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Lendas urbanas são de longe, na minha opinião, a melhor parte de se crescer em cidades pequenas. Casarões assombrados, estradas de terra e atalhos vigiados por criaturas e espíritos. Fobia – St. Dinfna Hotel mira nessa veia de relatos sobrenaturais de cidades pequenas e traz aos consoles e PC.

Produzido pela desenvolvedora brasileira Pulsatrix Studios, Fobia – St. Dinfna Hotel traz uma excelente experiência em primeira pessoa, onde após decidir ir investigar misteriosos relatos na cidade de Treze Trilhas, o jovem repórter Roberto Leite Lopes irá ver e descobrir mais do que realmente gostaria.

Seguindo infinitos caminhos escuros

Fobia – St. Dinfna Hotel abre com um jornalista preso em uma misteriosa cela, contida dentro de um antigo prédio. Com ajuda externa de alguém que deixa a chave de sua cela para que possa fugir, ele encontra seu caderno de anotações e o esconde, para caso for pego novamente ninguém tenha acesso às suas descobertas durante a investigação.

Fobia - St. Dinfna Hotel
Muita referência internacional, nenhuma nacional

Enquanto corre para se salvar, uma imensa criatura surge em seu encalço e, pelo que podemos ver, ele encontra seu fim no que pode ser considerado as mãos da abominação. Com isso Roberto entra em cena, o herói que controlaremos na maior parte do jogo.

O protagonista é contatado por Stephanie, uma moradora da cidade de Treze Trilhas, que o convida a investigar os misteriosos casos de pessoas e itens que desaparecem pela cidade de forma sobrenatural. Ávido por aventura, e quem sabe um trabalho que irá consagrar sua carreira tão cedo, Roberto embarca em uma viagem que irá mudar sua vida.

Enquanto se hospeda no hotel Santa Dinfna, Roberto investiga a cidade e seus arredores e não sente sua investigação dar frutos. Até que, durante a noite, alguém bate repetidamente em sua porta e uma misteriosa força começa a agir no quarto, distorcendo tempo e espaço, levando-o para uma realidade de terror e desespero.

Fobia - St. Dinfna Hotel
A mira está como? Calibrada!

Configuração do lamento ganhou peso?

Após presenciar o buraco negro que abriu à sua frente e ficar desacordado por horas, Roberto desperta em seu quarto todo bagunçado, como se um tornado houvesse revirado tudo no local. Em busca de alguma anotação ou item, o jogador encontra uma estranha câmera capaz de mudar a realidade.

Nas próximas horas, Roberto irá vivenciar no hotel St. Dinfna experiências que irão desafiar toda a sua capacidade mental. Você verá criaturas bizarras, aparições, viajará entre realidades e inclusive notará que o hotel é uma espécie de pesadelo e que seu desmaio foi mais longo do que imagina.

A narrativa de Fobia – St. Dinfna Hotel é bem íntima e traz à tona o sentimento de isolamento, com excelentes sustos mas sem apelar aos “jumpscares”. O medo está garantido com as criaturas que rondam os corredores de St. Dinfna, a misteriosa garota que costuma surgir através de distorções no espaço com sua máscara de gás, e o enorme colosso que nos persegue pelos corredores.

Fobia - St. Dinfna Hotel
Uma lente capaz de conectar mundos distintos

Andando pelos corredores abandonados e destruídos, descobrimos ainda mais sobre a misteriosa seita de Treze Trilhas e seu fundador, um homem chamado Cristopher, que afirma ter visto futuros, passados e se tornado um Deus vivo entre a humanidade durante sua vida.

Ciência, mito ou magia?

Fobia – St. Dinfna Hotel é uma prova imensa de que o mercado nacional é rico em qualidade, seja em projetos 3D, 2D ou pixel art. Claro que a ideia inicial que vem à cabeça é comparar o título com grandes marcos do gênero como Resident Evil, SIlent Hill ou The Evil Within. Porém, acredito que é mais justo compará-lo com títulos indies.

O game tem uma qualidade ímpar, capaz de fazer você grudar na tela até por mais tempo que outros títulos indies do gênero survival horror, como Daymare: 1998 e a série Remothered. Além das já citadas qualidades, Fobia – St. Dinfna Hotel gera tensão também com sua excelente sonoplastia.

Fobia - St. Dinfna Hotel
Os chefes são bem desafiadores e marcantes

Os controles são simples e intuitivos, fazendo com que qualquer pessoa que tenha jogado até o mais básico jogo em primeira pessoa possa rapidamente estar explorando os andares do hotel. Há uma certa variedade de armas pra encontrar, vários puzzles pra resolver e muitos documentos espalhados, que contam a história atual do local antes e depois da transição para a atual realidade sombria.

Talvez o gameplay com a câmera possa acabar confundindo ou até mesmo sendo deixado de lado por algum jogador, mas é uma excelente e interessante fusão de temas. Existe uma antiga crença de que as câmeras são capazes de captar outras realidades, como a do mundo dos espíritos, mas aqui servem para revelar enigmas e caminhos.

Seguindo os passos dos pioneiros

Ainda que tenha uma excelente qualidade, Fobia – St. Dinfna Hotel possui alguns detalhes que carecem de polimento. Nada que futuros updates não possam resolver, claro. Mas pra citar um exemplo, temos a movimentação lenta e rápida dos oponentes, me lembrando muito o Deadly Premonition.

Fobia - St. Dinfna Hotel
O famoso Meneses, o perseguidor brasileiro!

Não que isso seja algo ruim, tendo em vista que é um dos meus jogos favoritos de todos os tempos. Porém, são duas ideologias de narrativa, imersão e combates totalmente diferentes. Deadly Premonition sempre teve a ideia de representar um projeto low budget e estranho como a série Twin Peaks. Mas esta não é a intenção com Fobia – St. Dinfna Hotel.

A animação dos inimigos me lembrava o tempo todo a dos inimigos de Deadly Premonition, o que acabou por tirar um pouco da tensão dos combates. Já o lado survival horror se destaca com força, fazendo com que disparos ao vento se tornem um castigo cruel mais a frente.

Com um sistema de menus bem semelhantes aos de Resident Evil 7 e 8, temos aqui um constante backtracking aos baus de itens. Principalmente para aqueles que, assim como eu, irão querer resolver todos os puzzles do hotel – e acreditem, vale a pena! Muitas referências a jogos, literatura e a proporção de ouro.

Fobia - St. Dinfna Hotel
Quase quebrei a cabeça na mesa tentando resolver esse livro

Arte, o alimento da alma

Visualmente, Fobia – St. Dinfna Hotel é belíssimo. Mesmo na sua versão de Playstation 4, o jogo impressiona com sua iluminação, modelos de criaturas e ambientes detalhados. Pessoalmente, gostei muito dos inimigos mais comuns do jogo. Um verdadeiro deleite aos olhos para os fãs de horror corporal direto e sem exageros.

A trilha, chamada “Your Side That Nobody Knows”, é bem interessante. Mas senti falta de um pouco mais de trilhas com aquele efeito de infrassom, que parece agulhas entrando por debaixo da sua pele e vão lentamente te deixando ansioso e animado para o próximo susto ou descoberta.

Referências também não faltam aqui, como os retratos de vários influenciadores nacionais como Allanzoka, BRKsEDU e “feeeelps” no jogo, The Walking Dead, a arma de portais C-137 (de Rick and Morty), além de um aviso para não usar a “Erva Verde”, pois ela é tóxica.

Fobia - St. Dinfna Hotel
Parecido demais com a casa da minha tia avó na roça

Mesmo com tanto easter eggs, encontrei pouquíssimas referências à nossa cultura. Seja literária, cinematográfica ou musical, vi apenas a referência de Treze Trilhas à Santa Catarina e Santa Dinfna, padroeira dos psicólogos e enfermos mentais. Não custava ter um pouquinho mais de cultura brasileira no jogo.

Fobia – St. Dinfna Hotel é um excelente jogo de horror, ainda que curto. A qualidade da narrativa, quebra-cabeças, desafios e universo em geral são excelentes. Uma grande aventura e um hotel digno de se retornar várias vezes para se hospedar.

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