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Uma poesia. O fim de uma jornada infinita. Uma miríade de encontros e desencontros. Uma reprodução mais do que fiel sobre a vida cotidiana. Um ensaio sobre a humanidade. Um épico digno dos contos de Homero. Uma ode à mortalidade. Isso é The Banner Saga 3.

O terceiro ato de uma história magnífica foi trazido ao mundo pela desenvolvedora americana mais nórdica possível, a Stoic Studio. Finalmente podemos acompanhar a parte derradeira da história de Rook e Alette, pai e filha que precisaram fugir do fim do mundo em busca de alguma salvação. Dando continuidade no sucesso de público e crítica dos jogos anteriores, The Banner Saga 3 mantém a jogabilidade com um misto de visual novel, gerenciamento de recursos e combate por turnos com um toque de role playing game.

Mais do que um jogo, uma aula

Depois de terminar o jogo e tendo já jogado os dois anteriores, fui pesquisar mais sobre a empresa desenvolvedora. Minha primeira surpresa foi a Stoic ser americana. Realmente não esperava. Pela temática do jogo ser tão bem construída e situada, pelos nomes dos desenvolvedores, nada mais justo do que ser uma empresa nórdica. Outro ponto de surpresa foi a maravilhosa escolha do nome, Stoic. Em português, uma tradução válida seria estoico. [Voz do falecido Marcelo Rezende ON] Aí eu te pergunto, o que seria estoico?

Imagem_BannerSaga3
Pai ou filha em uma jornada inacreditável.

Trago a ti a resposta, jovem gafanhoto. Estoico se refere a um indivíduo que se comporta como determinava uma escola helênica de filosofia denominada Estoicismo. Essa linha de pensamento trabalhava com um sistema de lógica e suas visões sobre o mundo natural.

De acordo com eles, o caminho para a felicidade humana era aceitar esse momento como o presente em si, não nos permitindo ser controlados pelo nosso desejo de prazer ou pelo medo da dor. Usando nossas mentes para compreender o mundo a nossa volta e fazer nossa parte no plano da natureza, trabalhando juntos e tratando a todos justamente.

Imagem do jogo The Banner Saga 3
Gerenciamento de recursos no fim do mundo é um pesadelo bem real em The Banner Saga 3.

E, após esse Telecurso 2000 sobre filosofia clássica, chego ao meu ponto: a narrativa de The Banner Saga 3 nos traz em diversos momentos a possibilidade de escolher entre a realização de desejos primevos ou a fuga de medos imediatos, pelo bem comum.

Diferente de outros joguinhos, as escolhas em The Banner Saga realmente tem resultados expressivos (estou olhando para você, Telltale), incluindo a morte de personagens ou fins de alianças muito importantes. E fugir do estoicismo pode fazer com que os personagens façam o que você deseja, mas isso também pode levar à morte de quase mil pessoas, entre humanos, varls (caso você não conheça o jogo, são humanoides gigantes com chifres), centauros e quaisquer outros seres que estejam no seu grupo.

Imagem do jogo The Banner Saga 3
A história é muito bem contada por estes momentos de visual novel.

Outro pinguinho de conhecimento que eu só fui descobrir nos créditos do jogo foi a homenagem da desenvolvedora a Eyvind Earle, artista, autor e ilustrador norte-americano. Observar qualquer cenário de The Banner Saga lado a lado com uma das obras de Eyvind é perceber imediatamente a inspiração. Tal estilo gráfico facilita muito em dar ares de epicidade para a narrativa do jogo.

Além disso, o artista ainda é homenageado com um dos personagens da saga, chamado também de Eyvind, com graus de relevância cada vez maiores com o passar dos jogos. Parando para pensar agora, ambos tem muito mais do que o nome de semelhança, mas vou interromper o pensamento aqui para evitar spoilers.

Bater ou correr viking

Em um dos raros casos onde a história do jogo é levada em conta na jogabilidade, há uma adição muito válida em The Banner Saga 3. Nos primeiros atos da série, por estar a uma distância minimamente saudável dos inimigos, a maioria das batalhas acaba com o fim da primeira onda.

No game, a água já está chegando no pescoço, então não existem mais momentos onde você não esteja cercado de inimigos. Ao fim de cada onda de oponentes, o jogo te dá a opção de aguentar mais um pouco para receber um item especial ao derrotar o último algoz. São tão bonzinhos que permitem até pedir reforços de seus outros personagens.

Não que isso faça com que as coisas sejam mais fáceis. Porque não ficam. Por mais que eu tenha sentido uma frouxidão no que tange a dificuldade na série, diminuindo do primeiro ato até este terceiro, este ainda é um jogo consideravelmente difícil.

Imagem do jogo The Banner Saga 3
Diferenças sutis, como os títulos heroicos, modificam completamente o seu personagem.

Como se sabe, The Banner Saga é uma história em três atos onde é possível transferir seu jogo finalizado do anterior para o próximo. Não que seja obrigatório, mas é algo que ajuda muito, além de aumentar seu grau de conexão com os personagens. Com isso, você pode manter os níveis de cada um deles.

Dito isso, uma outra boa adição para personagens acima do nível 10 é a possibilidade de lhes dar um título, como Rook, “A Última Esperança”, onde cada um destes te dará diversos benefícios importantíssimos em uma batalha até o fim dos dias. Isso também ajuda a dar um grau de conto épico, com cada um dos seus heróis tendo títulos de grandeza específicos.

Imagem do jogo The Banner Saga 3
Os campos de batalha ficaram cada vez mais perigosos.

A Stoic nos prometeu o fim de uma saga com este terceiro ato. O que nos foi entregue foi bem mais do que isso. Além do fim estrondoso para uma narrativa emocionante desde o primeiro quadro, podemos visualizar outros espectros no que poderiam ser decisões fáceis e claras para nós. Mas para um ser que nasceu e cresceu em outros ambientes, suas motivações são completamente distintas.

The Banner Saga 3 aprimora todas as mecânicas provenientes dos primeiros jogos da série, afinando, polindo e aperfeiçoando cada detalhe. A jogabilidade chegou a um ponto irrepreensível. A dublagem é de altíssima qualidade. O estilo gráfico é impecável. A música, original, não poderia casar mais com o universo.

Imagem do jogo The Banner Saga 3
A caminhada que parece sem fim aumenta e muito a agonia de não saber se vai chegar no seu objetivo.

No primeiro momento The Banner Saga é só mais uma história de fantasia medieval com toques fantásticos. O clássico universo a um passo do genérico, com homens apressados e gigantes com passos lentos e fortes. Porém, como toda boa fantasia, é uma analogia para a vida contemporânea, para a busca de aceitação entre diferentes povos e como a falta de diálogo, compreensão e a busca por manter o status quo pode levar tudo à ruína.

Tenho claramente a série Portal como a obra em videogames que mais me tocou, em segundo nesta lista fica Donkey Kong Country muito mais pelo fator nostálgico e pelas inovações que qualquer outra coisa. Agora essa dupla é uma trindade, The Banner Saga definitivamente marcou a ferro e fogo minha mente com suas mensagens e suas experiências.

Imagem do texto de RKGK

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