Simuladores de negócios não precisam ser sisudos ou exigir um MBA de seus jogadores. Essa verdade foi descoberta provavelmente quando o primeiro usuário de Rollercoaster Tycoon resolveu criar uma montanha-russa que desafiava as leis da Física e do bom senso. Franquias inteiras se ergueram em torno dessa ideia de misturar humor com gerenciamento de recursos: Dungeon Keeper, Evil Genius, Two Point Alguma Coisa… Sintopia vem na tentativa de competir nesse mercado.

A proposta da Piraknights Games é saborosa: colocar o jogador para controlar o Inferno, punindo os pecadores e administrando uma burocracia demoníaca. Há ótimas ideias aqui e ali, principalmente na sua apresentação, porém suas mecânicas ora caem na tentação da soberba, ora caem na tentação da preguiça.

Sintopia

Servindo bem para servir sempre

Em Sintopia, recebemos a missão de ninguém menos que o Todo-Poderoso. Nessa realidade, o Inferno nada mais é do que uma empresa satélite do Céu. Infelizmente, o Criador está ocupado demais com uma ligação para explicar todos os detalhes da operação, mas somos assessorados por Lili, a primeira Súcubo, que nos apresenta ao funcionamento dos processos administrativos. Em outras palavras, nos primeiros minutos de jogo, você já foi apresentado ao caráter anárquico e debochado da coisa toda.

Em cada plano de existência, existem duas camadas de nosso interesse. Na superfície, estão os seres vivos pensantes, que constroem coisas, que prosperam, que fornicam na madrugada e cometem seus pecadinhos. Quando um desses seres inevitavelmente falece, sua alma aguarda no cemitério pelo busão que vai carregá-la para as profundezas. Uma vez no Inferno, essa pessoa se torna nosso produto. Cabe ao jogador fazer com que essa pobre alma seja punida por seus pecados, se arrependa na medida do possível e retorne ao mundo dos vivos para reencarnar e recomeçar o ciclo. É um bom trabalho e somos pagos por Deus para fazer o serviço sujo.

Sintopia

Todo esse contexto é muito bem ilustrado por animações e detalhes muito divertidos. É possível dizer que o lado criativo é o ponto forte da Piraknights Games. Sintopia é simpático. Os personagens são modelados de forma engraçada, até as estruturas são cômicas. Existe uma sala especial para expiar o pecado da Ganância em que moedas de ouro jorram na frente da alma pecadora e ela não pode pegar nem um mísero centavo. A sala para expiar a luxúria tem showzinho de pole dance de uma diaba sedutora. Os funcionários infernais parecem todos saídos de um seriado de comédia e só pensam em fazer longas pausas no banheiro e greve, se o salário atrasa.

Sintopia peca mesmo é nas mecânicas

Infelizmente, nem toda dose de simpatia consegue disfarçar a interatividade enfadonha do jogo. Por um lado, a Piraknights Games ousou demais, adicionando mais detalhes do que seria realmente necessário ao título. É realmente de se esperar que eu tenha olhos atentos para as peculiaridades de cada funcionário ou alma castigada no Inferno? Há um excesso de informações nos menus, que me remetem a algo ainda mais assustador do que sua premissa: um trabalho de verdade. Uma planilha de Excel, mesmo disfarçada em uma interface de usuário reluzente, ainda é uma planilha de Excel.

Um outro pilar do jogo é a unidade de processamento de almas, uma espécie de encruzilhada programável, que filtra e seleciona as almas de acordo com critérios estabelecidos pelo jogador. Em um título que exalta a bobeira e clama por algo mais casual, somos apresentados a mecânicas de programação: o processamento de almas nada mais é que uma sucessão de “ifs” e de “elses” para otimizar a eficiência da cadeia de produção. Remete um pouco a Human Resource Machine, inclusive na abordagem. Ou seja, ora Sintopia é uma grande brincadeira, ora Sintopia se leva a sério demais.

Sintopia

Por outro lado, em meio a tanta complicação sem sentido, há aspectos que são meramente repetitivos. Assim como existem sete pecados capitais, o jogo espera que você esteja preparado para lidar com todos eles, o que vai levar à criação de sete prédios dedicados, alguns prédios genéricos e uma salada de encruzilhadas de processamentos para criar a linha de produção ideal para maximizar lucros ou, pelo menos, manter os salários sendo pagos para todos.

Além disso, muitas opções ainda não estão liberadas nesse Acesso Antecipado, o que torna a jogabilidade ainda mais monótona uma vez que se entenda o que precisa ser feito em cada cenário.

Na superfície é uma coisa, no fundo é outra

Sintopia também erra em dividir sua jogabilidade em duas camadas. Enquanto no inferno o sistema de gerenciamento é até divertido, apesar de oscilar entre ser confuso e ser repetitivo, é na superfície que Sintopia vira um jogo chato. Não há muitas formas de se interferir no rumo dos acontecimentos no mundo dos vivos, principalmente no início. O saudoso Black & White manda um abraço.

Sintopia

Acompanhamos então os “serumaninhos” (aqui chamados de Húmus) tocarem seu dia a dia, escolherem um regente, penderem mais para um lado ou para o outro das tentações, com suas próprias mecânicas internas e inter-relações, também repletas de estatísticas e efeitos rodando nos bastidores. Para complicar ainda mais, o mundo da superfície consegue ser menos visualmente interessante do que o Inferno, ainda que tenha mais paisagens.

A Piraknights Games está bem no começo do desenvolvimento de Sintopia. Há muito espaço para evolução no que precisa melhorar e simplificação no que precisa ser menos burocrático. A minha simpatia eles já tem, falta agora um pouco mais de substância para fazer minhas engrenagens girarem. Será um pecado se esse jogo não atingir seu potencial.

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