Antes de ser um jogo, Scott Pilgrim já era uma mistura curiosa de influências. Criado por Bryan Lee O’Malley nos quadrinhos lançados em 2004, o universo da série sempre brincou com a cultura pop de forma bastante particular e cômica. A história até o momento acompanhava Scott Pilgrim, um jovem músico que se apaixona por Ramona Flowers. O problema é que, para namorá-la, Scott precisa derrotar seus sete ex-namorados malignos.
A série mistura romance, humor e batalhas exageradas inspiradas diretamente na lógica dos videogames. Inimigos explodem em moedas, personagens parecem ter vidas extras e conflitos pessoais se resolvem literalmente na base da pancadaria. Um perfeito tema para um beat ’em up, não é mesmo?
Esse universo acabou atravessando diferentes mídias ao longo dos anos, incluindo o filme Scott Pilgrim contra o Mundo e o game Scott Pilgrim vs. the World: The Game. Mas agora, a série retorna com Scott Pilgrim EX e promete muitas novidades.
Pancadaria com DNA Arcade
Vale um detalhe importante: eu não tinha muita familiaridade prévia com a franquia. Tudo que sabia até o momento era o que via pela internet aleatoriamente, e isso acabou tornando a experiência interessante por outro motivo: jogar Scott Pilgrim EX sem nostalgia revelou o quanto o jogo consegue se sustentar por conta própria.
Desenvolvido pela Tribute Games, esse é um jogo de aventura 2D que continua sendo um beat ’em up clássico, mas desta vez Scott e toda a turma chegam com novidades que vão possibilitar fazer mais do que apenas brigar pelas ruas. O jogador escolhe entre personagens conhecidos da série e atravessa cenários resolvendo missões, enfrentando grupos de inimigos usando combos, ataques especiais e objetos encontrados pelo caminho.

Uma das primeiras novidades que vemos por aqui é a própria história. Desta vez estamos diante de um conteúdo inédito, escrito pelo próprio autor para acalentar os fãs órfãos da franquia. A jornada começa quando os membros da banda Sex Bob-Omb são sequestrados por Metal Scott, uma versão maligna do nosso protagonista. O crime deixa fendas de tempo e espaço abertas pelo mapa, tornando Toronto um lugar interdimensional, onde as ruas possuem passagens rápidas para a praia, por exemplo.
Sua missão é resgatar todos os membros, mas até que isso aconteça espere por muitas lutas contra as gangues dos Veganos, Robôs e Demônios. Além disso, o jogo está lotado de missões secundárias, algumas bem divertidas que incluem uma curiosa partida de voleibol. Todos os objetivos recompensam com itens de missão ou moedas que serão úteis para adquirir consumíveis.

O combate funciona bem justamente por ser direto. As lutas são rápidas, exigindo atenção ao posicionamento, e podem até surpreender pelo nível de desafio em determinados momentos. Mesmo nas primeiras horas, o jogo já demonstra que não quer ser apenas um passeio. Existem diversos combos possíveis, agarramentos, evocações de parceiros, poderes especiais, entre diversas maneiras de dar uma boa surra em qualquer inimigo.
São 7 opções de personagens e cada um possui golpes e finalizações diferentes. Além disso, eles também têm níveis de experiência próprios. Com isso em mente, quando for trocar de personagem, talvez seja necessário evoluir um pouco suas habilidades até conseguir acompanhar a progressão. Também há acessórios que ajudam a aprimorar os atributos de força, vitalidade e agilidade, sendo uma composição importante para ter energia suficiente nos combates, já que as hordas muitas vezes são bastante volumosas.

Explorando uma Toronto Fragmentada
Essa quantidade de detalhes pode tirar a simplicidade que os beat ’em ups propõem comumente, mas acaba sendo uma gestão interessante por trazer mais profundidade ao jogo. O que realmente incomoda são os checkpoints distantes. Veja, há muitos espalhados pelo cenário, mas algumas vezes, ao ser derrotado, você ressurge muito longe e ainda precisa rever todos os diálogos sem opções de pular, o que acaba se tornando um pouco repetitivo.
Toronto também esconde muitos segredos. Existem 12 itens como coletáveis para encontrar. Eles podem desbloquear um ótimo aliado nas batalhas, também há outros que vão ajudar com a recuperação da sua saúde ou causar danos ainda maiores aos inimigos, algo especialmente útil se estiver jogando sozinho. E se você é daqueles que curte conquistas, há um menu dedicado a uma lista de objetivos para cumprir e fechar 100% o game.

Dá para cumprir esse resgate e curtir Scott Pilgrim EX com até 4 jogadores locais e on-line. Nesta modalidade há diversas formas de jogar: é possível usar o GameShare para compartilhar o jogo com aquele amigo que não possui o título, também é possível entrar em sessões on-line e acompanhar outros jogadores, bem como convidá-los para as suas sessões, o que ajuda na progressão. Fica o aviso: o cross-play está liberado, então você pode jogar com amigos que tenham o jogo em outras plataformas e essa reunião resulta num caos maravilhoso.
Jogar sozinho pode ser bastante desafiador. Apesar do combate frenético e das diversas habilidades, as hordas de inimigos podem ser complicadas. Existem muitas variações deles, com golpes, poderes e objetos sendo arremessados. Dar conta de tudo é um baita desafio e, no fim, haja vida para lidar com um chefão. Dividir esse desafio pode tornar as coisas um pouco mais fáceis, fica a dica.

Sozinho ou on-line, não dá para deixar de notar o visual do jogo. A pixel art é vibrante, cheia de personalidade e extremamente expressiva. Cada cenário parece cuidadosamente construído, repleto de detalhes e abarrotado de referências espalhadas pelo ambiente. Isso foi uma completa surpresa para mim, já que nunca havia notado essa característica da série. E em conjunto com os amigos, é uma farra de pixel art e brigas muito divertidas.
Outra coisa que chama atenção são as músicas da banda Anamanaguchi. O rock em 8-bit é energético, deixando as jogatinas sempre animadas. Quem conhece sabe que a banda acompanha a série e, desta vez, suas composições também são inéditas, feitas inteiramente para dar vida a Toronto e a toda essa aventura.

Mesmo sem conhecer profundamente o universo da série, é fácil perceber que Scott Pilgrim EX está cheio de homenagens à cultura pop, quadrinhos e videogames. Explorar cada área muitas vezes vira um exercício de curiosidade, tentando identificar o máximo possível dessas referências escondidas. E isso rende sempre aquele sorrisinho bobo ou até uma recriação mental do meme do Leonardo DiCaprio, sabe?
Scott Pilgrim EX tem uma cidade mais viva do que o esperado
Diferente do jogo de 2010, Scott Pilgrim EX tenta expandir um pouco o escopo da experiência. Em vez de apenas avançar por fases lineares, como é o costume dos jogos deste gênero, aqui há uma versão explorável de Toronto. O jogador pode circular por áreas da cidade, conversar com personagens, aceitar pequenas missões e revisitar locais já explorados, quase como um bom metroidvania.
Essa estrutura torna o mundo mais vivo, dando a chance de rever e descobrir curiosidades a cada passagem, ainda que nem sempre seja completamente variado, já que em termos de combate não muda muito. Não há, por exemplo, aquisições de novas habilidades que permitam abrir novos lugares ou enfrentar novos tipos de inimigos. Ainda assim, é uma boa maneira de aprimorar o personagem e conhecer outros rostos da história.

De qualquer forma, a exploração pode se tornar um pouco repetitiva em alguns momentos, mas raramente chega a ser um problema real. O próprio jogo permite passar correndo entre as áreas, então quem preferir manter o foco nas missões consegue fazer isso sem grandes interrupções (exceto pelos bate-papos). Inclusive, o jogo sempre indica onde está o próximo objetivo, outra característica que o distancia de um metroidvania.
Em busca de easter eggs
Para quem gosta de observar o cenário e descobrir pequenos detalhes, a cidade acaba se tornando um espaço curioso de explorar, ainda mais porque você se depara com objetos que podem não fazer muito sentido à primeira vista, pedindo um pouco da sua atenção para encontrar seus segredos.
O peso da comparação pode ser inevitável. Para muitos jogadores, a referência mais direta ainda será Scott Pilgrim vs. the World: The Game. O jogo de 2010 se tornou cult justamente por reviver com precisão o espírito dos beat ’em ups arcade: fases diretas, combate intenso e progressão rápida.

Já Scott Pilgrim EX tenta ampliar essa proposta, adicionando a exploração e uma estrutura um pouco mais aberta, além dos aprimoramentos. Isso pode parecer uma evolução natural ou apenas uma mudança de ritmo em relação ao formato clássico, uma forma ousada de tentar renovar o gênero. Todas essas expansões tornam o jogo mais robusto, mas, honestamente, ainda conseguem manter a jogabilidade simples e sua essência de briga de rua.
Seja como for, o jogo mantém aquilo que define a série: estilo visual forte, humor irreverente e combates pensados para serem caóticos e divertidos. Outra característica que o jogo preserva é seu estilo de fonte para textos. Apesar de ser algo próprio, é um pouco incômodo e às vezes dificulta a leitura, isso me incomodou um pouco, principalmente no modo portátil.

Scott Pilgrim EX expande uma fórmula que já funcionava, adicionando novas possibilidades sem abandonar o espírito arcade que define a franquia. Mesmo para quem não tem ligação prévia com o universo de Scott Pilgrim, o jogo consegue se sustentar pela personalidade, pelo visual marcante e pelo combate divertido.
E para quem já conhece e acompanha, com certeza é uma adição mais que bem-vinda, já que se trata de uma história inédita. A exploração da cidade poderia ser mais variada em alguns momentos, mas a quantidade de detalhes, referências e pequenos elementos espalhados pelo mundo ajuda a manter a experiência interessante e animada.
No fim das contas, Scott Pilgrim EX abraça aquilo que sempre foi seu maior trunfo: pancadaria estilosa, humor absurdo e uma celebração constante da cultura gamer. É quase como uma representação de cada um de nós em um mundo fantástico que poderíamos viver, e por isso, se você, assim como eu, ainda não conhece essa série, por favor, não perca tempo e jogue.
Prós:
🔺Tem uma história cômica e inédita
🔺Está abarrotado de referências da cultura gamer
🔺O combate é divertido e cheio de possibilidades
🔺Tem coop local e on-line com cross-play
🔺O visual em pixel art é lindíssimo e cheio de detalhes
🔺A exploração e os aprimoramentos renovam o gênero…
Contras:
🔻… mas podem incomodar fãs mais tradicionais de beat ‘em up
🔻Às vezes os checkpoints podem ser distantes
🔻Geralmente as missões secundárias são simples demais
Ficha Técnica:
Lançamento: 03/03/2026
Desenvolvedora: Tribute Games
Distribuidora: Tribute Games
Plataformas: Switch 2, PS5, Xbox Series, PC
Testado no: Switch 2


