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Para quem ainda não percebeu, desde o fim do ano passado nós estamos fazendo alguns testes com textos sobre games que possuem uma pegada bem próxima dos board games ou jogos de tabuleiro, chame como quiser. Primeiro foi Hands of Fate 2 e, mais recentemente, a análise de Talisman: Digital Edition. Eis então que surge a oportunidade de iniciarmos no Gamerview algo que eu gosto muito e que vem ganhando cada vez mais espaço entre os fãs de uma boa jogatina. Por esse motivo, a partir de hoje falaremos também de jogos off-line, analógicos ou de mesa, como você preferir.

Já que é para começar com o pé direito, nada mais justo do que escolhermos um bom jogo e que, além de ser muito próximo da experiência de um game como estamos acostumados, cria uma experiência única em jogos de tabuleiro. Estamos falando de Scythe, criado por Jamey Stegmaier, da Stonemaier Games, promete retornar com tudo no mercado brasileiro em 2018. Lançado inicialmente pela Fire on Board (empresa que não atua mais no mercado brasileiro), já teve o relançamento anunciado pela Ludofy (empresa com forte crescimento nacional) além de duas expansões programadas para esse título. Premiado em diversas categorias dentre os vários prêmios mundiais, incluindo melhor jogo e melhor direção de arte, o Scythe é um dos maiores hypes dos últimos anos e por isso com certeza vai agradar até mesmo os gamers true de console e PC.

Hora de embarcar para 1920 em uma Europa fictícia pós-primeira Guerra Mundial.

Pós-Guerra Dieselpunk

Imagine um único jogo capaz de unir Civilization, Age of Empire, Command & Conquer e ao mesmo tempo resgatar o básico de jogos de mesa como War, tudo isso com miniaturas bem trabalhadas e um visual incrível. Essa é a maneira mais simples de começar explicando o que é Scythe; um grande e impressionante jogo de conquista de território, que simula perfeitamente o espírito da Guerra Fria, em que o importante é ser forte e talvez ter o melhor exército, mas que nem sempre entrar em combate com nações vizinhas seja uma opção sábia ou válida. Como se não bastasse, para aprimorar ainda mais a imersão que possui, a temática é Dieselpunk e a Europa após a Primeira Guerra Mundial foi dividida em cinco nações que passaram a usar o poderio armamentista de Mechas para se protegerem e conquistar.

Imagine numa caixa gigante e pesada

Sabe os robôs de Armored Core e Warhammer 40.000? Acrescente uma pitada de Bioshock e Dishonored. Pronto! Você terá o visual desse jogo, criado pelo brilhante Jakub Rozalski.

Fácil jogar, difícil ganhar

É uma época de agitação na Europa dos anos 20. As cinzas da primeira grande guerra ainda escurecem a neve. A cidade capitalista conhecida simplesmente como “The Factory”, que era fortemente blindada, fechou suas portas, chamando a atenção de vários países vizinhos. Uma época de agricultura e guerra, corações partidos e engrenagens enferrujadas, inovação e valores.

Mapa alternativo da Europa em Scythe

Scythe possui mecânicas muito simples, inclusive para quem nunca teve contato com esse universo. Talvez ele exija bastante atenção e raciocínio de quem está jogando, já que trata-se de muita estratégia para conquistar os objetivos propostos para consagrar a sua nação como dona da Europa e campeã do jogo. Com aproximadamente 2h por partida, você precisa se preocupar com quatro etapas: explorar, expandir, produzir e exterminar. Cada jogador representará um líder caído tentando restaurar sua honra e liderar sua facção para o poder na Europa Oriental, conquistando territórios, recrutando novos soldados, produzindo recursos, conquistando aldeões, construindo estruturas e ativando mechas monstruosos para o seu exército.

As facções que dividem a Europa e seus respectivos heróis/animais

Além do tabuleiro principal, com o mapa desse universo paralelo europeu, você terá o seu próprio mini-tabuleiro para controlar suas ações e ter suas próprias características em força, pontos de vitória, capacidade de movimento e popularidade. Cada facção possui sua particularidade e balanceia o jogo com sua principal habilidade e local de origem, todas tratadas brilhantemente pelo visual característico que mescla realidade e ficção. Sempre acompanhados de um animal, os líderes representam o Reino Nórdico, com Bjorn & Mox (um bisão), Gunter von Duisburg & Nacht e Tag, com seu lobo pelo Império Saxônico, Olga Romanova & Changa, o estereótipo de russa com um tigre pela União Rosviética, Anna & Wojtek pela República da Polônia com seu carismático urso, e por fim a primogênita filha do Khan, Zehra & Kar representando o Khanato Criméico com sua águia.

Tabuleiros de facção de de ações para cada jogador e seus heróis

A combinação da característica de cada país representado pela sua versão fictícia, aliado com o animal que acompanha nosso personagem e herói, faz com que o combate, a movimentação ou até mesmo a produção de recursos sejam diferentes para cada caso. Nesse ponto o jogo consegue balancear muito bem as facções e oferece liberdade suficiente para a fluir sem amarras e ainda é diferente a cada partida, aumentando muito o fator replay. Para isso existem as Cartas de Eventos, afinal a sua movimentação pela Europa acaba impactando diretamente os aldeões locais e a cada novo evento, você precisará tomar pelo menos uma decisão que pode afetar sua moral de maneira positiva, neutra ou negativa. O motivo disso? Proporcionar benefícios de acordo com a sua nobreza ou escrotidão, criando a tentação para o lado negro e facilitando o começo do seu jogo, porém tudo pode complicar no final, já que o mais valioso é conquistar pontos que aumentem seu carisma e popularidade.

Cada escolha uma sentença

Se as suas escolhas são um dos fatores chave para definir como será a sua jornada, o combate desse jogo também está longe de ser baseado na sorte. Esqueça dados ou qualquer outra mecânica que faça você depender da sua sorte (ou azar do outro). Aqui você conquista pontos de poder que aliados aos seus aldeões e mechas, vão resultar na sua força de ataque; no entanto, você pode perder popularidade com essa brincadeira de atacar desenfreadamente os demais jogadores, afinal um tirano atacando uma povoado não pega bem. O mais importante é: tudo o que você faz é resultado direto das suas escolhas e por esse motivo a grande sacada de Scythe é simular uma guerra fria, afinal basta você aumentar o número de poder do seu exército para evitar que cheguem perto dos seus domínios ou do seu herói.

O visual desse jogo consegue criar uma imersão perfeita da tensão pós-guerra

Lembra que comecei dizendo que era um jogo fácil? Pode parecer difícil, mas pela diversidade de ações em seu tabuleiro pessoal e pela ausência de fases ou turnos, você simplesmente precisa escolher uma das divisões do seu mini-tabuleiro, pagar (em dinheiro ou matéria prima) o necessário e fazer uma ou duas ações descritas por ícones.

Nesse ponto o jogo é um primor, pois além das miniaturas extremamente detalhadas, as estruturas e trabalhadores são feitos com meeples e peças de madeira que encaixam perfeitamente no seu tabuleiro, por conta do baixo relevo, para mostrar o que você pode usar, desbloquear e avançar durante a sua jornada. Além disso, o seu personagem nunca sai de jogo, diferente de outros que conhecemos, aqui o importante é montar sua estratégia e testá-la; não tem problema perder em combate, afinal tudo volta para a sua base de início e a partida recomeça para você.

Muitas peças e um setup fácil, mas que exige atenção e tempo

Como se Age of Empire ou qualquer outro RTS que conhecemos influenciasse diretamente Jamey Stegmaier, em Scythe você pode ter o combate como última opção, mas com certeza terá a construção e evolução como um dos principais objetivos. Os cinco jogadores poderão atualizar as ações que realizam para conquistarem um exército ainda mais eficiente, criando estruturas que melhorem sua posição no mapa, recrutando novos recrutas para aprimorar habilidades de personagem, construindo mechas para impedir que os adversários invadam e expandam suas fronteiras e produzir cada vez mais recursos. A mecânica de produção, exploração e coleta é a base para você sentir o seu progresso durante o jogo e o que fará você querer retornar para esse universo mais e mais vezes para aprender como guiar sua facção cada vez melhor.

World of 1920+

A Europa dieselpunk dos anos 20, resultado da Primeira Guerra Mundial e afetado diretamente pela Revolução Russa e Batalha de Varsóvia, é conhecido como World of 1920+ e representa as potências europeias da época: Alemanha, Rússia, Polônia, Criméia e Escandinávia. Com todo esse trabalho artístico de Jakub Różalski, não somente a SM Games resolveu criar seu próprio jogo, mas outras empresas estão começando a se interessar por esse universo incrível. Recentemente a King Art Games anunciou o RTS baseado nesse mundo criado por Jakub e com base nas histórias por trás de Scythe.

Acho que essa é uma pequena amostra do tamanho e importância do trabalho da SM Games e dos conteúdos que vem surgindo com base em World of 1920+. Sem contar a adaptação de Scythe para uma versão digital do board game, pela Asmodee (a mesma que fez Talisman e que você confere a análise aqui), ainda teremos três expansões para esse jogo proporcionando duas novas facções: a inclusão de navios armados que voam e, por último, uma campanha Legacy, estilo de jogo que você joga apenas uma única vez e acaba modificando (leia-se destruindo, revelando e aplicando) permanentemente uma partida que normalmente é programada para durar um ano inteiro. Legal, não é mesmo? Então pegue todas essas referências que deixei para você, mergulhe no estilo dieselpunk e deixe o seu console de lado para se divertir sem que o jogo termine ao final e você não tenha mais como retornar para ele!

Imagem do texto de RKGK

Review – RKGK / Rakugaki

Marco AntônioMarco Antônio10/06/2024