Nos longínquos inícios do segundo milênio, as locadoras de filmes ainda eram pontos de encontro das mais diversas tribos. Dentre os diversos gêneros, o de terror se destacava pelas capas que traziam histórias assombrosas — e um dos mais proeminentes astros dessa seção aterrorizante retorna em Clive Barker’s Hellraiser: Revival.
Esta não é a primeira aventura digital do mundo de Clive Barker, que já contou com outros dois grandes títulos: Undying, de 2001, e Jericho, de 2007. Baseado inicialmente no livro The Hellbound Heart (que serviu de base para o filme original de 1987), Hellraiser: Revival também traz muitos elementos de sua continuação oficial, o livro Evangelho de Sangue. No entanto, o jogo se prova um universo fora do cânone literário, adaptando a narrativa à sua própria maneira. Resta aos corajosos descobrirem as maravilhosas surpresas que Clive Barker’s Hellraiser: Revival reserva.
Nós atendemos ao chamado da caixa
Clive Barker’s Hellraiser: Revival é, antes de tudo, uma obra visceral, seguindo a linha gráfica das criações do escritor. Por isso, prepare-se para enfrentar visões que podem — e vão — ser bastante chocantes para muitos. O protagonista do jogo é Aydan Lynch, um membro de motoclube que se vê frente a frente com os Cenobitas e o Sacerdote Infernal, comumente chamado de Pinhead.

Durante a história, descobrimos que seu encontro com a Corte Infernal se dá por conta de sua namorada, Sunny. Um dia, após uma intensa sessão de sadomasoquismo, Aydan a vê segurando uma das famosas caixas da série. A união dos prazeres sexuais com a dor de ambos — com Aydan cortando Sunny com as quinas da caixa e ela o perfurando com pequenas varetas de metal — é o suficiente para trazer os Cenobitas à Terra.
Neste primeiro encontro, Aydan percorre o labirinto que muitos acreditam ser o Inferno da franquia, sendo guiado pelos gemidos de prazer de Sunny enquanto foge de algo que o persegue. Após encontrar a namorada em uma cama cercada por diversas cópias de si mesma, Aydan consegue retornar sozinho ao mundo real. Porém, seus problemas apenas começaram: afinal, os donos daquela Configuração (a caixa) estavam os observando.
O jogo adiciona um culto que adora os Cenobitas e Leviathan — o Deus do universo Hellraiser nos filmes, quadrinhos e agora nos games (diferente dos livros, onde Lúcifer preside o Inferno). Colin Marlowe é o antagonista principal e líder da Igreja Escarlate, que venera os Cenobitas e utiliza sua fortuna para comandar um ringue de sadismo dentro da cidade.

Sobrevivendo aos verdadeiros monstros
Após retornar do Labirinto, Aydan é levado até Marlowe, que, com a ajuda de Bruno, o tortura a fim de descobrir o paradeiro de Sunny e como eles fizeram a Configuração Gênesis — nome dado à caixa no jogo — se abrir e responder. Para Aydan, a única chance agora é fugir do culto e tentar deixar tudo isso para trás.
Após escapar da sala onde estava preso, o jogador dá os primeiros passos em Hellraiser: Revival, podendo experimentar com calma as mecânicas de criação (crafting), furtividade (stealth), o combate e a ideia central por trás do jogo. Neste primeiro momento, você enfrenta membros do culto utilizando armas simples, como bastões com pregos, lâminas curtas e facões, mas logo consegue um revólver, o que facilita cenários mais desafiadores.
Aydan pode se esgueirar por trás de alguns inimigos e finalizá-los com abates silenciosos, evitando confrontos desnecessários e não chamando a atenção indesejada de outras criaturas. O combate corpo a corpo em si é uma das partes que achei mais fracas no jogo como um todo; seja contra inimigos normais ou chefes, é aquele combate “flutuante”, sem muito impacto ou peso. Em contrapartida, o gunplay (tiroteio) é bem equilibrado e efetivo, tornando os confrontos armados bastante desafiadores.

Um exemplo disso são as batalhas contra Marlowe ou contra os membros do culto fortemente armados e com armaduras. Estes últimos são um desafio à parte: é preciso quebrar suas proteções gastando a durabilidade das armas brancas. Esses ataques abrem pequenas “brechas na armadura”, permitindo que o jogador acerte disparos em pontos críticos.
Uma corrida por saidas paralelas
Durante a fuga, Aydan é contatado telepaticamente por Sunny, que pede ajuda para escapar do reino dos Cenobitas. Contrariado, ele assume a missão de recuperar o cubo da Configuração Gênesis para resgatá-la. Sua chance surge logo após testemunhar uma orgia de Marlowe e outros sectários, os quais seguem para um ritual onde uma jovem é transformada em uma bizarra criatura encarregada de matar Aydan e recuperar o artefato.
Enquanto avança, Aydan precisa lidar com duas novas dinâmicas. A primeira consiste em momentos de fuga pelo clássico Labirinto da franquia — neste primeiro caso, fugindo do Cenobita chamado Clatter (uma criatura sem olhos, com a boca e gengivas escancaradas). A segunda é aprender a usar o próprio cubo como arma, controlando serras, lâminas, pregos ferroviários ou pás de turbina como munição para lançar contra os inimigos.

As fugas contra Clatter e Charlotte são bem roteirizadas (scriptadas) e relativamente “fáceis”; geram certa tensão, mas não chegam a dar medo, por assim dizer. No entanto, outros trechos do labirinto são chocantes, principalmente quando o jogador se vê diante de feixes de luz negra emitidos por Leviathan: caso seja pego, Aydan é confrontado por seus pecados passados. Essas cenas são pesadas e mostram o outro lado do terror da série Hellraiser: o pecado humano.
Incapaz de seguir em frente, só lhe resta uma opção. Após resolver a Configuração mais uma vez, Aydan fica frente a frente com Pinhead e acaba barganhando com o Sacerdote Infernal: em troca da segurança de Sunny, ele ajudará Pinhead em suas próprias maquinações. Admito que esse desfecho de Hellraiser: Revival me surpreendeu demais, entregando um equilíbrio perfeito para o personagem.
Bebendo de diversas fontes
Ler o Evangelho de Sangue foi um prazer imenso. Foi um livro totalmente inesperado que achei por sorte na livraria da Rodoviária de São Paulo em uma de minhas idas à capital. Nele, somos apresentados a uma versão mais perversa, sádica e revoltada de Pinhead, que se opõe a Lúcifer e vai de encontro a ele a fim de governar o Inferno sozinho.

Em Clive Barker’s Hellraiser: Revival, os universos se chocam, criando um novo Pinhead que funciona como um balanço perfeito entre a versão dos livros, dos filmes e das HQs. Essa nova criatura, majestosamente interpretada mais uma vez por Doug Bradley, é uma mistura fascinante: um servo de Leviathan, fiel e cabalístico ao seu mestre, mas que ainda possui uma agenda oculta que pretende realizar com ou sem o aval de seu superior.
O design de Pinhead é idêntico ao do primeiro filme, e sua nova forma é de uma excelência visual absoluta. Quando li o livro, admito que a descrição da Armadura de Lúcifer tomou um rumo diferente do que eu esperava (mesmo com o texto detalhando como o Sacerdote Infernal precisou se automutilar para caber nela). No jogo, essa nova roupagem é completamente digna de uma “forma final” para Pinhead. Um acerto estrondoso!
No geral, todos os designs do jogo são muito bem executados, tanto os dos personagens quanto os dos níveis e cenários, conversando perfeitamente com o que se esperaria de um culto e de seus membros neste universo. O design sonoro também é excelente. Além disso, a narrativa e os visuais não escondem do jogador o quão violento este mundo realmente é, apresentando corpos costurados ou unidos de forma brutalmente simples.

Temos tanto à lhe mostrar!
Sem dúvida alguma, Clive Barker’s Hellraiser: Revival entrega uma narrativa excelente tanto para os fãs mais antigos quanto para os recém-chegados ao mundo de Hellraiser, especialmente após o ótimo filme de 2022. Porém, para aqueles que jamais se aventuraram pelos universos de Clive Barker, fica o aviso: são obras extremamente pesadas, tanto visual quanto psicologicamente.
Para não deixar de lado os bastidores e o desempenho que sustentam todo esse espetáculo macabro, é fundamental exaltar o trabalho impecável da Saber Interactive. Desenvolvido sob o poder da Unreal Engine 5, o estúdio entregou uma obra que brilha não apenas em sua direção de arte perturbadora, mas sobretudo em sua execução técnica. Sem sombra de dúvidas, afirmo que esta foi a melhor e mais bem otimizada experiência que já tive com a Unreal 5 até o momento.
O desempenho do jogo é formidável, mantendo a estabilidade da taxa de quadros e a fluidez impecáveis mesmo diante do caos visual e do gore extremo exigido por este universo. É a prova de que a tecnologia gráfica mais recente foi domada à perfeição, garantindo que nenhum gargalo de performance quebre a imersão do jogador nas entranhas do Labirinto

O jogo não esconde sua essência, retratando passados sombrios de Aydan e de outros personagens e bebendo muito de fontes externas para criar um novo universo onde os Cenobitas encontram uma nova safra de vítimas. Clive Barker’s Hellraiser: Revival é a prova de que até mesmo franquias esquecidas no fundo dos infernos podem voltar à tona com o sacrifício de sangue necessário!
Prós:
🔺Narrativa excelente que expande o cânone da obra original
🔺Visuais e sonoplastia excelentes
🔺Extremamente agonizante em certas partes
Contras:
🔻Combate flutuante e pouco impactante.
Ficha Técnica:
Lançamento: 08/10/2026
Desenvolvedora: Saber Interactive
Distribuidora: Saber Interactive
Plataformas: Nintendo Switch 2, PC, Playstation 5, Xbox Series
Testado no: PC


