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Antecipado por uma comunidade apaixonada, Victoria 3 foi, durante muito tempo, motivo de piada pelos fãs do gênero de estratégia justamente por nunca ser anunciado. Após muita espera, eis que a sequência do maior simulador geopolítico e econômico da Paradox Interactive finalmente está entre nós, trazendo consigo a dura missão de fazer jus ao legado de uma das franquias mais complexas dos jogos; mas, ao mesmo tempo, expandindo o leque a fim de conquistar um público que não está acostumado com o controle de tantas variáveis.

Com um nível incrível de detalhamento histórico, a Paradox é uma desenvolvedora famosa por abordar épocas antigas de forma verossímil. Aqui, mais uma vez, esse fato não poderia ser diferente; o nível de pesquisa referente à disposição geopolítica do mundo durante o século XIX, tal qual mencionado em meu preview, é de impressionar. Em Victoria 3, qualquer país pode, mediante às escolhas corretas, virar uma superpotência econômica; você terá todas as ferramentas para levar uma nação à glória, mas a que custo?

A economia da complexidade

Primeiramente, é impossível falar da franquia Victoria sem lembrar da complexa simulação econômica por trás do jogo. Em meu preview, mencionei que esse é o motivo pelo qual Victoria 2, o título anterior da franquia, possui jogadores ativos até hoje. Victoria 3 continua apostando na simulação econômica, oferecendo ao jogador ferramentas que o permitem alterar a dinâmica do mercado interno e global.

A economia de Victoria 3 é baseada em cadeias de produção. Nações pouco desenvolvidas tendem a ter uma economia voltada para a agricultura; elas ofertam produtos pouco complexos que atendem às necessidades básicas da população e que, também, servem de base para a indústria. Por outro lado, países mais desenvolvidos investem em indústrias, e é justamente nessa parte que a complexidade econômica aparece.

Victoria 3
Sobreviver a duas revoltas é o primeiro grande desafio do Brasil

Controlado pela oferta e pela demanda, o preço dos produtos tende a aumentar ou a diminuir baseado no consumo e na produção. O consumo pode ser alterado por diversas variáveis, como: aumento no padrão de vida, aumento populacional e exportação. Se o consumo aumenta e a produção se mantém estável, isso significa que o preço do produto tende a subir. Mais uma vez citando o que foi escrito no preview do jogo, a lei de oferta e demanda impera em Victoria 3.

Do outro lado da moeda, a produção também pode ser impactada por diversos fatores. O exemplo mais comum é a expansão dos edifícios produtores, uma vez que eles podem contratar mais trabalhadores para aumentar a produtividade. Porém, caso o jogador não disponha da mão de obra necessária para tal ação, há outras opções. 

Quem prestou atenção nas aulas de geografia deve se lembrar do modelo neomalthusiano, onde o pensamento de Thomas Malthus fora utilizado como base para chegar à conclusão que, caso a humanidade continuasse crescendo, haveria uma grande falta de alimentos. Entretanto, para contrariar os Neomalthusianos, não foi isso o que aconteceu, e a produção de alimentos não cresceu em forma de progressão aritmética. 

Victoria 3
Os preços podem oscilar de acordo com a disponibilidade do mercado mundial

Em Victoria 3, a produção de mais alimentos com um uso reduzido da mão de obra também é possível; basta ter acesso às tecnologias corretas – como o uso de fertilizantes – que a produção pode aumentar exponencialmente. Aliás, esse processo não funciona somente com os alimentos, mas também com quase todo tipo de produto; aumentar a produtividade de um edifício pode ser simples, contando que você tenha a tecnologia necessária. A opção de alterar o modo de produção de uma construção, a fim de torná-la mais eficiente e utilizar um menor número de trabalhadores, é uma novidade que agrega ao jogo.

Uma nova abordagem militar

Alvo de muitos protestos durante o desenvolvimento, a parte militar de Victoria 3 sofreu mudanças significativas em comparação ao título anterior. O choque inicial dos interessados pelo jogo foi a notícia que as tropas não seriam mais comandadas manualmente, fugindo completamente do modelo adotado previamente em franquias como Crusader Kings e Europa Universalis. No geral, nota-se que o modelo militar adotado pela Paradox é uma simplificação do que é utilizado em Hearts of Iron – onde, em vez de controlar um regimento pelo mapa, controla-se um front.

A dinâmica da guerra é simples. Primeiramente, define-se um alvo para a investida. Os objetivos podem variar desde a abertura de portos até a completa subjugação de uma nação. Uma vez definido o alvo, a parte diplomática toma entra em cena. Aqui, os países envolvidos diretamente podem cooptar outros países para o seu lado, utilizando pontos de manobras diplomáticas e prometendo vantagens aos aliados. Há, também, a possibilidade de adicionar outros objetivos de guerra durante essa fase. Por último, a hora da verdade envolve as últimas preparações para a guerra. Caso um lado esteja muito mais forte que o outro, é possível obter o objetivo primário da guerra sem a necessidade de um conflito apenas pela desistência do outro lado. Todavia, caso os dois países estejam dispostos, a guerra começa.

Victoria 3
Em vez de tropas, o jogador apenas observa os fronts avançando ou recuando

Apesar de não controlar diretamente as tropas, você pode dar algumas ordens aos seus generais e almirantes. Cada um deles terá uma quantidade limitada de tropas em seu comando, e devem ser alocados manualmente ao front de guerra. Os generais podem avançar ou defender um front, enquanto um almirante pode, por exemplo, iniciar uma invasão naval a fim de criar um novo front. Não há muita complexidade fora desses fatores, sendo que a vantagem e a desvantagem está, também, atrelada às tecnologias militares empregadas, onde um exército muito numeroso pode sofrer para um exército menor, porém mais avançado. Nesse sentido, a tecnologia militar continua com a mesma importância em relação ao Victoria 2.

De modo geral, a parte militar está subordinada ao que um jogo como Victoria 3 fora feito para ser: um simulador geopolítico. Por muitas vezes, a força do exército é útil para a projeção do poder, e Victoria 3 implementa essa mecânica, onde avanços tecnológicos no setor militar, quando implementados e com a demanda material suprida, aumentam substancialmente o prestígio de uma nação. Até mesmo na parte bélica é possível resolver inúmeros conflitos somente pelo medo.

Complicações políticas

Nenhum simulador de geopolítica estaria completo sem a simulação política. Mais do que juntar recursos e expandir a economia, é necessário pensar nas pessoas que fazem toda a engrenagem mover. Nesse caso, a política influencia diretamente na vida dos cidadãos, que ficam satisfeitos ou revoltados dependendo da maneira como o país é governado.

Diversos grupos de interesse compõem um país. Victoria 3 retrata alguns grupos – como os intelectuais, os donos de terra, os militares e a igreja –, onde o papel deles é influenciar nas leis que regem aspectos econômicos, militares e sociais do Estado. Cada grupo terá uma lista de características fixa que dizem respeito ao apoio deles a um conjunto de leis, além da influência direta do líder político que, em sua posição, adiciona uma característica rotativa ao grupo. 

Pegando como exemplo o grupo dos donos de terra, eles são contra políticas referentes à abolição da escravidão, mas pouco dizem quanto as políticas econômicas. Contudo, um líder político a favor do liberalismo de mercado pode surgir e, nesse caso, o grupo dos donos de terra passa a ser a favor de políticas liberais até que esse líder saia do poder. Com o dinamismo dos líderes, a tarefa de passar leis fica mais volátil.

Victoria 3
Suprimir grupos políticos é uma estratégia viável

Além do conjunto de leis, cada grupo possui bônus relativos à opinião deles perante ao Governo. Caso eles estejam felizes, alguns buffs – como atrair mais imigrantes e aumentar a eficiência industrial, por exemplo – são aplicados ao país. Entretanto, caso um grupo político esteja insatisfeito, uma penalidade é aplicada, podendo levar a uma revolta caso a opinião do grupo esteja muito baixa e eles sejam muito poderosos.

Balancear o jogo político se mostra mais difícil do que no título anterior. Deve-se ter em mente que, além de aprovar leis que beneficiem o país no contexto do jogo, mexer com os poderosos pode acarretar em penalidades severas, ameaçando seriamente a estabilidade da nação. Portanto, saber qual grupo político apoiar ou suprimir é uma questão de sobrevivência; e torna-se um elemento fundamental para quem deseja conquistar o mundo.

Conclusão e veredito

O retorno da franquia Victoria 3 possui todos os elementos necessários para satisfazer os fãs do gênero. Mesmo abrindo mão dos fatores mais complexos contidos em Victoria 2, a economia de Victoria 3 se assemelha aos processos da vida real. O funcionamento dos mercados continua sendo um dos pontos altos da franquia, e não há nada comparável, seja em complexidade ou em funcionamento, nos outros títulos do gênero.

Fora da parte econômica, Victoria 3 ainda não faz feio. Muitos sentirão falta dos exércitos controláveis, mas essa não é uma mudança negativa. Victoria 2 não era um título focado em militarismo, e as mecânicas militares não possuíam a mesma profundidade e funcionalidade das outras franquias que utilizam o mesmo padrão – sendo que até hoje essas ainda sofrem críticas. Como simulador geopolítico, o grande poder militar é, na maioria das vezes, o de intimidar o inimigo, e Victoria 3 o executa de forma satisfatória.

Victoria 3
A atenção aos pequenos detalhes impressiona

A simulação política é, ao meu ver, o elemento que mais chama a atenção em relação ao Victoria 2. Os grupos políticos estão mais dinâmicos, impactantes e importantes. Ao longo da campanha, grupos políticos com pensamentos similares podem se juntar em partidos e, caso sejam eleitos, o jogador terá que aceitar aquela velha promoção do “pague 1 e leve 2”. Fora as reivindicações para a revogação ou aprovação de leis que, vira e mexe, grupos de oposição instituem, controlar grupos muito poderosos ou suprimir certos grupos são escolhas que, ao longo do jogo, compõem a complexidade estratégica do título.

Victoria 3 é, no lançamento, o jogo mais completo já desenvolvido pela Paradox. Comparando com Crusader Kings 3 – o título que, antes de Victoria 3, era o mais recente da empresa –, as mecânicas parecem muito mais polidas e completas. A tendência é que, no futuro, DLCs adicionem ainda mais conteúdos e agreguem mais ao jogo. Em seu estado atual, Victoria 3, mesmo com mudanças substanciais em relação ao segundo título da franquia, deve agradar os fãs antigos e, de quebra, conquistar um público ainda maior por meio da simplificação da jogabilidade – sobretudo nos elementos relativos à economia. Victoria 3 será a grande referência para as empresas que, no futuro, desejam se aventurar criando jogos grand strategy. 

90 %


Prós:

🔺Boa simulação econômica
🔺Trabalho de pesquisa histórica impecável
🔺Elementos políticos impactantes na campanha
🔺Extremamente viciante
🔺Trilha sonora incrível

Contras:

🔻 Decisões ruins da IA
🔻 Falta de mais opções diplomáticas não invasivas

Ficha Técnica:

Lançamento: 25/10/22
Desenvolvedora: Paradox Interactive
Distribuidora: Paradox Interactive
Plataformas: PC

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