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A Square Enix sempre foi uma empresa ousada e sem medo de inovar, isso ninguém pode negar. Com a chegada da sétima geração de consoles e o poderoso avanço gráfico proporcionado pela Unreal Engine 3, a desenvolvedora resolveu provar que não era feita apenas de Final Fantasy e lançou um jogo visando ter mais apelo para todo tipo de público, tanto ocidental quanto oriental. Usando de artifícios culturais híbridos e aventurando-se com uma nova engine, The Last Remnant era um RPG inédito que chegou inicialmente para Xbox 360 em 2008 e depois para PC em 2009.

Infelizmente, muitos desses esforços da Square foram em vão. A recepção do jogo pelo mundo foi deplorável e, pra variar, foi aclamado apenas nas terras nipônicas. Também foi um fracasso comercial, não chegando a vender nem 1 milhão de cópias nas duas plataformas juntas. Com base nesses dados, a remaster que chega 10 anos depois de seu lançamento inicial pode ser interpretada de dois modos: uma tentativa discreta da Square Enix de reapresentar o jogo e, quem sabe, ganhar uma segunda chance do público; ou apenas para pagar a dívida com os consoles PlayStation, já que uma versão de PS3 estava prometida e nunca deu as caras, provavelmente o motivo da remasterização ser exclusiva de PS4.

É hora do Rush

Apesar dos esforços de manter The Last Remnant mais neutro, os traços e características do JRPG acabaram predominando fortemente. O protagonista é Rush Sykes, um jovem corajoso e determinado que está à procura de sua irmã Irina, que foi sequestrada por figuras misteriosas aliadas a monstros. Com a ajuda do governante da cidade de Athlum e seus generais, Rush parte em uma jornada em busca da irmã, ao mesmo tempo em que luta para impedir que os diversos Remnants, artefatos mágicos espalhados pelo mundo que garantem habilidades sobre-humanas ao seu portador, caiam em mãos erradas.

Nos deparamos com várias raças humanoides e antropomórficas no decorrer do jogo.

Como podemos notar, a história não tem muito de original, além de ser um tanto clichê. Foi criado todo um universo para o jogo baseado nesses Remnants e com diversas raças humanoides, onde cada cidade que visitamos possui sua própria cultura e sua própria história. Mesmo que seja legal poder descobrir mais desse cânone, tudo nele parece simplificado demais e a impressão que temos é de que essa ideia de querer deixar o jogo mais atrativo para todos os públicos segurou muito as rédeas criativas dos desenvolvedores.

Tratando-se de enredo, personagens e algumas características, The Last Remnant é bizarramente semelhante a Final Fantasy X – um jogo lançado sete anos antes. Além das nítidas semelhanças de personalidade entre os dois protagonistas e outras personagens, até o modo como os personagens se movimentam lembra FFX, o que não é uma coisa boa já que a movimentação e expressão corporal de todos aqui é tão travada e robótica que chega a causar desconforto em quem está jogando. Bem que, nesse tempo todo, poderiam ter melhorado pelo menos um pouco os movimentos das personagens, mas ficou por isso mesmo.

O que claramente foi melhorado foram o visual e as texturas, que saltaram da Unreal Engine 3 para a 4. Todos os problemas de performance que foram tão criticados na versão do 360 não existem mais, como a queda de framerate e o delay de renderização das texturas que pipocavam na tela gradativamente. Agora, o jogo roda em 60fps constantes até nos modelos básicos do PS4, além do tempo de carregamento entre cada tela ter diminuído drasticamente. Por incrível que pareça, até hoje os gráficos impressionam, principalmente durante as cutscenes, animadas num CG que não foge muito do gráfico original. Tratando-se do visual, a diferença gráfica é notável e a remasterização foi feita com louvor.

O que não falta são belas cidades para explorar.

Complexo ou monótono?

O principal diferencial de The Last Remnant é seu sistema de combate, que também foi seu principal divisor de águas na época de seu lançamento. O game ainda segue o padrão de combate por turnos, mas não exatamente do jeito que estamos acostumados, no qual você seleciona a ação de cada personagem em seu determinado turno e assiste aos inimigos fazerem o mesmo, diversas vezes seguidas, até que alguém caia morto.

Ao invés de controlar cada personagem individualmente e escolher a dedo qual poder ou medida tomar, aqui você controla unidades. Essas unidades são diversos grupos que compõem a sua party – sim, é como um grupo dentro de um grupo. Cada personagem principal da trama assume uma unidade, e você dá ordens para cada equipe em específico, como atacar no corpo-a-corpo, usar magias, defender, curar etc. Uma vez que escolheu o que cada unidade fará na luta, o turno se inicia e você só assiste os personagens se massacrando no campo de batalha até o próximo turno se iniciar.

Se já achou essa explicação complexa demais, calma que ainda não acabou e vai piorar. Nas lutas temos uma barra de moral, a qual pode aumentar mais para o nosso lado ou para o lado do inimigo – isso influencia em quanto dano as equipes irão causar. O que define essa barra é a performance de cada lado na luta, o que às vezes pode ser premeditado pelo jogador, mas em sua grande maioria é algo aleatório e muito confuso. Quando o turno começa, muita coisa pode acontecer baseando-se na equipe que tem mais unidades ou quem tem vantagem de alguma forma. Você pode conseguir flanquear os inimigos, impedi-los de avançar ou até os emboscar de uma forma que elimine todos em um turno só, ao mesmo tempo que eles também podem fazer isso!

O sistema de combate inova ao mesmo tempo que confunde e entedia o jogador.

A pior parte disso tudo é que, uma vez que são dadas as ordens, você só assiste as personagens lutarem até o turno acabar, sem poder interferir. Isso te dá poucas chances de virar o jogo, tornando a dificuldade do game muito amarga, e eis o porquê: os personagens são eliminados por unidades completas, então cada unidade possui a soma do HP de todos os seus membros combinados. Caso os inimigos foquem seus ataques nos minions da unidade, que são mais fracos, você pode muito bem perder um personagem muito forte sem que ele leve um único hit, tornando-se um fator decisivo na batalha. Quase sempre é difícil vencer uma batalha cujos turnos iniciais são dos inimigos, portanto é imprescindível ter a vantagem em todos os combates.

Após essa longa explicação, podemos concluir que, mesmo sendo complexo e difícil, o sistema de combate é automático demais já que depois de dar as ordens, tudo que você faz é assistir e cruzar os dedos, o que pode se tornar monótono. Ainda há a opção de ativar acertos críticos manuais, o que vez ou outra te dará 1 segundo para apertar o botão correto na tela e garantir um golpe mais forte, mas é algo tão rápido e inesperado que as chances de perde-los são quase absolutas para quem está desatento. Felizmente, foi implantado um sistema de auto-save que salva sempre que você termina uma batalha, então caso o Game Over dê o ar da graça, você não perderá tanto progresso como nas versões anteriores.

Apelando de leve.

As personagens também não upam do jeito convencional, tendo uma outra semelhança com Final Fantasy X. Nesse último jogo, não se possuíam levels, somente pontos para distribuir nas skills de cada membro da party e torná-los mais fortes. Em The Last Remnant, você também não upa de level, ao invés disso apenas melhora os atributos de cada personagem que, após algumas lutas, pode ter suas skills aperfeiçoadas e outras novas habilidades liberadas. Mais uma prova de que o fator crucial nesse jogo é a estratégia e não números.

The Last Remnant não chega a ser notável por conta de personagens fortes ou por possuir um universo fantástico, mas seu principal diferencial, que é o sistema de combate em conjunto com sua dificuldade, acaba sendo o que o torna marcante – mesmo que de uma maneira negativa, dependendo do ponto de vista. É um título recomendado para os amantes de JRPG e essa remaster é a melhor maneira de conhecê-lo, com um visual charmosamente melhorado e um auto-save a cada batalha para deixar nossas vidas um pouco mais fáceis.

Imagem do texto de RKGK

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