma marca brilhante em seu tabuleiro; ao acumular dez marcas, derrota o adversário. Com o passar dos estágios — que são sempre gerados aleatoriamente —, toda vez que recomeçamos uma run, surgem eventos de mundo além dos combates. É possível encontrar vilas ou locais abandonados, mercadores viajantes, trapaceiros malditos e até o Coveiro, que oferece uma maneira de salvar uma carta para ser desenterrada numa run futura.

Até então, o jogo traz quatro monstros chefes: a Pisadeira, o Lobisomem, o Capelobo e o Caboclo D’água. Este último serve como o grande desafio da região Norte, utilizando cartas com temas aquáticos, o que achei fantástico. Quando o derroto e tenho a chance, sempre pego a carta do Giro da Morte, uma manobra característica do nosso querido Jacaré-de-papo-amarelo.

Obscurium

Outra sacada interessante, muito bem introduzida em Obscurium, é a utilização dos amuletos — geralmente, itens que podem ser encontrados no dia a dia das casas de nossas avós ou em lares mais ligados à religião e cultura brasileira. Temos figas, sal grosso e o charmoso patuá de nome riscado, cada um com sua própria consagração e utilidade, baseadas em suas funções no mundo real.

A figa anula o primeiro dano direto que acabaria com a sua run, enquanto o patuá permite comprar duas cartas a mais nos dois primeiros turnos. O custo? Ele cobra do seu deck: a sua carta de maior valor volta para o fundo, e você só a acha de novo mais tarde — isso, se a achar.

Já o sal grosso permite sair na frente: você começa com duas Essências a mais. Porém, ele cobra na economia, e o seu primeiro sacrifício no tabuleiro não te devolve nada. Afinal, é preciso sacrificar suas cartas mais fracas por essência para pagar a invocação de unidades mais fortes. Por outro lado, sacrificar cartas fortes gera mais essência, permitindo ocupar mais espaços. Como tudo na vida, Obscurium também é sobre equilíbrio.

Obscurium

Não sei o que há do outro lado após a morte, mas sempre gostei da visão passada pelo Auto da Compadecida de 2000, mesmo achando A Compadecida de 1969 a versão absoluta da obra. Obscurium traz o outro lado da moeda do pós-vida no “Brasilzão”, onde as sombras se escondem pelos pampas, Pantanal, Mata Atlântica, caatinga e cerrado. O que quer que venha, espero ouvir o choro da viola do Vermeio Véio e o brilho do seu revólver do outro lado, seja na luz do sol ou nas sombras de um mundo como o de Obscurium.

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