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Retratar doenças mentais é sempre um grande desafio. Mesmo com os avanços da psicologia e da medicina, esse é um assunto que, atualmente, não tem a devida importância. Jovens e adultos sofrem diariamente com os males causados por doenças invisíveis, como a depressão e a ansiedade, muitas vezes se recusando a procurar ajuda especializada. Iris and the Giant é um jogo que busca retratar os sentimentos proporcionados por essas doenças através de um carteado desafiador e intrigante, mas sem perder a melancolia de uma narrativa que toca o jogador.

Transformar assuntos sérios, como a depressão e o bullying, em arte é algo louvável; poucas mídias conseguem, de fato, cumprir esse objetivo de uma forma ideal. Felizmente, os desenvolvedores de Iris and the Giant tiveram a sensibilidade necessária para fazer uma abordagem muito satisfatória ao tema. Contudo, será que apenas a maneira com que o jogo trata desse assunto é o suficiente para torná-lo bom? O jogo tem a faca e o queijo na mão, pois a mistura de jogos roguelike com o gênero de cartas é, como já foi mostrado em outros jogos, bem satisfatória.

Then the unnamed feeling takes me away…

A protagonista do jogo se chama Iris, uma jovem extremamente tímida que sofre bullying em sua escola por conta do seu comportamento. Ninguém entende o que se passa com ela, nem mesmo os seus pais que, por mais que tentem se aproximar, não entendem o motivo disso.

Iris and the Giant te leva ao mundo imaginário de Iris, onde os problemas ocasionados pelo seu psicológico aparecerão em forma de monstros. Trata-se de uma jornada intimista, onde o jogador é transportado para um mundo surreal dos demônios internos da protagonista.

Imagem do jogo Iris and the Giant
É bem perceptível que os monstros são representações dos demônios internos da protagonista.

O sistema de melhorias aqui também é inspirado nessa temática. O jogo oferecerá cristais durante os níveis e estrelas ao se derrotar os inimigos. Atingindo uma quantidade certa desses elementos, será possível investir em melhorias bastante úteis durante essa jornada. As melhorias de estrela são chamadas de personalidade, e representam o crescimento emocional de Iris quando ela “mata” os seus demônios. Ela poderá investir, por exemplo, na sua força de vontade, onde a barra de vida irá aumentar a cada nível melhorado.

Um carteado simples e desafiador

Apesar da sua história introspectiva, Iris and the Giant é mais um roguelike com elementos de jogos de carta. A sua jogabilidade é extremamente simples, mas exigirá uma dose de estratégia por parte do jogador. As ações serão feitas por meio de cartas, onde elas ficarão dentro da bolsa de Iris e serão descartadas após seu uso – com exceção de algumas cartas e certas condições de melhoria desbloqueáveis. Cartas melhores serão desbloqueadas ao final de cada jogatina.

O combate é fácil e intuitivo.

Os inimigos são bem desafiadores. As unidades mais básicas são relativamente fáceis de lidar, morrendo com apenas um golpe e não dando muito dano. Entretanto, ao se avançar na história, novas unidades aparecem, incluindo alguns chefes de níveis. Unidades que possuem algum tipo de poder especial, como roubar cartas ou realizar ataques mágicos, serão uma baita de uma dor de cabeça.

Uma característica interessante é que a morte é recompensada por aqui, liberando novas cartas, melhorias e até mesmo amigos imaginários ao final de cada jogatina. Os amigos imaginários, por sua vez, adicionam um elemento extra ao jogo. Eles podem facilitar a sua vida, mas também possuem desvantagens atreladas. Para desbloqueá-los, será necessário cumprir alguns objetivos pré-definidos como, por exemplo, chegar até um certo nível sem o auxílio de melhorias.

I don’t feel the sun is coming out today

Um ponto a ser destacado em Iris and the Giant é o seu excelente estilo artístico. Com uma paleta de cores em tom pastel, o estilo meio abstrato escolhido remete muito à mente da personagem. Os flashbacks contidos aqui são ilustrações do mesmo traço, contando episódios marcantes da história da personagem. Vale a pena também destacar o trabalho de dublagem que, mesmo contendo poucas frases, é muito marcante e combina bastante com a temática.

No decorrer do jogo são apresentados flashbacks de eventos marcantes da vida de Iris.

A missão de lidar com um assunto tão complicado como a depressão é executada com a sensibilidade necessária. Desde o início é possível compreender como os problemas da protagonista influenciam os inimigos e as mecânicas contidas. A história é bem simples, mas cada flashback deixa o jogador curioso para saber o que acontecerá com Iris. A mistura da simplicidade com o tato dos desenvolvedores é o que torna a atmosfera do jogo tão interessante.

Em suma, Iris and the Giant é um jogo com uma narrativa impactante e bastante relevante nos dias atuais, com uma jogabilidade bem simples e já conhecida. É uma verdadeira jornada nos sentimentos de uma personagem cujos traumas vivenciados podem criar uma relação de identificação com o jogador. Tendo dito isso, o seu gameplay, por mais simples que seja, é bem desafiador e interessante, mas fica repetitivo com o tempo. Esse é um jogo que vale muito a pena pela sua narrativa e atmosfera, tendo a jogabilidade como fator secundário.

Imagem do texto de RKGK

Review – RKGK / Rakugaki

Marco AntônioMarco Antônio10/06/2024