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Não sou um grande fã de soulslike, principalmente porque grande parte dos títulos menores que tentam beber dessa fonte aparentam ser apenas uma tentativa desesperada de replicar tudo de mais básico que Dark Souls oferece, só que dentro de temáticas variadas. Steelrising é um desses jogos, desenvolvido pelos franceses do estúdio Spiders, que resolveram reinventar a história dos seus antepassados com uma temática steampunk e uma dificuldade para lá de frustrante.

O que chama atenção em Steelrising não é seu estilo ou mecânicas, afinal ele é um soulslike daqueles que não vão nem um pouquinho além daquilo que os jogos da From Software oferecem há mais de uma década. A história é seu verdadeiro trunfo, pois mesmo não sendo espetacular ou particularmente memorável, consegue prender nossa atenção graças a uma qualidade que está cada vez mais difícil de encontrar nos games: autenticidade.

A última esperança da França

Steelrising reimagina a tão famosa Revolução Francesa, período que se desenrolou no fim do século XVIII e marcou a revolta da população contra a monarquia, que posteriormente viria a cair em toda a Europa. Nesse universo paralelo, a França já contava com tecnologia bastante avançada para a época, levando o rei Luís XVI a colocar um exército de robôs contra seus opositores. Em um ato desesperado, o rei também trancafiou a rainha Maria Antonieta em seus aposentos, mas o que ele não contava é que sua principal arma acabaria sendo utilizada contra ele mesmo.

Steelrising
Nesses momentos a gente sabe que não vem coisa boa por aí…

Desconfiada das medidas extremistas do rei, Antonieta decide mandar sua guarda-costas pessoal – que também é uma automata – para investigar o que está acontecendo em Paris e dar fim ao mal que está assolando sua amada capital. Nós entramos na história no papel de Aegis, uma robô diferente dos demais, mais habilidosa e com uma capacidade maior de raciocínio, podendo até mesmo usufruir de um certo livre-arbítrio.

Steelrising acerta em cheio ao nos oferecer uma história “à moda antiga”, ou seja, que conta com um contexto bem definido, diálogos que enriquecem o enredo e, acima de tudo, uma protagonista que interage com o mundo ao seu redor. Os jogos da From Software sempre foram um tanto desanimadores nesse ponto, pois em sua maioria trazem mundos completamente enigmáticos, com protagonistas mudos e NPCs que não falam nada com nada. Aqui tudo é simples e objetivo, contando até com diálogos interativos – o que você responder não terá peso nenhum na história, mas é um adicional bem-vindo.

Ao mesmo tempo que a história é bacana e se desenrola em um ritmo legal, também não é nada demais. Em nenhum momento você vai encarar um plot-twist mirabolante ou uma sequência de tirar o fôlego, mas pelo menos o jogo entrega o suficiente para nos manter entretidos naquele universo. As limitações técnicas também tiram parte do brilho, já que o jogo tenta ser algo que ele não é (praticamente dando um passo maior que a perna). A expressão facial dos humanos é tão robótica quanto a dos autômatos e a câmera insiste em dar diversos closes nos rostos deles, então muitas vezes é difícil de levar a sério.

Paris tá pegando fogo, bicho!

Combate a vapor

Antes do jogo começar, temos a liberdade de alterar algumas coisas em Aegis, como a aparência e a classe. Ao todo são quatro estilos de combate diferentes para a robô, com armas e atributos distintos, porém você poderá evoluir o que quiser no decorrer da jornada. A classe acaba sendo apenas um ponto de partida, pois conforme avança, poderá personalizar a personagem ao seu gosto.

A variedade de armas é bem legal, incluindo praticamente de tudo, até mesmo dano elemental. O jogo meio que nos força a montar um arsenal variado, pois muitas habilidades específicas estão atreladas às armas que usamos e não achei isso necessariamente bom. Um exemplo: no começo, você não consegue bloquear ataques! Para isso, é necessário evoluir alguma arma até um certo ponto para desbloquear essa habilidade, que no caso de um soulslike, deveria ser tão básica quanto esquivar.

Falando nas mecânicas, Steelrising também sofre de uns errinhos bobos que não deixam muito claro se estão ali apenas para dificultar o jogo ou por falha dos desenvolvedores. Primeiramente, o tempo de resposta entre um comando e um ataque (ou esquiva) é absurdo, então muitas vezes morremos de bobeira porque a personagem simplesmente é lenta demais, dando tempo suficiente para os inimigos acabarem com você. O jogo também não permite cancelar um ataque para se esquivar no improviso, então se você já começou a atacar e precisar se defender no meio da ação, já era. Tudo isso deixa o combate “travado” demais e, por vezes, pouco divertido.

Se alguém me dissesse que isso é Bloodborne, eu acreditaria

O começo de Steelrising pode ser bastante frustrante, especialmente para quem está acostumado com o gameplay mais fluido dos últimos lançamentos da From Software. Com o tempo, conforme evoluímos Aegis, é possível deixar as coisas mais dinâmicas, mas ainda é um combate que deixa a desejar. O mesmo vale para as batalhas contra chefes, que costumam ser a cerejinha do bolo de todo soulslike. A maioria dos chefes aqui é completamente esquecível, tanto no visual quanto na dificuldade. Os padrões de ataques são previsíveis e, no final, o que os torna difíceis não são suas habilidades, mas sim as limitações do gameplay.

Os gráficos do jogo estão bonitos, apesar de não atingirem o patamar esperado na nova geração. As cores são escuras e meio opacas (lembra vagamente Bloodborne) e os cenários acabam sendo a parte mais detalhada do jogo. Com exceção de Aegis, o visual dos robôs não é grande coisa e chega a ser bem repetitivo, mas no geral está ok, dentro daquilo que é proposto.

Steelrising é um souslike decente, apesar de clichê. Como jogo, não oferece nada além do básico, mas sua história acaba carregando a responsabilidade de proporcionar uma experiência diferente daquilo que estamos acostumados no gênero. Para quem é fã de Dark Souls e cia., não é um título especialmente memorável, mas com certeza merece uma chance.