Quando pensamos na Game Freak, é impossível não associar imediatamente a história do Pokémon. Afinal, são décadas desenvolvendo uma das maiores franquias da história dos videogames. Mas, de tempos em tempos, a desenvolvedora sempre tentou provar que era capaz de fazer muito mais do que capturar monstrinhos, lançando projetos como Little Town Hero, Tembo the Badass Elephant e Giga Wrecker. Nenhum deles, porém, demonstrava a mesma ambição de Beast of Reincarnation.
Depois de anos vivendo praticamente à sombra de Pokémon, a Game Freak resolveu apostar em um RPG de ação completamente diferente de tudo o que já produziu. Sai o mundo colorido e descontraído, entram florestas tomadas por uma estranha pestilência, criaturas colossais, robôs humanoides e um Japão futurista em ruínas. O resultado é um jogo que surpreende pela personalidade, ainda que também deixe claro que precisava de um pouco mais de tempo para fazer polimentos.
O mundo bonito e misterioso de Beast of Reincarnation
Logo nos primeiros minutos, Beast of Reincarnation já deixa claro que não pretende pegar o jogador pela mão, não que seja um jogo difícil, na verdade, ele pode ser excessivo a ponto de confundir. A aventura começa praticamente em seu ápice, jogando dezenas de informações, mecânicas e personagens na tela ao mesmo tempo. A sensação é de confusão. Existem habilidades, menus e conceitos demais apresentados antes mesmo de entendermos a sua importância. Isso dá uma torcidinha no nariz, né?
Curiosamente, isso não chega a afastar completamente a experiência. Pelo contrário. A abertura desperta uma curiosidade para descobrir o que está acontecendo naquele mundo e quem são aquelas pessoas (talvez seja mais por saber que é da Game Freak). A história acompanha Emma, uma jovem considerada uma “Profana”. Os Profanos carregam a chamada Pestilência, um fenômeno capaz de transformar seres vivos em algo semelhante a árvores vivas e corrompidas. Koo, seu enorme companheiro canino, também carrega essa corrupção, visível principalmente em sua cauda coberta por galhos.

Enquanto os humanos tentaram escapar desse destino transferindo suas consciências para corpos mecânicos, os chamados Golens, Emma se tornou uma Purificadora, utilizando justamente esse poder para enfrentar criaturas conhecidas como Nushi, enormes feras responsáveis por espalhar ainda mais essa corrupção. É engraçado, mesmo sendo algo hostil que tenta transmitir uma sensação venenosa, os monstros tem um aspecto atraente com flores e raízes, ainda assim, não confie na natureza por aqui.
A narrativa não entrega respostas rapidamente. Ela alterna constantemente entre presente e passado para explicar como Emma conheceu Koo, Kogura, Brad e outros personagens, revelando aos poucos os acontecimentos que moldaram aquele universo. Em alguns momentos isso torna a história um pouco difícil de acompanhar, mas nunca deixa de despertar curiosidade. Existe sempre um novo mistério envolvendo o fantasma de Violet, outros profanos como a Kunai e o Mikoto, a origem da Pestilência ou os próprios Golens, e tudo isso incentiva continuar avançando.
Uma região de Kanto diferente
Sim, estamos em Kanto. A referência ao universo Pokémon aparece apenas como um pequeno easter egg para quem acompanha a Game Freak há décadas, mas é impossível não abrir um sorriso ao descobrir que a aventura se passa nessa região, ainda que em uma versão completamente diferente daquela que conhecemos. Não que eu tenha encontrado, mas provavelmente devem haver outras curiosidades escondidas, por aí.

O mapa também foge do tradicional mundo aberto. Em vez disso, Beast of Reincarnation divide sua aventura em grandes regiões conectadas entre si, permitindo revisitar áreas anteriores sempre que desejar concluir missões secundárias, encontrar novos coletáveis ou enfrentar desafios que ficaram para trás. O que lembra um pouco a dinâmica de Nier: Automata.
Essa estrutura funciona bem, existe uma boa sensação de aventura, principalmente porque cada nova região mistura elementos rurais, ruínas futuristas, construções tomadas pela natureza e enormes áreas contaminadas pela Pestilência. É uma combinação curiosa entre passado, futuro, tecnologia e misticismo que cria uma identidade visual bastante própria. Com habilidades de Emma dá para usar o cabelo como pontes, elevações e dashes, ampliando as possibilidades de exploração, o que é bem divertido. A exceção é que Emma não nada, então cair na água é um desastre total.

Explorar também recompensa constantemente. Existem baús escondidos, às vezes trancados com desafios em formato de quebra-cabeças cronometrados, receitas, materiais para criação de equipamentos, missões secundárias, colecionáveis e diversos caminhos alternativos que incentivam a sair da rota principal. Mesmo sem apostar em um mundo totalmente aberto, Beast of Reincarnation consegue transmitir aquela sensação de estar descobrindo um lugar desolado e desconhecido.
Emma e Koo, o coração da aventura
Se existe um elemento que realmente faz Beast of Reincarnation funcionar, esse elemento é cão Koo (que nome ein, risos). À primeira vista ele pode parecer apenas mais um companheiro de jornada, mas basta alguns minutos para perceber que a relação entre ele e Emma vai muito além de um simples mascote. É justamente Koo quem ajuda a protagonista em um dos momentos importantes da história, além de reforçar suas personalidades, dando início a uma parceria que floresce ao longo de toda a aventura.
Seu visual chama atenção imediatamente. O enorme cão possui uma cauda formada por galhos e uma aparência quase mística, resultado da própria Pestilência. Ao mesmo tempo, basta latir para lembrar que continua sendo apenas um cachorrinho querendo carinho. Honestamente é difícil não simpatizar com ele.

Infelizmente, nem tudo funciona tão bem tecnicamente. No PS5 Slim, os pelos do cão poderiam receber um tratamento melhor, enquanto algumas animações acabam soando estranhas. Não é raro vê-lo surgindo repentinamente no cenário, atravessando Emma ou executando pequenos movimentos desajeitados durante a exploração. Mas, nada disso diminui seu carisma. O grande cãozinho consegue roubar a cena.
Existe inclusive um sistema completo de afinidade entre os dois. Durante a jornada é possível (e necessário) dar banho, fazer carinho, oferecer petiscos e treiná-lo. Conforme esse elo aumenta, novas habilidades são desbloqueadas, além de ampliar a quantidade de espaços disponíveis para equipá-las. Caso Emma seja derrotada, a afinidade diminui temporariamente, mas sem remover habilidades já conquistadas, uma decisão bastante inteligente que na prática, traz aquela sensação de cuidar de um Pokémon.

Em combate, Koo também está longe de ser um mero espectador. Ele ataca automaticamente, mas também recebe comandos específicos. Ao abrir seu menu de habilidades, o tempo desacelera, permitindo selecionar diferentes técnicas sem quebrar completamente o ritmo da batalha. Algumas prendem inimigos em raízes, outras quebram defesas e ainda existem habilidades que podem ser fortalecidas através de pequenos QTE. O resultado lembra um pouco os comandos de parceiros vistos em RPGs clássicos, mas adaptados para um combate em tempo real.
Mais importante do que qualquer mecânica, porém, é perceber como Emma e Koo realmente parecem uma dupla. E isso vai melhorando com o tempo, a aventura faz questão de construir essa relação pouco a pouco, tornando fácil criar apego pelos dois protagonistas.
Até o combate melhora conforme aprendemos suas possibilidades. Confesso que minha primeira impressão das batalhas não foi das melhores. Nas primeiras horas tive a sensação de que faltava impacto nos golpes. Os ataques acertavam, mas os inimigos pareciam reagir pouco, criando aquela impressão estranha de que as espadas atravessavam os adversários sem transmitir o peso esperado.

Felizmente essa sensação diminui conforme novas habilidades vão sendo desbloqueadas e inimigos mais poderosos (e de outras classes) surgem. Beast of Reincarnation possui um sistema extremamente rico. Emma combina ataques leves, pesados, golpes aéreos, arco e flecha, armas, investidas, esquivas, ataques furtivos e, principalmente, parries. Dominar o tempo correto das defesas é praticamente obrigatório durante os confrontos mais difíceis.
Quando isso passa a ser combinado com as habilidades de Koo, a experiência muda completamente. Abrindo espaço para combos e explorando diferentes construções de equipamentos graças à enorme árvore de habilidades que, aliás, é literalmente representada por uma árvore cheia de raízes e que também floresce conforme Emma e Koo evoluem. É um detalhe simples, mas que reforça muito bem a identidade visual do jogo.

Os confrontos contra os Nushi representam o ponto alto desta jornada, embora seus ataques sejam pouco variados. Cada região possui seu próprio guardião e eles dificilmente são derrotados em um único encontro. O primeiro deles, um gigantesco alce corrompido, possui três etapas até finalmente ser purificado. Após a vitória, Emma e Koo recebem uma nova flor em seus corpos, por exemplo, simbolizando a absorção daquele poder e desbloqueando novas habilidades.
É uma forma interessante de conectar narrativa e progressão, mas infelizmente alguns chefões possuem poucos padrões de ataque e acabam se tornando previsíveis rapidamente (isso vale para muitos inimigos menores também). Existe uma ótima base para confrontos memoráveis, mas fica a impressão de que eles poderiam apresentar comportamentos mais elaborados, também faz falta a existência de temas musicais, já que nos embates a música simplesmente some. São detalhes que poderiam explorar melhor todo o potencial do sistema de combate.

Uma progressão cheia de raízes
Se existe uma palavra capaz de definir Beast of Reincarnation, talvez seja “progressão”. Praticamente tudo o que fazemos resulta em alguma melhoria. Além da árvore de habilidades, também existem pontos de atributos para a dupla, diferentes equipamentos, pedras místicas, receitas culinárias, construção de armamentos, plantio de ervas, incubadora de ovos e uma infinidade de materiais espalhados pelo mundo.
O interessante é que o jogo raramente transforma isso em uma obrigação cansativa. Sim, existe grinding, mas ele acontece de maneira bastante natural. Explorar sempre recompensa com novos materiais, derrotar inimigos gera espólios importantes e até pequenas atividades secundárias acabam contribuindo para fortalecer Emma, Koo e todo o grupo. Porém é tão extenso que, às vezes pode incomodar pela quantidade de detalhes, você precisa dar atenção até ao status de fome dos personagens, já que gera impacto na resistência deles.

O próprio refúgio da equipe funciona como uma pequena base de operações extremamente agradável mas que também precisa de aprimoramentos, impactando diretamente nas melhorias dos armamentos. É lá que encontramos Brad, responsável por boa parte das melhorias, enquanto Kogura prepara refeições capazes de fortalecer atributos. Inclusive, descobrir novas receitas ajudar a ampliar o sistema de elo entre com essa personagem, criando um ciclo bastante recompensador.
Outro detalhe interessante são os Golens mentores espalhados pelo mapa. Eles oferecem dicas sobre materiais raros, inimigos poderosos ou até mesmo revelam novas missões secundárias de forma completamente integrada ao universo do jogo. Mas você só pode escolher uma única opção. Os demais você terá de encontrar sozinho. É um cuidado simples, mas que evita te deixar tão perdido no mapa, ajudando a direcionar para o que fizer mais sentido ao jogador.
Apesar da enorme quantidade de sistemas, depois de um tempo, dá para entender que Beast of Reincarnation nunca te obriga a explorar tudo. Quem preferir seguir apenas a campanha principal, consegue avançar. Já aqueles que gostam de completar cada canto do mapa encontrarão conteúdo suficiente para passar muitas horas descobrindo segredos deixados pela Game Freak, tornando a dupla ainda mais forte.

É impossível olhar para Beast of Reincarnation e não perceber o cuidado colocado em sua direção de arte. Toda a temática da Pestilência conversa entre si. As criaturas parecem estar lentamente sendo consumidas por cascas de madeira, Emma possui raízes em seus cabelos, Koo carrega galhos na cauda e até a árvore de habilidades acompanha essa ideia, florescendo conforme novos poderes são conquistados. Tudo parece fazer parte do mesmo universo, reforçando constantemente a identidade visual do jogo.
Uma Game Freak sem limitações
Os próprios inimigos seguem essa filosofia. Ursos, alces e outras criaturas corrompidas apresentam um design bastante criativo, enquanto os Golens contrastam com suas estruturas mecânicas, reforçando o conflito entre natureza e tecnologia. Neste sentido, a direção artística é, sem dúvidas, um dos maiores acertos da Game Freak. A diferença de ter um trabalho autoral e livre, é absurda.
Infelizmente, o mesmo não pode ser dito do aspecto técnico destes visuais. Beast of Reincarnation não é um jogo feio. Existem cenários bonitos e alguns momentos que conseguem impressionar pela iluminação ou pela composição das paisagens. O problema é que tudo passa uma sensação constante de falta de acabamento.

As texturas da vegetação frequentemente apresentam baixa resolução, algumas animações parecem pouco refinadas e alguns efeitos ambientais surgem de maneira bastante abrupta, como árvores crescendo e diminuindo no periodo de pestilência, é meio esquisito, atravessando elementos do cenário. Pequenos detalhes de colisão ou a forma como alguns inimigos permanecem no chão após serem derrotados também reforçam essa impressão.
No PS5 Slim, alternar entre os modos Qualidade e Desempenho praticamente não altera nada. O modo Performance entrega uma estabilidade ligeiramente melhor, enquanto o modo Qualidade pouco justifica a perda de fluidez. Existe ainda uma opção para reproduzir as cenas em 24 FPS, tentando aproximar a narrativa de uma experiência cinematográfica. Na prática, porém, a mudança acaba causando uma estranheza visual ao alternar entre gameplay e cutscenes. É justamente aqui que fica a sensação de que Beast of Reincarnation precisava de mais alguns meses de desenvolvimento. A base é sólida. O talento da equipe aparece em praticamente todos os sistemas do jogo. Mas os problemas de acabamento impedem que a experiência alcance um nível ainda maior.

As músicas de Beast of Reincarnation ajudam a construir a identidade desse mundo devastado pela Pestilência. Durante a exploração, as composições apostam em melodias suaves e vocais discretos que transmitem uma constante sensação de solidão. Em diversos momentos, é difícil não lembrar da atmosfera de NieR: Automata, principalmente pela forma como a música acompanha a jornada sem competir com a ação ou com a narrativa.
Mais músicas, por favor!
Apesar de combinar muito bem com a proposta do jogo, senti falta de uma maior variedade de faixas ao longo da aventura, já que algumas músicas acabam se repetindo com muita frequência durante a exploração. Ainda assim, elas cumprem seu papel, já os efeitos sonoros poderiam ser mais destacados durante os combates. Ao menos Koo, conquista o tempo todo seus latidos e pequenas interações durante a jornada.
Confesso que Beast of Reincarnation me conquistou aos poucos. Minha primeira impressão foi bastante estranha. A abertura despeja informações demais, o combate demora para mostrar seu verdadeiro potencial e a quantidade de sistemas confunde mais do que ajuda. Mas, conforme as horas passam, tudo começa a fazer sentido e a criar uma lógica que ajuda a engajar a jogatina.

Mais do que criar um novo RPG de ação, Beast of Reincarnation representa um passo importante para o estúdio. É a prova de que a Game Freak consegue olhar para além de Pokémon e desenvolver algo com personalidade suficiente para surpreender. Imagina se pudessem explorar mais disso na franquia da Nintendo, não é mesmo?
Outro detalhe bastante positivo é a localização completa em português, algo que, curiosamente, ainda não vimos nos jogos principais de Pokémon. É um cuidado bem-vindo e que torna toda essa jornada ainda mais acessível. No fim das contas, Beast of Reincarnation talvez não seja uma obra-prima, mas também está longe de ser apenas “o jogo da Game Freak que não é Pokémon”. Ele é um RPG cheio de personalidade, ideias criativas e um universo que merece ser explorado.

Claro, existe espaço para melhorias. Os gráficos poderiam receber mais polimento, alguns chefes carecem de ataques mais elaborados e o excesso de informações no início acaba tornando a adaptação desnecessariamente confusa. Ainda assim, nenhum desses problemas foi suficiente para diminuir minha vontade de continuar explorando esse mundo.
Prós:
🔺A direção de arte é extremamente criativa e cheia de identidade
🔺Emma e Koo formam uma dupla carismática e muito bem construída
🔺O combate evolui conforme novas habilidades são desbloqueadas
🔺Tem progressão com enorme variedade de sistemas
🔺A exploração recompensa constantemente a curiosidade
🔺Tem legendas em português
🔺Acompanha uma ótima trilha sonora…
Contras:
🔻…porém as músicas se repetem demais
🔻Tem diversos aspectos técnicos que precisam de polimento
🔻Alguns chefes e inimigos apresentam padrões repetitivos
🔻Falhas de animações e colisões comprometem a imersão
🔻As lutas contra os chefões sem música
Ficha Técnica:
Lançamento: 04/08/2026
Desenvolvedora: Game Freak
Distribuidora: Fictions
Plataformas: PS5, Xbox Series, PC
Testado no: PS5


