O complexo universo de Duna permaneceu como uma pérola escondida para meia dúzia de leitores durante décadas, apesar de uma tentativa de adaptação cinematográfica nos anos 80 e uma minissérie de TV nos anos 00. Coube ao cineasta Denis Villeneuve transportar uma legião de espectadores para as areias escaldantes de Arrakis. Dune: Awakening busca ampliar ainda mais o seu alcance com um título de sobrevivência.
A Funcom trouxe sua experiência de oito anos com Conan Exiles para o novo jogo. Conan Exiles teve um lançamento catastrófico, mas conseguiu se recuperar de forma magistral nos anos seguintes. Lições foram aprendidas e a desenvolvedora utiliza todo esse conhecimento em uma obra praticamente impecável, que adiciona agora a última peça que faltava: uma linha narrativa.

Não é o Lisan Al Gaib
A tradição de jogos de sobrevivência é oferecer a liberdade máxima para os jogadores em um ambiente inicialmente hostil. Nesse sentido, poucos lugares são mais inóspitos na ficção do que os desertos de Arrakis, uma vastidão escaldante onde a água inexiste em seu estado natural. E, ainda assim, a raça humana perdura, se afia como uma lâmina em constante atrito e gera um dos povos mais temidos da galáxia: os Fremen. Soltar o jogador nesse ambiente só com a roupa do corpo já seria uma premissa satisfatória para uma experiência de sobrevivência.
Entretanto, Dune: Awakening ousa ir além e oferecer algo extremamente raro nesse tipo de jogabilidade: um fio narrativo condutor de qualidade. Em Minecraft, você é livre para construir o que quiser, para ir na direção que quiser, não há história. Em 7 Days to Die, a situação se repete, com um adicional de legiões de mortos-vivos povoando o ambiente. O mesmo princípio é usado em Ark, Outpost Zero, Citadel: Forged With Fire e tantos outros. Mesmo quando há um enredo, ele é apenas um detalhe, uma linha sugestiva para que o jogador não se sinta completamente perdido, como em Serum ou Nightingale (para ficar em exemplos recentes disponíveis no Gamerview).
A partir do momento em que a Funcom tem acesso a uma das maiores sagas literárias de todos os tempos, seria um pecado mortal não fazer uso dessa vantagem. Ainda assim, a desenvolvedora levou um ano burilando a história para que ela pudesse ser seguida em um modo single-player. É nessa data que Dune: Awakening deixa de ser um MMO de sobrevivência e se torna uma campanha robusta e intrigante.

Para evitar conflito com os elementos canônicos da franquia, o jogo adota o conceito de multiverso. Não controlamos Paul Atreides. Na verdade, Paul Atreides sequer existe nessa realidade. Ele é o narrador, a partir do seu próprio universo, e conta como, em todo o multiverso, nós estamos na única versão da história em que Paul sequer nasceu. O destino dessa realidade será completamente diferente e esse destino está em nossas mãos. Os Fremens foram caçados até a beira da extinção, o império controla Arrakis com mão de ferro, mas recebemos uma missão diretamente das mãos das Bene Gesserit: ir até o planeta Duna e localizar os Fremen.
É um ponto de partida fantástico que servirá como o motor para uma aventura que irá explorar mais elementos desse universo do que caberiam em uma trilogia de filmes.
Adquira Dune Awakening em mídia física: Amazon | Gamer Hut Games | Mercado Livre | Shopee
Areia pra tudo que é lado
O motor gráfico do jogo surpreende pela qualidade, ainda que demore um tempinho para compilar shaders. Em minhas primeiras sessões, o PC emanava um bafo tórrido que ironicamente servia para aumentar a imersão. A impressão inicial era que a otimização poderia ser melhor e eu não estava enganado: uma atualização depois e o problema foi resolvido. O jogo roda liso em uma configuração modesta, sem deixar de entregar paisagens de tirar o fôlego, mas também sem superaquecer o equipamento.

É possível imaginar que um jogo ambientado em um planeta de areia seja monótono para a vista, mas Dune: Awakening capricha nos detalhes. Ao contrário de Starsand que era basicamente dunas e mais dunas até onde a vista alcançava, aqui temos elevações rochosas que quebram a linha de visão, oferecem abrigo seguro para o sol insuportável e escondem os acampamentos de inimigos. O céu estrelado onde paira uma nave colossal do império é ao mesmo tempo belo e opressivo. A interface traz o visual acertado que equilibra alta tecnologia com tradições seculares. As cutscenes são muito bem executadas e abundantes, o que só aumenta o aspecto narrativo da jogabilidade.
Esse esmero no visual também se manifesta na parte sonora do jogo. Quem imaginava que o deserto deve ser um lugar silencioso, conhece pouco de Arrakis, onde a vastidão de areia pode ocultar ameaças gigantescas. O clima de tensão é constante, seja nos efeitos sonoros, seja na trilha incidental que acompanha a jornada. É fundamental prestar atenção em alertas, barulhos e, principalmente, na movimentação do verme…
A dublagem é outro fator que adiciona nessa equação, ainda que não esteja disponível em nosso idioma. É um trabalho de qualidade que eleva o que a Funcom já tinha feito com Conan Exiles. Uma vez que Dune: Awakening possui muito mais interações entre personagens e histórias para serem contadas, o conjunto de atores é essencial para aumentar a sensação de imersão nesse universo.

Dune: Awakening ainda é um jogo de sobrevivência
Em muitos momentos, essa aventura nem parece ser um jogo de sobrevivência. Em determinados pontos, me senti dentro de um Fallout, explorando ruínas ou interagindo com postos civilizados. Por outro lado, as mecânicas de sobrevivência estão no DNA do jogo e, se você não curte títulos do gênero, dificilmente será Dune: Awakening que irá reverter essa preferência.
O combate é extremamente simples. Os valores de produção do jogo estão no mesmo patamar de um título AAA, mas a qualidade do tiroteio ou dos constantes combates corpo a corpo (estamos falando de Duna, onde escudos pessoais antibalísticos existem) não atendem ao que se esperaria de um título AAA. São competentes, não quebram, mas não vão nem um passo além disso. Se você entrar na experiência imaginando um Dark Souls ou um Call of Duty, irá se decepcionar profundamente.
Na outra ponta, o jogador casual poderá se sentir saturado com tantos sistemas complexos para fabricação e gerenciamento de recursos. Alguns desses sistemas são redundantes. Dominado aquilo que é ensinado na extensa área de tutorial, esses mesmos sistemas serão replicados diversas vezes em níveis de tecnologia mais avançados.

Para os fãs de sobrevivência, em contrapartida, não há tantos obstáculos. A narrativa não engessa a liberdade em momento algum, nem mesmo na área inicial. As mecânicas de fabricação podem ser usadas e abusadas à vontade e eu saí de lá como um camelo abarrotado de itens e de água. Infelizmente, o verme de areia é um perigo real e eu perdi tudo que tinha. A lição de humildade apenas serviu para aguçar ainda mais meus sentidos de sobrevivência.
Talvez o principal ponto fraco dos sistemas de Dune: Awakening seja justamente a necessidade maciça de água. Faz todo o sentido dentro do contexto, evidentemente, porém a única fonte acessível e constante desse recurso está no sangue dos inimigos. Isso muda a dinâmica do jogo para uma caçada incessante de vítimas. É quase um jogo de vampiro. Todos os cadáveres devem ser exauridos de seu precioso líquido e o jogador deve retornar para uma de suas bases para destilar a tão necessária água. Resolver a necessidade pessoal de água é fácil, mas os melhores itens fabricáveis também precisam de água em seu processo industrial, então voltamos para o espaço aberto em busca de novos “fornecedores involuntários” de líquido.
Há soluções mais elegantes e sistemas melhores em Conan Exiles ou talvez sejam apenas minhas centenas de horas na Era Hiboriana que tornaram aquele espaço minha zona de conforto. Ainda assim, Dune: Awakening usa seu ambiente tecnológico para introduzir mecânicas novas que eu sentirei falta no outro jogo. Uma dessas novidades é a possibilidade de se armazenar sua base inteira em uma ferramenta, incluindo tudo que tem dentro, baús, bancadas de trabalho, geradores, tudo que não esteja solto. Depois, basta viajar para outro lugar e “desempacotar” sua base inteira exatamente como ela era.
A Funcom vem se consolidando como uma desenvolvedora de peso nos títulos de sobrevivência. Dune: Awakening é um título sólido, cativante que certamente irá me consumir outras centenas de horas. Minha estrada me leva para dentro do deserto, eu consigo ver.
Prós:
🔺Gráficos exuberantes
🔺Adaptação caprichada do universo literário
🔺Trabalho de som muito bem executado
Contras:
🔻Combates simples
🔻Sistemas demais para fazer as mesmas coisas
Ficha Técnica:
Lançamento: 10/07/25
Desenvolvedora: Funcom
Distribuidora: Funcom
Plataformas: PlayStation 5, Xbox Series, PC
Testado no: PC


