Planet of Lana II: Children of the Leaf traz de volta Lana e Mui para continuarem suas aventuras neste misterioso planeta pintado à mão. Os momentos encantadores do primeiro jogo certamente ficaram na memória dos fãs, e agora temos a chance de nos aprofundar nos segredos deste mundo longe da Terra. Mas aqui fica claro desde o início: esta é uma continuação que expande e refina o que já não é tão alienígena assim.
Desenvolvido pela Wishfully, o jogo mantém sua base intacta: aventura, puzzles inteligentes e uma estética deslumbrante. Desta vez, Lana e Mui estão mais maduros e contam com novas habilidades que ampliam as possibilidades de interação. A experiência é mais variada, mais fluida e mais ambiciosa. Ainda assim, trata-se de uma evolução segura, que melhora o que já funcionava sem necessariamente arriscar novos caminhos.

Em busca de uma cura
A jornada começa anos depois do primeiro título. Movidos pela curiosidade, Lana e Mui exploram uma antiga instalação, um prólogo que já indica que há algo maior por trás dessa história. Quando Anua adoece ao se aproximar de uma rocha misteriosa, inicia-se a missão central de Planet of Lana II: encontrar os ingredientes para uma poção de cura. O que começa como uma busca simples rapidamente se transforma em algo muito mais amplo.
São três ingredientes espalhados por biomas distintos. Nas montanhas geladas, a polpa de uma flor raríssima, no fundo do mar, uma pérola protegida em uma concha e, na floresta, um ritual que leva ao encontro de um animal místico, do qual será necessário extrair parte do chifre. A estrutura é clara, se divide em episódios e funciona bem justamente por servir de base para o que o jogo faz de melhor: seus inúmeros quebra-cabeças.

Mas reduzir a experiência a esses três destinos seria injusto. Paralelamente à busca pela cura, vemos como as tribos estão usando as máquinas reprogramadas a seu favor e, discretamente, vestígios do passado surgem e levantam questionamentos mais profundos sobre a relação entre os humanos e as máquinas. A pergunta que ecoa é inevitável: de onde veio tudo isso?
Os murais espalhados pelo cenário não entregam respostas prontas. O jogo aposta na interpretação, o que é uma escolha ousada e coerente com sua proposta contemplativa. Visualmente, o planeta está ainda mais grandioso. As máquinas, que lembram as criaturas ARCs de ARC Raiders, continuam ameaçadoras e reforçam a necessidade de furtividade. Aqui, o perigo não está na ação frenética, mas na preocupação constante.

Quem jogou o primeiro título sabe que a dinâmica entre Lana e Mui é o coração da experiência. Em Planet of Lana II: Children of the Leaf, essa parceria atinge seu melhor momento. Lana está mais ágil, pode se prender às paredes e reprogramar máquinas para usá-las estrategicamente. Mui, por sua vez, assume um papel ainda mais ativo: desativa circuitos, interage com objetos e estabelece conexões com criaturas do planeta.
Essa ampliação de habilidades não é mero detalhe, ela transforma o design dos puzzles que casam bem com os cenários. A variedade é impressionante e mostra um cuidado evidente com progressão e ritmo. O jogo introduz ideias, desenvolve, combina e troca no momento certo. É uma fórmula que vai surpreendendo durante toda progressão
Mecânicas de movimentar caixas aparecem com frequência, robôs podem ser reprogramados para criar situações estratégicas, estruturas podem ser levitadas e até um pequeno submarino entra em cena. Nada parece jogado ali apenas para variar: tudo compõe os cenários e é você quem decide como utilizá-los ao longo da jornada.

Domando as criaturas de Planet of Lana 2: Children of the Leaf
O ponto mais criativo da sequência está no controle das criaturas. São três ao todo, cada uma com funções bem definidas e puzzles próprios. O pequeno peixe é veloz, atravessa espaços estreitos e pode liberar uma mancha escura para cegar câmeras e outras criaturas marinhas. A bolinha fofa cria rastros inflamáveis que abrem caminho em áreas bloqueadas, uma pena, porém, que o bichinho precisa ser sacrificado durante o processo, uma decisão que reforça o peso das escolhas. Já o animal voador permite transportar água e modificar o ambiente ao regar plantas.
Todas funcionam muito bem. Talvez até bem demais, porque quando começam a ficar realmente interessantes, o jogo segue em frente. É impossível não desejar que essas mecânicas fossem exploradas por mais tempo. Lembram a sensação de não querer se despedir das montarias de Donkey Kong Country ou das transformações de Super Mario Odyssey. Aqui, a criatividade é real e justamente por isso deixa vontade de mais.

Planet of Lana 2: Children of the Leaf se transforma constantemente ao longo da jornada. Narrativa, jogabilidade, visual e trilha orquestral caminham juntos e se misturam, tal como as artes feitas à mão. Aliás, a direção de arte continua sendo um dos maiores trunfos da série e, sem dúvidas, o elemento que mais sustenta a sua identidade. É impossível não se envolver.
Há momentos controlando apenas Mui, quase como um pequeno point-and-click, que quebram o ritmo de maneira inteligente e ainda assim, reservam desafios. Mesmo no medo da água que o pequeno companheiro ainda sente, também é incorporado como mecânica, exigindo que Lana transporte-o com segurança em uma flor que se transforma em bolsa.

A linguagem própria dos personagens permanece incompreensível e essa decisão continua sendo acertada. A ausência de legendas para diálogos reforça a ideia de que o jogador deve observar, interpretar e sentir. Não é um jogo que explica demais. Ele confia na atenção de quem está jogando.
Interpretando os sinais
A busca pela cura de Anua é apenas o gatilho. O verdadeiro foco está na relação entre máquinas e humanos. Algumas revelações até podem soar previsíveis, mas ainda assim o impacto emocional funciona. O jogo constroi seus momentos com delicadeza e sabe quando desacelerar. O final deixa espaço para continuidade. Resta saber: DLCs ou um novo jogo, Wishfully? Seja o que for, nós queremos!

Para a alegria de todos, a duração é maior que a do primeiro jogo, girando em torno de oito horas. Isso pode se estender caso você busque todos os coletáveis, que ajudam a montar um diagrama narrativo interessante (fica a dica). O ritmo é equilibrado, sem exageros ou preenchimentos artificiais.
Os puzzles não são especialmente difíceis e aqui está um ponto que pode dividir os sentimentos. A acessibilidade até pode ampliar o público, mas reduz a sensação de superação. Em alguns momentos, faltou ousadia para maiores desafios durante a progressão. Planet of Lana 2: Children of the Leaf acaba por escolher um caminho seguro no seu design e não dá para julgar, afinal, a receita funcionou no primeiro título.

Mesmo sendo uma experiência profundamente focada na conexão entre dois personagens, o jogo continua exclusivamente single-player. Um modo cooperativo teria potencial para elevar drasticamente a dinâmica da dupla. É uma oportunidade desperdiçada. Enquanto jogava me perguntava em como seria ter um segundo player controlando exclusivamente o Mui.
Outro detalhe é que há um único momento que funciona como uma espécie de batalha construída por puzzles e ele é excelente. Justamente por isso, a ausência de outros momentos semelhantes ao longo da campanha pode fazer muita falta. Deveriam insistir nessa ideia, talvez mostrasse mais da hostilidade e rivalidade entre as tribos e seu uso da tecnologia.

Planet of Lana II: Children of the Leaf é uma continuação consistente e artisticamente admirável. Ele amplia o universo, refina suas mecânicas e entrega uma experiência cuidadosamente construída. No entanto, evita riscos maiores e por isso não é revolucionário. Manter essa essência custou algumas limitações.
Torço para existir um próximo passo para a série, onde a conexão entre Lana e Mui, que é o coração da experiência, talvez possa deixar de ser solitária. Um modo cooperativo para dois jogadores bem estruturado pode elevar essa parceria a outro nível. De qualquer forma, Planet of Lana II mostra que seu universo é sólido e cheio de potencial ao ponto de nos fazer imaginar e querer muito mais.
Prós:
🔺O visual feito à mão continua lindíssimo
🔺Diferentes personagens para controlar
🔺Jogabilidade diversificada
🔺Tem puzzles divertidos
🔺A história é envolvente
🔺Cheio de pequenas surpresas
🔺Mais longo que o anterior
Contras:
🔻Poderia ter mais batalhas contra chefões
🔻Não é tão desafiador quanto poderia
Ficha Técnica:
Lançamento: 05/03/2026
Desenvolvedora: Wishfully
Distribuidora: Thunderful Publishing
Plataformas: Switch, Switch 2, PS4, PS5, Xbox One, Xbox Series, PC
Testado no: PS5


