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Dizem que o plágio é a forma mais honesta de homenagem. Entretanto, os seis desenvolvedores da pequena Tunnel Vision Games provaram com Lightmatter que é possível fazer uma declaração de amor à Portal que vai além de uma homenagem e já entra no campo de sucessor espiritual, mesmo que eles não tenham o DNA da Valve ou qualquer outro vínculo com a empresa.

Ser um tributo a outro puzzle em primeira pessoa é ao mesmo tempo o maior trunfo e a maior fraqueza de Lightmatter. Por um lado, é impressionante que uma equipe tão reduzida, em seu jogo de estreia, consiga chegar tão perto de atingir o mesmo nível do super-polido sucesso da Valve. Por outro lado, a carência de novas ideias e a reverência excessiva impedem que o jogo atinja todo seu potencial.

Ainda vivo

Lightmatter começa como vários outros enredos: você desperta de um desmaio em meio a um desastre de grandes proporções e precisa encontrar uma saída dessa situação. No comando de um protagonista anônimo e mudo, o jogador irá aprender as estranhas mecânicas dos eventos que aconteceram no interior das instalações da empresa Lightmatter Industries. Seus fundadores, Arthur e Virgil, desenvolveram a tecnologia que dá nome à companhia e ao jogo: a Matéria Luminosa.

Lightmatter
As trevas se espalham, mas você irá levar a luz!

Porém, como toda tecnologia limítrofe de ficção-científica, essa tem um efeito colateral bizarro: as sombras podem matar. A trama explica que estamos falando de anomalias gravitacionais geradas pela escuridão da Matéria Luminosa, capazes de consumir matéria orgânica em segundos. Em outras palavras, o jogador deve permanecer em locais iluminados e jamais pisar nas viscosas trevas que se espalharam pelo complexo. Como seu guia ao longo do jogo explica, basicamente é uma brincadeira mortal de “o chão é lava”.

Essa ideia criativa da desenvolvedora é explorada através de uma estrutura que emula Portal em quase tudo. Temos aqui um guia sarcástico que não deseja exatamente o seu bem estar, salas compartimentalizadas com puzzles, visão em primeira pessoa, dispositivos que ajudam a atravessar o cenário, um senso de humor sombrio (com o perdão do trocadilho), uma trilha eletrônica muito similar, herói (ou heroína) que nada diz, relatos paralelos de outro sobrevivente que revelam a verdade por trás da narrativa oficial e por aí vai.

Lightmatter
Ora, ora, ora… o que temos aqui?

Lightmatter não se intimida diante da comparação e brinca com ela. Há referências diretas à Aperture Science, a seu CEO Cave Johnson e até mesmo às famosas torretas “inteligentes” da franquia da Valve. Em muitos aspectos, eles compartilham do mesmo universo. Não chega a ser canônico, porque isso dependeria da vontade de Gabe Newell e seus advogados. Até o minuto final, esperei uma confirmação que não aconteceu. Ainda assim, dentro da lógica das fanfics, para mim, a Lightmatter Industries, a Aperture Science e Black Mesa são empresas rivais com os mesmos critérios dúbios de ética e controle de segurança.

Não há sentido em chorar sobre cada erro

Porém, em seu afã de reproduzir as ideias de Portal, Lightmatter falha porque, vamos combinar, seria muito difícil superar o original. A dublagem de Virgil, a única voz que ouvimos ao longo da aventura, é competente, mas é impossível não lembrar da genialidade de Ellen Mclain e sua GLaDOS ou de J. K. Simmons e seu Cave Johnson, por exemplo. Evitar a comparação seria evitar esse massacre.

Lightmatter
Lembra GLaDOS, mas não é.

Outro ponto em que a comparação derruba Lightmatter é na trama. Erik Wolpaw e Chet Faliszek conduziram o jogador por um universo complexo, lotado de nuances que precisam ser decifradas e personagens com personalidades marcantes. Não é um talento que nasce da noite pro dia e foi algo que eles vieram afiando por anos antes de chegarem em Portal. Em Lightmatter, o enredo é entregue de forma mais direta, sem muito espaço para a imaginação, quase como se tivesse sido um foco secundário. A história termina sem responder pontos que eu julgava cruciais e o epílogo é uma narração em fundo branco, em claro contraste com o choque que foi ouvir “Still Alive” anos atrás. A sombra da obra maior mais uma vez engole a obra menor (com o perdão de mais um trocadilho).

Para quem liga para tamanho de jogos ou a relação custo/benefício, fica o aviso de que Lightmatter é um jogo curto. Tem gente que diz que terminou em apenas três horas, mas eu levei sete. Novamente, o paralelo com Portal se repete e eu reitero: ambos os títulos têm o tamanho certo que deveriam ter, nem exaustivos, nem apressados.

Já quem curte um speedrunning vai encontrar um prato cheio em Lightmatter, uma vez que o jogo oferece uma opção de ativar estatísticas de tempo e tentativas para cada nível. Além disso, o jogo também é lotado de Conquistas escondidas que podem fazer a alegria dos caçadores.

Lightmatter
Tem uma Conquista hilária nessa parte, mas não vou contar qual é.

Isso foi um triunfo

Nem só de Portal vive Lightmatter. Até porque não há portais em Lightmatter. Entretanto, há feixos de luz e manipulação de luz, que geram efeitos bonitos de iluminação e também trazem à lembrança The Talos Principle. Não tive a oportunidade de experimentá-lo, então não posso comparar as semelhanças.

Ainda assim, outra referência me veio à mente nos primeiros minutos de jogo, uma referência bastante inusitada: High Hell. O minimalismo nos gráficos simples acentua ainda mais o tom de sátira de Lightmatter e foi um toque pessoal que a Tunnel Vision Games colocou em cima da obra da Valve. Enquanto Portal buscava uma estética mínima, mas bruta, para realçar o aspecto estéril das instalações da Aperture Science e sua impessoalidade, Lightmatter usa uma estética mínima com pegada cartunesca para destacar o pândego da Lightmatter Industries (e possivelmente disfarçar as limitações do motor gráfico).

Lightmatter
Nesse Verão, mantenha-se hidratado!

Em sua reta final, os desafios vão ficando mais difíceis. Nada que uma noite de sono e a mente fresca no dia seguinte não resolvam. Fiquei impressionado com a forma como a Tunnel Vision Games explorou diversos elementos de seu jogo de luz e sombras, com holofotes fixos, condutores de feixe luminoso, objetos móveis que tampam a luz e plataformas que correm.

A arquitetura dos níveis também contribuiu para aumentar a sensação de imersão, de um lugar palpável afetado por um desastre que rompe as leis da Física.

O penúltimo nível é um exercício de pensar fora da caixa que atrasou essa análise em dois dias. Em contrapartida, minhas expectativas foram invertidas no final: uma frenética sessão que exigiu reflexos, não pensamento analítico, e capacidade de navegar entre a escuridão e a luz sem parar para pensar, o contrário do que o jogo vinha pedindo até então. Enquanto isso, o enredo atingia seu ápice até uma conclusão, ouso dizer, mecanicamente mais satisfatória do que o final do primeiro Portal (nada supera a sacada do final de Portal 2).

Lightmatter
A luz é sua amiga!

Lightmatter tem um brilho próprio. Um pouco mais desse brilho, um pouco menos de paixão por Portal teriam transformado o título em uma pequena obra-prima. Ainda assim, na impossibilidade de um Portal 3, esse é o melhor derivado que surgiu e uma obra indispensável para amantes de jogos de puzzle em primeira pessoa, fãs da Valve e pessoas que sabem que é possível combinar desafio e sorriso no rosto ao mesmo tempo.