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“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. É uma frase poderosa, quando se lembra que ela foi dita por Leon Tolstoi, um dos maiores romancistas russos, autor de “Guerra e Paz”, por exemplo. Ainda que o escritor tenha se focado na sociedade russa do século XIX, sua literatura era também um retrato do mundo e de sua época. Por esse prisma, poucos jogos são mais acolhedores e globais do que Tchia, uma fábula sobre a distante Nova Caledônia.

A desenvolvedora Awaceb, nativa da região, produziu uma declaração de amor em forma de pixels, um cartão postal de sua terra natal. É um convite para o jogador dar uma pausa dos universos de fantasia europeia ou os contos urbanos norte-americanos ou mesmo um certo Reino do Cogumelo e conhecer um pouco da culinária, da geografia, da música, do dialeto e das tradições desse arquipélago no Oceano Pacífico.

Abençoado por Deus e bonito por natureza

Tchia acompanha as aventuras da menina homônima, que vê seu pai sequestrado por forças desconhecidas. No instante do rapto, ela descobre que possui uma habilidade única: a transferência de alma. A jovem heroína é capaz de possuir animais e objetos e controlar seus movimentos. Com esse poder, muita coragem e a ajuda de simpáticos aliados, ela terá que decifrar os mistérios de sua origem e sua ligação com o tirano que agora comanda todo o arquipélago.

Desde os primeiros minutos, o jogo prende pela exuberância de sua região. A Awaceb utiliza o poder da Unreal Engine 4 não para reproduzir de forma realista as belezas naturais de suas ilhas, mas para “pintar a aldeia”, como diria Tolstoi. Nas palavras de Phil Crifo, diretor criativo do estúdio: “eu queria um estilo que honrasse as cores vivas das paisagens da Nova Caledônia e que ecoasse nossos princípios de design: divertido, alegre e parecido com um brinquedo”.

O entardecer em Tchia é um espetáculo que evoca sensações prazerosas. A simples espuma branca das ondas batendo na lateral de nossa balsa é um beijo cálido que complementa maravilhosamente as múltiplas cores do recife de corais que aguardam o jogador, se ele decidir parar o barco e explorar as águas rasas. A paisagem que se descortina do alto das montanhas provoca dúvidas: explorar até onde a vista alcança ou simplesmente parar mais alguns minutos em contemplação?

A exploração dá a tônica nas primeiras horas. Esse é um mundo completamente aberto e o jogador está livre para ir onde desejar, encontrar atividades, descobrir segredos, percorrer a trilha de um tesouro ou tão somente vagar por aí sem rumo, encontrando pessoas, animais e vistas deslumbrantes. A mão da narrativa é bem frouxa nesse início e esse é um componente fundamental para que o jogador se apaixone por Tchia e pela Nova Caledônia.

A Awaceb usa esse poder de encanto para produzir logo depois a sensação de desconforto diante da ilha dominada pelo antagonista. Solo nada verdejante. Chuva. Lixo nas praias. Fumaça saindo do topo de chaminés industriais.

Far Tchia

Entretanto, o ritmo do jogo muda drasticamente a partir de certo ponto. O que começa como uma aventura simpática ganha tons bastante trágicos. Por mais de um motivo, não recomendaria o título para crianças pequenas. Curiosamente, o momento mais chocante deveria ser inofensivo: uma sequência de piadas envolvendo uma galinha degolada(?) que insiste em se manter viva. Veio sem aviso.

Porém, não é por uma piada esquisita que Tchia se altera em termos de atmosfera e mecânica. A partir da metade do jogo, ele tenta ser Far Cry. As semelhanças já estavam insinuadas com o próprio mapa, lotado de ícones com tarefas opcionais que o jogador pode fazer, e na forma como o mapa vai se desbloqueando, quando a jovem heroína sobe em um ponto alto e emite um grito de guerra. Qualquer semelhança com franquias da Ubisoft é mera coincidência.

O pior pecado de Tchia, no entanto, é tentar reproduzir a jogabilidade de tomada de posto avançado. Temos então bases imensas que irão nos prender por um longo tempo navegando por elas, evitando inimigos e derrubando eles com arremessos de material explosivo. Nossa heroína não luta e nossos inimigos são criaturas míticas criadas de tecido animado. É preciso encontrar os itens certos para destrui-los e isso acaba se tornando tedioso depois de um tempo, principalmente se compararmos com o passeio que o jogo foi até agora.

Felizmente, a Awaceb entende que não cabem aqui a brutalidade ou o desafio de um Far Cry autêntico. Os confrontos são ágeis, porém suaves. Não há perigo real. O máximo que pode acontecer é a jovem Tchia ser capturada e colocada em uma jaula, de onde ela pode sair com tranquilidade usando transferência de alma para o objeto mais próximo. Não há perda de pontos, perda de vida ou perda de progresso quando somos capturados.

Ainda assim, a sensação é de se estar jogando um título diferente daquele que começou. Depois de um longo período executando esse tipo de missão, chegamos na batalha final. Aí, Tchia revela seu segundo grande defeito: não aproveitar adequadamente todas as habilidades apresentadas ao longo da aventura.

Se você esperava usar e abusar da transferência de alma na fase conclusiva do jogo, prepare-se para duas frustrações: um dos desafios é resolvido com a atiradeira, que quase nunca foi solicitada ao longo da aventura; o outro desafio é resolvido com uma mecânica que não havia aparecido em lugar algum anteriormente.

Em uma série de cutscenes, o jogo conclui de uma forma fortemente emocional. Mesmo no pós-créditos, o jogador não escapa. Tomei outro aconchegante abraço apertado da narrativa e as lágrimas não pararam de descer. Encerrada essa jornada, o título retoma ao ponto de partida e, uma vez mais, de alma lavada e coração puro, estamos totalmente livres para explorar essa Nova Caledônia virtual, concluir as tarefas que ficaram em aberto, descobrir outras que só são desbloqueadas após o final e nos despedir adequadamente das amizades que fizemos.

Estive em Nova Caledônia e lembrei de você

O sentimento que fica ao final com Tchia é o da liberdade: de ser uma jovem quase criança e correr por aí, conhecer o amor, desafiar o perigo, fazer amigos. Isso está embutido na grande quantidade de mecânicas. É possível empilhar pedras, balançar em árvores para ser catapultado para o céu, descer de “paraquedas”, procurar pérolas no oceano, esculpir totens, tirar fotos, tocar músicas mágicas, realizar saltos ornamentais… E praticamente todas essas atividades são deliciosas de serem executadas.

A própria identidade visual de Tchia está livre para o jogador. Existe uma imensa variedade de itens cosméticos que podem ser encontrados e combinados para cada jogador ter a Tchia que quiser, do infantil ao punk, passando pelo tribal.

Nessa liberdade toda, quase nada é obrigatório. Desta forma, não existe uma mecânica definidora do jogo, uma habilidade essencial para que ele seja concluído. Segundo minhas observações, com apenas dois momentos de exceção, é possível completar a missão principal sem precisar utilizar transferência de alma para animais. Há uma sensação de que tudo isso foi subaproveitado por design. Em contrapartida, o jogador é livre para repetir e repetir as mecânicas que achar mais prazerosas, sem pressão. Há um ou outro medidor de “energia”, mas nada limitador demais.

Tchia levou anos para ser desenvolvido e mesmo assim escaparam alguns bugs. Na versão para PC, a tecla “C” pura e simplesmente crasha o jogo diversas vezes. É “C” de “crash”, aparentemente. Considerando que a tecla é usada para várias interações, consegui resolver o problema trocando para “X” nas configurações. Em outro momento, um dos inimigos de tecido que enfrentei tornou-se imortal e invisível. A minha única saída foi fugir.

Com todos os seus defeitos, Tchia ainda é uma experiência ímpar. Sua trilha sonora é extremamente cativante. O material de publicidade do jogo tenta vender o aspecto musical do jogador reproduzir as notas no seu ukelele. Sou péssimo em títulos de ritmo e a Awaceb teve a delicadeza de tornar essa interação também opcional. Quer apenas curtir os vários momentos musicais que o jogo apresenta? Fique à vontade. Aperte “X” (no meu caso…) e a personagem irá fazer o acompanhamento automático. Está nas músicas inclusive um dos instantes mais delicados do jogo: o despertar do amor.

O que nos leva a outro defeito de Tchia, porém, desta vez, é um defeito que exalta suas qualidades: é impossível reviver o que você encontra dentro do jogo. Corri para ver se a trilha sonora estava disponível nos arquivos e não estava. Corri para ver se a trilha sonora era vendida separadamente, como o similar Summer in Mara, e não estava. Não há tampouco um recurso para refazer os desafios musicais, como desculpa para ouvir as faixas outra vez.

Da mesma forma, as fotos que tiramos com a câmera do jogo não podem ser compartilhadas para redes sociais ou mesmo localizadas em algum lugar do disco rígido.

Tchia me deixa com saudades de um lugar que nunca fui. Essa era a missão da Awaceb, no final das contas, e não há mais nada do que se reclamar. Falando de seu pedaço de chão nesse imenso planeta Terra, eles conseguiram contar uma história com que todos podemos sonhar. Eles foram universais.

90 %


Prós:

🔺 Cenário, trilha sonora e personagens cativantes
🔺 Variedade de mecânicas deliciosas
🔺 Liberdade de exploração
🔺 Direção de arte que é pura poesia visual

Contras:

🔻 Ritmo confuso
🔻 Ligeiros bugs
🔻 Mecânicas subaproveitadas
🔻 Impossibilidade de se acessar o conteúdo fora do jogo

Ficha Técnica:

Lançamento: 21/03/23
Desenvolvedora: Awaceb
Distribuidora: Awaceb
Plataformas: PC, PS4, PS5
Testado no: PC

Imagem do texto de RKGK

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