Skip to main content

Um jogo “tipo Limbo”. Quando saiu em 2010, o Limbo do estúdio independente Playdead era tão único e inovador que virou sinônimo de gênero, um feito geralmente guardado para clássicos como Doom e Super Mario Bros. Não à toa, clones desses jogos continuam se proliferando nas plataformas digitais, principalmente as mobile. Stela, da Skybox Labs, à primeira vista até parece ser bem inspirado em Limbo, e talvez mais ainda em sua pseudo-continuação Inside, mas tenta ter atributos para agradar e surpreender quem estiver disposto a superar a desconfiança inicial causada pelas semelhanças com os títulos da Playdead.

O estúdio canadense Skybox pode ser pouco conhecido, mas pelo jeito não falta experiência: eles foram responsáveis pelas remasterizações de Age of Mythology, Rise of Nations e Grandia II e também por todo o modo Forge de Halo 5, e ainda estão trabalhando como um dos estúdios de apoio da 343 Industries em Halo Infinite. A proximidade com a Microsoft pode ter sido crucial para que Stela tenha sido lançado por enquanto apenas para Xbox e plataformas Apple, sem qualquer menção de PS4 ou Switch.

Direto e reto

Stela começa sem te avisar de nada. Sem texto, sem introdução, nem instruções ou cutscenes. Nossa protagonista (será que ela se chama Stela mesmo?) se vê em um cenário inóspito, desolador e cheio dos perigos (os mais letais são as “sombras”, como são chamados uns bichos humanoides grandalhões, e eu só soube disso porque o game cita o termo “sombra” na listagem de conquistas). Como em Limbo e Inside, o game se apresenta com movimentação 2D e usa apenas dois botões, de pulo e ação (este serve para puxar alavancas, empurrar caixas e tudo mais). Stela usa gráficos poligonais, mas com um jeitão minimalista, sem muitos detalhes na tela.

Imagem do jogo Stela
A famigerada parte que faz seu Stela rodar beirando os 30 quadros.

A direção de arte em si agrada bastante. Os cenários são bem feitos e, digamos, “únicos”, já que geralmente você nunca tem a sensação de estar em um lugar repetido nem nada disso. O game aproveita bem o jogo de sombras e os objetos com os quais nossa personagem pode interagir se destacam sem parecer que o game simplesmente está te forçando a interagir. Basicamente nenhum cenário soa familiar, e isso é bom porque mantém a sensação de evolução na campanha. Quase não existe backtracking, e no máximo você volta algumas dezenas de metros ou sobe e desce algumas escadas para mover uma alavanca ou algo do tipo para resolver algum puzzle.

Os puzzles em si são bem variados e muito, mas muito fáceis. Stela é quase um passeio no parque no quesito dificuldade, com a maioria dos quebra-cabeças envolvendo mover alavancas na ordem correta ou mover caixas para cima de determinados pontos do cenário. Mais para o final do jogo, Stela reserva uma sequência de quebra-cabeças um pouco mais difíceis, mas que demandam mais timing do que cabeça.

O timing em plataformas, tão presente em Limbo e Inside, também aparece por aqui. Há trechos em que é preciso pular no momento certo para fugir dos bichos, ou antes de uma porta se fechar. É comum errar alguns pulos que, à primeira vista, até parecem bem fáceis, e infelizmente essas partes te lembram (negativamente) de Prince of Persia, por exemplo. No geral, a parte mais plataforma de Stela é fácil e a maioria dos jogadores não vai encontrar dificuldades e nem se frustrar. Se acontecer de cair do barranco seguidas vezes, a profusão de checkpoints vai garantir que ninguém perca muito tempo em trechos repetidos.

Imagem do jogo Stela
O estilo gráfico é minimalista e impressiona bem mais em movimento do que nessa imagem.

Tecnicamente, Stela tenta ficar nos 60 quadros por segundo e na maioria das vezes consegue com sucesso. Uma pena é que quando a taxa de quadros cai, ela cai bastante. Em uma particular sequência com fogo no cenário (e em lanças que tentam acertar nossa personagem), a taxa de quadros varia consideravelmente. No resto do jogo, mesmo em ambientes abertos, a sensação é de que fica mesmo cravado nos 60 quadros, então a suspeita é que a forma como os desenvolvedores tenham implementado os tais efeitos de fogo é o que possa ter comprometido a fluência naquelas ocasiões. Resta esperar que saia uma atualização que corrija ou amenize isso, porque na hora, vendo o desempenho cair, até deu uma desanimada (de leve, mas deu).

Já a parte sonora talvez seja um dos grandes pontos fortes de Stela. Quase não há música (que aparecem bem pouco e mais da metade para o final da aventura), mas os efeitos sonoros são muito, mas muito bem feitos. Eu diria que boa parte da ambientação é garantida pelo uso de sons que aumentam conforme um perigo se aproxima ou os passos das “sombras”, combinando com a jogada de câmera (quando ela se aproxima e se afasta). Recomendo fortemente o uso de fones de ouvido, que aumentam consideravelmente a imersão e deixam a experiência toda muito melhor.

Imagem do jogo Stela
Olha o bicho vindo…

Faltou conteúdo

Além da campanha principal, que dura por volta de duas a duas horas e meia, dependendo do quanto o jogador ficar perdido na última sequência de puzzles, o jogo não oferece basicamente mais nada. Não há colecionáveis para forçar o jogador a explorar mais os cenários, não há um “new game plus” com, sei lá, uma dificuldade a mais, não há uma galeria de arte, não há um timer de speed run, e não há segredos a serem descobertos. A campanha de Stela é curta e é boa, se sustentando por si só como uma boa campanha com começo, meio e fim, mas realmente não é legal o fato do jogo não oferecer absolutamente nada além disso.

Talvez Stela seja um belo retrato do tipo de jogo que podemos esperar no Apple Arcade: uma experiência mais curta, que vale a pena pegar e jogar até o fim para justificar aquela mensalidade que vem todo mês no cartão. Infelizmente, o jogo não saiu direto no Game Pass do Xbox, e talvez por isso mesmo fique mais difícil recomendar uma compra. É um jogo competente no que se propõe e com uma campanha que é divertida e intrigante do começo ao fim, mas para quem já jogou Limbo ou Inside, talvez seja difícil de não ficar com aquela sensação de que a gente já passou por tudo isso antes.

Imagem do texto de RKGK

Review – RKGK / Rakugaki

Marco AntônioMarco Antônio10/06/2024

Review – Blockbuster Inc.

Paulo AlmeidaPaulo Almeida04/06/2024