Replaced é um desses projetos que deixaram os jogadores salivando durante anos. O desenvolvimento começou em 2018, mas seus criadores só se sentiram confiantes para mostrar algo ao público na E3 2021, literalmente a última E3 da História. De lá pra cá, foram mais cinco anos de espera, aguardando seu lançamento.
O estúdio Sad Cat Studios não deve ser confundido com o Sad Owl Studios (de Viewfinder). Os jogos não poderiam ser mais opostos. Os fundadores da Sad Cat Studios vieram do ecossistema móvel com a vontade de desafiar seus próprios limites. O resultado é Replaced: um título com múltiplas influências reunidas, que triunfa magistralmente em alguns aspectos, enquanto se complica em outros.

Minhas desgastadas retinas
Se a primeira impressão é a que fica, então Replaced nunca vai abandonar meu córtex visual. O que seus criadores conseguiram atingir aqui é uma das artes em pixel mais exuberantes já produzidas nessa indústria. A forma como a luz praticamente derrete em volta de cenários destruídos ou decadentes é a mais pura essência do cyberpunk trabalhada quadradinho por quadradinho.
Está condensada aqui uma riqueza de detalhes inimaginável, considerando a limitação gráfica que foi auto imposta. É um grau de fidelidade e imersão que não poderia ser obtida nem com o mais realista título em Unreal Engine 5 ou com o nefasto DLSS 5 da Nvidia. É arte, é direção artística a serviço da narrativa. Somos transportados para esse universo distópico. Os elementos ausentes entre os pixels são preenchidos por nossa própria imaginação. Andar por Replaced é estar lá, de uma forma quase palpável.

Entretanto, essa exuberância tem um preço. Não em processamento de máquina, porque, nesse quesito, o jogo é suave, bastante suave. Esse preço é pago em perda de nitidez dentro do design dos níveis. O estilo visual cumpre muito bem seu papel do ponto de vista narrativo, mas não se integra com tanta solidez nos aspectos mecânicos da experiência. É extremamente fácil se perder sobre a melhor forma de navegar por determinados ambientes, porque elementos que poderiam servir como guia estão obscurecidos ou não são exatamente óbvios.
Para um título que frequentemente exige pulos precisos, distinguir os limites das plataformas ou os próprios pontos de apoio necessários para não morrer pode se tornar um desafio. Não por acaso, sempre que existe um objeto que pode ser pego no ambiente ou uma informação que pode ser extraída, a desenvolvedora se vê obrigada a utilizar um brilho gritante de destaque.

Matar ou morrer em Replaced
Originalmente, a Sad Cat Studio pretendia criar um jogo focado exclusivamente em narrativa e plataforma, uma espécie de Another World atualizado para os dias de hoje. Teria sido a escolha mais sensata, uma vez que o universo construído para Replaced, tanto em sua trama principal, como na vasta quantidade de informações de fundo que vão sendo adicionadas, funcionaria perfeitamente bem como seu alicerce. Ainda assim, os desenvolvedores não se sentiram confortáveis com a ideia e optaram por adicionar cada vez mais elementos mecânicos na experiência.
Em dado momento, foi decidido que o jogo precisaria de um sistema de combate. A Sad Cat Studio tomou para si o desafio de adaptar o complexo sistema de luta da franquia Arkham para um ambiente 2D. Faltou humildade. O que a Rocksteady forjou lá atrás foi revolucionário para sua época e ajudou a estabelecer um padrão que durou mais de uma década, ao ponto de se tornar quase manjado. Isso não significa que o sistema de Arkham irá necessariamente funcionar para todos os projetos. Ou será executado com o mesmo grau de refinamento.

Em um primeiro momento, os combates de Replaced de fato funcionam. Nosso protagonista tem uma justificativa válida para ser capaz de triturar diversos oponentes ao mesmo tempo. As mecânicas de ataque, contra-ataque e esquiva são satisfatórias. As animações são brutais. Os comandos são familiares, tanto tempo depois da supremacia da Rocksteady. Cada confronto é frenético e serve como um reflexo adicional da truculência dessa realidade.
Entretanto, depois de pouco tempo, fica claro que os combates irão se repetir em sua estrutura. Nosso protagonista é cercado, parte dos inimigos fica no pano de fundo, parte dos inimigos vem pela esquerda, parte vem pela direita, e os oponentes vão sendo substituídos enquanto a luta avança. Até mesmo o estilo de combate entre inimigos de facções diferentes é semelhante. Essa fórmula seria exaustiva por si só, mas a Sad Cat Studios insiste em adicionar camadas de complexidade cada vez mais exageradas a cada capítulo. Espera-se variedade, a desenvolvedora entrega dificuldade.

O resultado dessa dificuldade exagerada é uma grande confusão em um espaço pequeno, de apenas duas dimensões, mal iluminado, em que o jogador precisa se concentrar em esquivar, rebater, destruir blindagens, atirar, bloquear, bater, se curar, assobiar e chupar cana, tudo ao mesmo tempo. O Batman (ou o Homem-Aranha, ou o Mad Max, ou qualquer outro similar), pelo menos, podia espalhar seus oponentes por áreas mais amplas e sortear em 3D qual seria o contemplado com seus golpes.
Penso, logo existo
Tivesse a Sad Cat Studios insistido em uma experiência majoritariamente narrativa, Replaced teria me causado reações mais positivas além da primeira impressão. Seu enredo é intrigante. Temos aqui uma realidade alternativa em que os Estados Unidos foram o alvo de ataques nucleares durante a Segunda Guerra Mundial. Daí pra frente, sua sociedade entrou em colapso e caiu nas mãos de uma corporação que promete reconstrução, mas almeja somente o controle.

Nosso protagonista também é uma figura fora da curva: somos o hospedeiro acidental de uma Inteligência Artificial criada por essa corporação, uma IA que agora está descobrindo as consequências do mundo que ajudou a formar. O personagem principal então vai parar nos guetos dos descartados e ingenuamente irá fazer de tudo para retornar para a cidade murada.
Há muitos dilemas típicos do gênero dentro da história, como a descoberta de sentimentos, a exploração desumana da mão de obra barata, transplante massivo de órgãos e equipamento de ponta criado para matar. Ironicamente, o ritmo da narrativa é quebrado justamente pelos aspectos mais mecânicos que a desenvolvedora decidiu adicionar. Essas quebras tem tudo para frustrar todos os perfis de jogadores. Aqueles que se apaixonarem por seu sistema de combate, mesmo sendo desafiador e repetitivo, vão estranhar as longas partes de conversação e as idas e vindas entre locais. Aqueles que quiserem que a trama avance mais rápido vão se decepcionar com longas sessões de plataforma e combates sucessivos.
Replaced luta para manter aquela primeira impressão acesa, mas até o néon mais forte eventualmente se apaga. Esperarei com gosto por mais cinco anos e um eventual Replaced 2.
Prós:
🔺Estilo visual impressionante
🔺Autêntica atmosfera cyberpunk
🔺Combates frenéticos
Contras:
🔻Dificuldade exagerada
🔻Estilo visual atrapalha na precisão e na orientação
🔻Diversas quebras de ritmo
🔻Combate repetitivo
Ficha Técnica:
Lançamento: 14/04/2026
Desenvolvedora: Sad Cat Studios
Distribuidora: Thunderful Publishing
Plataformas: PC, Xbox Series
Testado no: PC


