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Finalmente a espera acabou. The Beatles: Rock Band chega com um impacto midiático que poucos jogos teriam a capacidade de igualar, graças à força da maior banda do mundo. Com algumas lojas na Europa antecipando a venda, conseguimos uma cópia do jogo para Wii para fazer esta análise, enquanto o bundle edição limitada para Xbox 360 não chega. Mas está valendo…

Para quem não conhece a série Rock Band, vai um resuminho: com o auxílio de instrumentos de plástico (guitarras e bateria) e de um microfone USB, os jogadores podem emular o desempenho de uma banda composta por vocal, guitarra, baixo e bateria. As “notas” são emuladas por botões coloridos que vão descendo por uma pista; o jogador deve tocar a nota correspondente a essa cor quando o botão cruza a barra de fim da pista. No caso dos vocais, a pista é constituída de uma trilha horizontal com os tons marcados por linhas e a letra correndo simultaneamente à trilha. Além da possibilidade de tocar as músicas individualmente (modo quickplay), existe um modo “world tour”, onde a banda criada pelo(s) jogador(es) vai fazendo shows pelo mundo e conseguindo dinheiro e fãs.

The Beatles: Rock Band é a primeira entrega dedicada a apenas uma banda da série Rock Band – sem contar o AC/DC Track Pack, que era apenas um disco com as músicas do disco Live At Donnington da banda australiana, sem nada mais de especial. Ao invés de ter uma banda tocando as músicas dos liverpudlianos, a Harmonix recriou as várias etapas da vida da banda, fazendo com que você “controle” os avatares de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr dos seus inícios em Liverpool até o último ato da banda, na laje do edifício da Apple Corps em Londres em 1969.

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Foram escolhidas 45 músicas do catálogo dos Beatles para o jogo (ainda que duas, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e With A Little Help From My Friends, apenas possam ser tocadas em conjunto). Algumas decisões foram um tanto estranhas, como a não inclusão de algumas favoritas dos fãs (Help! e Hey Jude) em benefício de outras mais “obscuras” (Boys e If I Needed Someone).

Um ponto que deve ser notado é o excelente trabalho de remasterização das músicas feito por Giles Martin – filho de George Martin (produtor da maioria dos discos dos Beatles) e co-produtor, junto com o pai, de Love, a trilha sonora do espetáculo do Cirque Du Soleil com músicas do quarteto. Abbey Road era um estúdio primitivo inclusive para a época, e as gravações dos Beatles (especialmente as do princípio da carreira) foram gravadas em duas pistas. Em outras palavras, uma fita para os instrumentos e outra para os vocais – o que significa que seria impossível, por exemplo, silenciar apenas o som da guitarra caso o jogador errasse. Martin, utilizando um software de investigação forense, conseguiu separar os diferentes instrumentos para o jogo. O próprio Martin disse numa entrevista que “o que nós fizemos é como se você me desse um bolo e eu lhe devolvesse os ingredientes que você usou para fazer o bolo“.

Todas as músicas estão disponíveis desde o começo para o modo quickplay – ao contrário do que acontece em Rock Band 1 e 2, onde aproximadamente metade das músicas estão bloqueadas e devem ser liberadas ao serem tocadas no modo World Tour – com uma única exceção: The End, a música “secreta” do disco, é liberada quando o jogador termina o modo estória.

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Sobre o modo estória, ele é bastante diferente do modo World Tour de RB 1 e 2. Em vez de ter os shows liberados, com o jogador podendo escolher a ordem em que vai tocá-los, em TB:RB existem “fases” que cobrem a estória da banda e que devem ser cumpridas na sequência. Começamos o jogo no Cavern Club (sala de shows de Liverpool onde os Beatles eram habituais no início da carreira), passamos para o The Ed Sullivan Show (apresentação na TV americana que desatou a beatlemania na América), seguimos para o Shea Stadium (primeiro show em estádio na história), o Budokan (ginásio japonês dedicado ao sumô – os Beatles foram os primeiros ocidentais a tocar ali – que foi o ponto alto da última turnê da banda), três fases no estúdio de Abbey Road (onde os Beatles gravaram a grande maioria de seus discos) e terminamos no já mencionado teto do edifício da Apple em Londres. The End é um “encore”, uma fase de epílogo depois do concerto do telhado.

As músicas localizadas em Abbey Road têm uma novidade: os “dreamscapes”, animações com cenários específicos para cada música. Assim, temos o fundo do mar para Octopus’s Garden, o famoso submarino amarelo em Yellow Submarine, um campo florido e soleado em Dear Prudence e Here Comes The Sun, o mesmo campo mas escuro e com céu cinza para While My Guitar Gently Weeps… De acordo com a Harmonix, mesmo as músicas disponíveis para compra e download posterior terão dreamscapes independentes.

Ainda que não libere novas músicas, o repasso na carreira dos liverpudlianos tem outras recompensas: para cada música terminada, são liberadas fotos da carreira do grupo, com pequenos textos sobre o fato mostrado. Uma foto é liberada por conseguir três estrelas na música, e outra por conseguir cinco estrelas – qualquer dificuldade pode ser utilizada para conseguir as estrelas. Outra foto é liberada ao terminar a fase, e outra por terminar o “desafio da fase” – todas as músicas da fase tocadas em sequência – com cinco estrelas em todas as músicas. Conforme o jogador vai conseguindo fotos, são liberados outros prêmios: diversos vídeos com o grupo, incluindo aí o grupo tocando A Hard Day’s Night no The Ed Sullivan Show e um extrato do The Beatles Christmas Record (disco gravado pelo grupo como presente de Natal para os membros do fã-clube oficial) de 1963.

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Sobre o jogo em si, ele não nega o seu pedigree. Na essência, não deixa de ser um jogo da série Rock Band. Os notecharts são bem equilibrados, apesar de certos problemas que já indiquei em outra matéria, que é ter instrumentos estranhos mapeados nos notecharts. Notadamente, temos os violinos e cellos de I Am The Walrus e o sitar de Within You Without You/Tomorrow Never Knows mapeados na guitarra e a tambura indiana mapeada na bateria, apesar de não termos os excessos da franquia concorrente, que adora mapear teclados em guitarras e colocar acordes impossíveis (se duvida, procure “Raining Blood 5 note chart” no Google). O salto de dificuldade de médio para difícil também foi melhorado. Se antes o acréscimo da tecla laranja na guitarra era acompanhado por um “re-charting” que obrigava praticamente a um reaprendizado, agora é possível conseguir resultados razoáveis no hard se você tem alguma experiência no médio (apesar de algumas recaídas, certo, Birthday?).

A grande novidade do jogo em relação à franquia origem é a implementação de harmonias vocais. Para poder refletir as harmonias que os Beatles faziam, o jogo permite até três vocalistas ao mesmo tempo, com um deles fazendo a voz solo e os outros dois fazendo harmonias. Todos os vocalistas dividem a mesma pista, com trilhas diferentes para os três vocais. A pontuação e o medidor de Beatlemania (o nome do jogo para o “overdrive”, onde você ativa um multiplicador de pontuação por tempo limitado e possibilita o salvamento de um jogador que tenha caído por muitos erros) é único para todos eles, mas a pontuação que conta é a do solo. As harmonias possibilitam apenas ganhar classificações “double fab” e “triple fab”, com um aumento da pontuação (também porque são muito difíceis de cravar). Por isso, foi criado um modo de treinamento específico, onde foi adicionado à música um MIDI com o tom da harmonia que se deseja treinar, para que seja possível cravar o tom mais facilmente.

Infelizmente, apesar da opção de harmonia estar disponível para um único jogador, ela não está bem implementada. O problema é que, caso você tenha alguma frase da música sem harmonia mas com vocal solo, obrigatoriamente o solo deve ser cantado. Isso faz com que aquele fã do George que não tem capacidade para fazer voxtar do solo (para os mais leigos, voxtar é o “nome técnico” para quem canta e toca guitarra ao mesmo tempo no jogo), mas que gostaria de emular o “quiet Beatle” tocando a guitarra e fazendo as harmonias, não possa fazê-lo. E seria realmente fácil de fazer, é difícil entender porque não foi implementado.

Numa nota pessoal, tenho que dizer que I’ve Got A Feeling, uma das minhas favoritas, teve o vocal terrivelmente mal implementado. Na música, Paul e John alternam a voz solista – Paul canta duas estrofes, John canta outra e, na última, os dois cantam as linhas respectivas ao mesmo tempo. A solução lógica seria colocar Paul no solo e John na harmonia. No entanto, o vocal solo força o jogador a cantar os dois solos, jogando a parte do John na harmonia na última estrofe. Além disso, quando cantei a música, em um trecho onde os dois cantam a mesma linha no mesmo tom, estranhamente o jogo indicou que eu acertei o solo e a harmonia ao mesmo tempo, me dando “double fab”…

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Na bateria, foi modificado o modo de se ativar a Beatlemania. Ao invés de fills (trechos onde o jogador poderia tocar livremente, com uma nota verde ao final que, quando tocada, ativava o “overdrive”), temos apenas a nota verde. Para o jogador saber que está chegando a nota de ativação da Beatlemania, uma “sombra verde” aparece com um tom bem fraco, e vai ficando mais escura conforme a nota vai chegando. A ativação continua sendo opcional.

Um ponto que deve ser notado sobre o modo estória: ao contrário do World Tour dos outros RB, o modo não começa fácil e vai ficando progressivamente mais difícil. Como ele acompanha a carreira do grupo de maneira cronológica, as músicas mais fáceis estão concentradas no meio (a fase psicodélica do grupo), com as músicas mais difíceis concentradas logo após (o álbum branco e Abbey Road).

De resto, o jogo tem o default: modo online tanto para o quickplay como para o modo estória, leaderboards e achievements. Não é possível jogar online com vocalistas em máquinas diferentes – pode-se jogar em online com harmonias, mas todos os vocalistas devem estar jogando na mesma máquina. A versão Wii tem exatamente as mesmas opções das versões para Xbox 360 e PS3, incluindo leaderboards e achievements (apesar de serem chamados “accomplishments”). Apenas peca nos gráficos, que dão a impressão de serem mais fracos inclusive que os da versão de RB2 para o console. Poderiam ter colocado vídeos pré-renderizados para as músicas, como fizeram para RB1. Mesmo assim, a experiência não é afetada significativamente pelos gráficos ruins. O coração do jogo é o mesmo em todas as versões.

Tenho que dizer que o jogo é tudo que eu esperava. Nota-se o detalhe e o carinho que a Harmonix teve com esse projeto. As falhas na implementação da harmonia são um problema menor perto da qualidade das músicas. Os vídeos, tanto in-game quanto os de abertura das fases, passam toda a energia e excitação de um grupo que tinha a ambição de ser o maior do mundo – e que conseguiu muito mais do que isso. Se você é fã dos Beatles, a compra é obrigatória. Se você é fã de jogos musicais, a compra é obrigatória. Se você é um desses coitados de mente fechada que dizem que os Beatles eram uns enganadores e que Queen, Ramones, Led Zeppelin ou **insira qualquer artista aqui** são melhores que eles, não é esse jogo que vai fazer você mudar de opinião. Agora, se você acha isso mas tem a mente um pouco mais aberta, recomendo experimentar The Beatles: Rock Band. Esse jogo pode não fazer você deixar de achar que seu grupo favorito é/era melhor do que os Beatles, mas com certeza fará você entender um pouco melhor porque eles foram e ainda são o maior grupo de rock de todos os tempos e parte do panteão dos maiores artistas da história.

95 %


Prós:

🔺 Bela apresentação do jogo
🔺 Ótima seleção de músicas
🔺 Extras bem interessantes
🔺 É um Rock Band – ou seja, notecharts bem-feitos e qualidade

Contras:

🔻 Harmonias mal implementadas
🔻 Instrumentos inexistentes mapeados
🔻 Versão de Wii perde muito em gráficos

Ficha Técnica:

Lançamento: 09/09/09
Desenvolvedora: Harmonix, MTV Games
Distribuidora: Electronic Arts
Plataformas: PS3, Wii, Xbox 360
Testado no: PS3

Imagem do texto de RKGK

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