Quando vemos obras sobre o futuro próximo, vemos letreiros neon, implantes tecnológicos ocultos por pele sintética e corpos completamente – ou quase completamente – cibernéticos. Tormentum II, tal como seu antecessor, segue a linha oposta de pensamento e traz de volta o futuro tecnorgânico, onde a tecnologia invade e corrompe o corpo humano.
Tendo H. R. Giger como seu maior expoente através de seus trabalhos na série Alien, o tecnorgânico, ou biomecânico, traz uma visão que mistura elementos fantásticos com uma tecnologia cada vez mais intrusiva, que viola os sentidos daqueles incorporados em seus mecanismos. Um pesadelo de sua própria criação espera David em um futuro que mistura o fantástico e o perverso em uma simulação perversa e absurda.
O fantasma na máquina
Tormentum II apresenta ao jogador o conturbado David, um habitante de uma cidade futurística distópica onde a poluição, decadência e declínio são cada vez mais visíveis e proeminentes na sociedade. Não sendo totalmente um recluso, David evita ao máximo ter de sair de seu apartamento, pois não consegue conceber e realizar o ato de estar próximo e presente de uma sociedade tão decrépita, e também pela extremamente baixa qualidade do ar.

David tem pesadelos recorrentes de um mundo abstrato onde criaturas estranhas o observam e uma mulher em vestes brancas o guia até um baú, escondido dentro de um labirinto. Logo descobrimos que estes pesadelos são algo mais real do que ele imagina e em breve sua vida tomará uma direção que ele jamais imaginara. Principalmente após a obtenção de um novo processador, entregue a ele por um estranho que já sabia seu nome, em um bar da cidade.
Após chegar em seu apartamento e começar a realizar certos reparos, David sofre um acidente e fica no limiar entre os mundos pelo que Tormentum II nos dá a entender, inicialmente em uma espécie de Limbo que se afirma como uma recriação de seu apartamento e prédio, mas logo é trocado pelo cenário surreal e absurdista conhecido como Tormentum.
Durante sua jornada por Tormentum, David encontrará as roupas usadas previamente por outro andarilho destas terras e estruturas. Também irá encontrar os estranhos habitantes deste mundo, que variam entre criaturas que são extremamente humanas em suas formas e maneirismos, ou seres totalmente aliens, seja por suas formas ou fisionomias, ou pelo abuso que estas terras infligem em seus habitantes.

A verdade está lá dentro
David dentro deste mundo biomecânico irá se encontrar com os mais belos pesadelos, afinal de contas, a direção artística de Tormentum II é simplesmente magnífica. Esta direção de arte em abundância escorre para os quebra-cabeças do jogo, que quase sempre irão depender de algum item ou elemento do cenário que poderá se estender a uma área inteira.
Um exemplo disso é o um tanto quanto mórbido puzzle dos crânios, onde o jogador usa crânios de diferentes pesos para determinar o ciclo de vida de uma criatura, indo desde sua infância até sua morte, ou então o quebra-cabeça onde devemos utilizar marcações cartográficas em uma fita metálica e entregar a um cartógrafo cego, que utiliza uma espécie de cérebro externo como olhos para se guiar.
Fortemente inspirado pela arte biomecânica, Tormentum II não se segura na hora de apresentar o abuso e sofrimento das criaturas deste universo. Exemplos como a figura feminina que entrega um de seus pulmões artificiais para o jogador avançar em um dos quebra-cabeças, ou a forma de vida conectada por todos os orifícios da cabeça em uma máquina semelhante a uma gaiola/elevador.

Porém, a dúvida que sempre paira em Tormentum II é se David realmente está vivenciando aquilo, se está preso em uma simulação em seu computador, que utiliza uma interface intracraniana para logar o mesmo em seus sistemas, ou se o acidente pode ter sido pior do que se acreditava. Resta ao jogador, enquanto controla David, descobrir os segredos que envolvem esta trama.
O libertar através da prisão
Meu único grande problema com Tormentum II foi no início do jogo, onde, mesmo com ele tendo uma boa narrativa e construção interessante de mundo, admito que David é um protagonista bem difícil de se engolir no começo da trama. Durante sua jornada, ele passa por certas mudanças que o tornam mais fácil de se aturar e não agindo mais como um sabe-tudo acima de tudo e todos.
Outro ponto que achei que poderia ser mais bem trabalhado e desafiador são os puzzles, que passaram bem rápido, sendo relativamente fáceis caso o jogador já tenha um certo ritmo ou consistência de jogos do gênero de resolução de mistérios ou point-and-click. Não são pontos tão negativos, mas ao meu ver diminuem bastante o valor de replay.

Além da influência visual incrível a narrativa também possúi uma grande quantidade de finais pelo que pude observar, o que aumenta bastante o valor de replay, podendo assim ver diferentes facetas do que poderia ter ocorrido diferente do considerado final “real” da história. As vezes por um erro simples, um final totalmente diferente pode acabar ficando totalmente inascessível ao jogador, pedindo uma nova “rodada” para finalmente poder ver o que aconteceria.
Tormentum II é um projeto interessante, muito bem trabalhado e executado. Todo o tempo levado para se finalizar e entregar valeu a pena para que os jogadores e fãs de Tormentum: Dark Sorrow experienciassem uma nova jornada pelas terras tortuosas e mecanicamente fascinantes de Tormentum e suas ilhas repletas de segredos, vida, morte e dor.
Prós:
🔺História interessante e excelente construção de mundo
🔺Direção de arte e sonora interessante e original
🔺Mecânica de puzzle intrigante e desafiadora em certos momentos chave
Contras:
🔻Protagonista pouco cativante
🔻História um tanto previsível
🔻Puzzles simples na maior parte do tempo
Ficha Técnica:
Lançamento: 23/07/2026
Desenvolvedora: OhNoo Studio
Distribuidora: OhNoo Studio
Plataformas: PC


