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Acredito que por abrir esse review você deva ter assistido Rick and Morty. As aventuras interdimensionais do cientista e seu neto, cuja animação não poupa palavras ou imagens, conhece? Com certeza conhece. Que outra razão te traria aqui para ler sobre Trover Saves the Universe se não tivesse a completa noção de que aqui não haveria sentido algum?

Sentido é algo muito relativo. Algo que faz parte do meu conhecimento de mundo pode ou não fazer parte do seu e assim vemos o mundo de formas diferentes. Simples assim. Mas ouso questionar aqui quem vê um game desses e encontre algum sentido óbvio na composição logo de cara. Humanos em cadeiras motorizadas, vários seres interplanetários sem olhos (?), sequestro de cães e aberrações preenchem o cenário enquanto se aventura pelo inesperado.

Uma cilada para Trover

Essa empreitada só podia ter sido realizada pelas mentes malucas que trabalharam no desenho que anda fazendo muito sucesso. Trover Saves the Universe é idealizado por Justin Roiland, co-criador de Rick and Morty, e assim como na animação, ele que dubla grande parte dos personagens. Se assiste a versão legendada no Netflix ou no Adult Swim, não estranhará as vozes dos protagonistas dentro do game e suas maluquices também.

Por aqui encerramos nossa equivalência à animação, pois o resto nem a mente de quem está a três temporadas treinado no estilo poderia conceber semelhanças. Na trama, o malvado Glorkon sequestrou seus dois cães e utiliza-os como olhos para destruir o universo e, de alguma forma, trazer de volta o amor da sua vida. Ou algo assim. Antes que pense, Trover aparece na sua porta e diz que apenas o trabalho em conjunto de ambos pode deter o vilão.

Você pode utilizar tanto o PlayStation VR quanto o DualShock 4 comum para jogar. Ambos são permitidos para aproveitar o game completo, então não se preocupe se não tem o óculos de realidade virtual. Seu trabalho é mover Trover pela fase, chegando em plataformas pelas quais você pode se teletransportar.

Imagem do jogo Trover Saves the Universe
Seu papel será controlar Trover pelas absurdas fases.

Com o herói, você pode utilizar o golpe com um sabre de luz, pulos e depois conseguir upgrades para obter novas técnicas. No papel do jogador, você começa apenas podendo ter controle de Trover, se teletransportar e interagir com objetos pequenos. Porém, com as atualizações da cadeira, mais opções surgem pelo game.

Basicamente, o jogo consiste em enfrentar as ameaças que aparecem em seu caminho e completar os puzzles utilizando combinações de habilidades de ambos personagens. Não é um jogo longo, podendo viajar rapidamente entre as fases através da nave espacial e visitar diferentes planetas e criaturas durante a jornada. Os vilões também não são tão distintos, trazendo um total de menos de 10 modelos de oponentes para enfrentar.

Imagem do jogo Trover Saves the Universe
O jogo consiste em lutar contra os inimigos e resolver puzzles.

O corpo é de prata, mas a alma é de ouro

O maior trunfo de Trover não está na sua narrativa insana ou nas vozes icônicas de Rick and Morty. Também não está no próprio jogo e suas mecânicas. Apesar de ser uma mistura esquisita, não é nada de muito inovador no cenário. O crédito real de Trover Saves the Universe são os personagens que preenchem esse mundo maluco. Confesso que nunca ri tanto num jogo como nesse.

E não apenas as conversas e interações que chamam a atenção neles, mas me senti desafiado pelos desenvolvedores a tomar ações que não fariam sentido algum. Apenas para ver se teria algum comentário sobre isso ou que alguém chamasse a minha atenção, sabe? Devo assumir que isso aconteceu em todas as vezes, sem exceção. E em todas era hilário.

Imagem do jogo Trover Saves the Universe
Os personagens são engraçadíssimos e cheios de personalidade.

Preservando um ambiente sem spoilers, em determinado ponto do jogo decidi matar um personagem que não parava de falar. Vi uma oportunidade, achei que poderia dar certo e tentei. Ele não fechava a matraca e acho que me entende quando você está parado olhando pra TV e não vê uma opção viável para pular aquilo. Assim que exterminei a falação, recebi o discurso abaixo de Trover:

“Não acredito que você matou o xxxxx. Você é um monstro! Você era pra ser um herói, era pra salvar o mundo e tudo que você faz traz desgraça…você…você…eu não devia me aliar a você. Você é doente e frio! Como fazemos pra consertar essa merda? Meu Deus, o que você tem na cabeça? Agora você vai ter que reiniciar essa porcaria de jogo, passar por tudo de novo e quando chegar nessa parte, você NÃO vai matar ele, está me entendendo? Você acabou com o jogo. Estragou tudo, meu. Vai ter de reiniciar, porque não tem mais como progredirmos. Estou esperando. Fez merda e vai ter que jogar toda essa porcaria de novo…”

Foi algo mais ou menos assim, não exatamente nessa ordem. Me desculpem, mas não consegui prestar atenção enquanto morria de rir com o desespero de Trover. E não era apenas uma fala, a atuação estava impecável e você sentia que aquela bronca vinha do fundo da alma dele.

Imagem do jogo Trover Saves the Universe
Os debates hilários de Trover sempre farão você soltar ao menos uma risada.

Aí, como se eu já não fosse tão ruim quanto ele me acusava, eu tentei jogar Trover para a morte da mesma forma como fiz com o personagem anterior. E segue o próximo diálogo: “VOCÊ TENTOU ME MATAR? Pra minha sorte, os programadores fizeram uma barreira que me impede de pular ali, seu desalmado”. Ele e mais personagens sabem que estão dentro de um jogo, quebrando várias vezes a quarta parede e apelando para o jogador com este recurso.

O trabalho em criar a personalidade e abordagens diferentes para cada um foi tão grande que, muitas vezes, você vai se pegar querendo experimentar ações diferentes apenas para ver as várias falas e reações que aquilo pode causar. Com muito humor e coisas bizarras acontecendo em tela, isso vai te prender do início ao fim e assegurar que ria de algo no caminho.

A interação com o cenário também é muito boa. Desde a nave na qual viaja, que com uma pequena observação permite que você jogue basquete com o cesto de lixo até armas dos oponentes que caem, até um leque gigante de opções distintas de itens que podem ser jogados em outros personagens, desencadeando mais falas e risos.

Imagem do jogo Trover Saves the Universe
A interação com os demais personagens e fases chamam bastante atenção.

Sorte no jogo e desenho, azar em lugar nenhum

A aposta da Squanch Games e de Justin Roiland em criar um jogo simples, de fácil compreensão e com toda uma personalidade foi mais do que acertada. Não há excessos ou forçação, o game é aquilo que propõe e traz diversão além do que se espera com uma quantidade boa de personagens com personalidades distintas.

Isso que te fará prosseguir com Trover Saves the Universe: a possibilidade de rir de si mesmo e de cada situação é um dos elementos-chave de sucesso que garantirão o sucesso na sua missão. Mesmo para os politicamente corretos, não encontrei uma piada ou apelação humorística desnecessária que causasse desconforto. Assim como seu trabalho com Rick and Morty, os criadores do jogo destacam-se por zoar o modo de vida e a ciência como um todo.

Apesar de curto, é um dos games mais divertidos dessa geração e, com ou sem VR, deve ser jogado e apreciado como tal. Sem compromissos, sem forçar a barra e sem sentido algum, se você é fã do estilo Rick and Morty ou se apenas ri de qualquer besteira, Trover e todo esse universo merece um lugar na sua biblioteca de jogos para te tirar um pouco da ideia de que um deve ter gráficos exorbitantes e temas cada vez mais densos e profundos para ser bom.

Imagem do texto de RKGK

Review – RKGK / Rakugaki

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