The Sinking City 2 foi uma grata surpresa, do começo ao fim. Não só por deixar o lado investigativo de The Sinking City em segundo plano, mas por transformar a franquia em um survival horror de altíssima qualidade. Mais impressionante ainda foi a desenvolvedora Frogwares, baseada em Kiev na Ucrânia, encarar uma guerra enquanto desenvolvia o jogo, além dos desafios de um gênero inédito para o estúdio. Tal decisão ocorreu por sobrevivência mercadológica, uma vez que os jogos de survival horror vendem muito mais do que os de detetive. E certamente não foi uma decisão fácil, pois a Frogware tem em seu DNA os jogos investigativos, incluindo vários do Sherlock Holmes.

Para desenvolver The Sinking City 2, os desenvolvedores enfrentaram de tudo: o perigo constante da guerra, falta de energia, falhas no sistema de aquecimento durante o inverno, escassez de água, privação de sono, destruição de bens e até tragédias familiares. Em seus quase 4 anos de desenvolvimento, a equipe sequer conseguiu se encontrar pessoalmente. E ainda assim conseguiram entregar um jogo que, na minha opinião, entra fácil pra lista dos melhores jogos do ano.

The Sinking City 2

Nova cidade, protagonista e mistérios

No primeiro game, de mundo aberto e ambientado nos anos 20, temos Charles Reed investigando o motivo de suas estranhas visões e a inundação que atinge a cidade de Oakmont. The Sinking City 2 se passa praticamente nos anos 30, na cidade de Arkham (praticamente sem habitantes, evacuada após a inundação) e sob a ótica de Calvin Rafferty. Na trama, ele e sua noiva Faye Bennett, ambos estudiosos do ocultismo, realizam um ritual que acaba dando muito errado. Ele acorda sem memória e ela fica presa no mundo dos sonhos, em uma espécie de coma, com uma máscara sobrenatural formada em seu rosto. Para tentar salvá-la, Calvin parte em busca de um livro que está na biblioteca de uma faculdade, cujo as recitações podem acordá-la. Mas, claro, este é só o pontapé inicial para uma aventura muito maior – e também mais úmida.

The Sinking City 2 mantém o estilo lovecraftiano do game anterior, expandindo ainda mais as influências dos contos de H.P. Lovecraft. Você percebe isso em anotações, em itens, em criaturas, e até em arma. Aliás, o visual é a primeira coisa a chamar a atenção nesta reimaginação. O salto de qualidade do game original para este é imenso, tamanho o capricho nos mínimos detalhes. Está no nível de um jogo AAA, não devendo nada para os grandes jogos da atualidade.

The Sinking City 2

A navegação de barco continua presente, mas como parte inicial do jogo. Sai o mundo aberto e entram quatro locais imensos, com muitas áreas para explorar de forma mais contida. A investigação complexa de outrora dá lugar à um quadro de investigação onde Calvin conecta as pistas encontradas para desvendar mistérios opcionais. O jogador pode ignorar tudo e só curtir a ação e exploração, se assim desejar. Porém já adianto que os puzzles deste game são muito bons e criativos, com boas recompensas.

Jogando com fórmula segura

No gameplay, The Sinking City 2 segue à risca a fórmula dos Resident Evil modernos. Criação de itens com recursos coletados, inventário com espaço limitado, munição escassa, inimigos com comportamentos e pontos fracos distintos, salas seguras com baú, tá tudo aqui. O jogo falha apenas na ausência de dois atalhos importantes: um para curar rápido (sem precisar entrar no inventário) e outro para alternar entre a tela do puzzle e o quadro de investigação. Também não tem a opção de auto-organizar os itens do inventário, mas estes são pormenores que uma atualização pode resolver.

The Sinking City 2

Além das armas de fogo, Calvin conta também com talentos para desbloquear na Sombra Noturna. A máscara de Faye apresenta 4 espaços para ativar os talentos que mais gostar e 4 blocos de melhorias (do nível básico ao excepcional, este último aberto ao terminar o game pela primeira vez) para desbloquear um a um gastando seus Pontos Anciães, adquiridos durante a exploração e também ao conectar as pistas corretamente no quadro de Investigação. São talentos como dar mais dano aos inimigos próximos, conseguir mais munição durante a criação, etc.

Quanto aos inimigos, os Rastejantes, tudo começa com os vermes gigantes invadindo corpos de pessoas mortas. Tais “morto-vivos” aparecem em duas variações, um comum e outro mais pútrido com a cabeça aberta, que corre agressivamente pra cima do jogador para agarrá-lo. Vindos do jogo original, temos 3 criaturas atualizadas: Stygian (uma espécie de aranha com membros humanos), Lethian (humanóide que abre uma boca imensa no lugar do rosto e “atira” à distância) e Acheronian (criatura formada por vários corpos, que cospe ácido). Há outras duas criaturas inéditas e os chefões, que infelizmente são poucos.

The Sinking City 2

Tensão incessante

Se tem uma coisa que The Sinking City 2 faz com maestria é deixar o jogador tenso. A quantidade de inimigos somada à frequente escassez de recursos força o jogador a correr em muitos momentos. Perdi a conta de quantas vezes fugi até uma sala segura com um inimigo na minha cola, só pra guardar um item importante no baú e fazer aquele save maroto. Até quando você tem munição o suficiente pra enfrentar geral, o game dá um jeito de te acuar. A tensão que senti durante as mais de 12 horas de jogatina foi um caso genuinamente raro. Muito disso graças ao game design que, mesmo sendo previsível – com corpos que você sabe que irão levantar depois – funciona perfeitamente.

Quanto à história, The Sinking City 2 acerta em todos os aspectos: protagonista carismático e bem humorado, documentos com informações interessantes de ler, NPCs memoráveis, um grande vilão cósmico e muita coisa errada rolando neste universo lovecraftiano. A lore é rica em detalhes, mas sem pecar pelo excesso. E está tudo devidamente traduzido para Português do Brasil, incluindo excelentes adaptações como “Malandro é Malandro, Maré é Maré”. Genial!

The Sinking City 2

The Sinking City 2 é uma obra prima ucraniana, feito por um estúdio indie apaixonado pelo que faz. Um jogo que entrega tudo o que se espera do gênero e um pouco mais, com surpresas a cada momento. Um survival horror primoroso que não deixa nada a desejar se comparado aos jogos da Capcom, sua maior inspiração.

95 %


Prós:

🔺Protagonista carismático
🔺História muito bem escrita, com bastante lore
🔺Os puzzles são excelentes, alguns bem desafiadores
🔺Direção de arte incrível, com cenários imersivos
🔺Gameplay tenso e satisfatório
🔺Ambientação sonora impecável
🔺Localização PT-BR muito bem adaptada

Contras:

🔻Faltaram atalhos práticos para algumas situações

Ficha Técnica:

Lançamento: 18/08/2026
Desenvolvedora: Frogwares
Distribuidora: Frogwares
Plataformas: PS5, PC, Xbox Series
Testado no: PC

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