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Criado pelos paulistas Douglas Oliveira e Ed Freitas, Mana Spark é o titulo de estreia da BEHEMUTT, um estúdio de jogos indie brasileiro situado em São Paulo. Este é um projeto ambicioso produzido por uma pequena equipe e que, mesmo com suas limitações, queria criar algo que agregasse valor ao produto final. Sem deixar a qualidade de lado, eles criaram algo que provavelmente vai te surpreender.

Não posso começar esse review de Mana Spark sem dizer que fiquei surpreendentemente admirado desde o momento que eu o iniciei pela primeira vez. É inegável a qualidade apresentada desde a cutscene de abertura, com artes bem trabalhadas e trilha sonora envolvente. O jogo captura sua atenção pela qualidade da produção, especialmente levando em consideração o tamanho da equipe que o fez.

Sem delongas vamos ao jogo. Mana Spark é um rogue-lite com elementos de RPG, no qual você terá de explorar masmorras geradas aleatoriamente, na busca de descobrir o segredo por trás do domínio de criaturas sombrias, usando armadilhas e habilidades para aniquilar seus inimigos e ficar cada vez mais forte.

O tutorial chama a atenção, por ensinar o jogador os comandos através de elementos físicos no cenário, ou seja, eles são apresentados através de figuras no formato das teclas e do mouse de maneira palpável no cenário, sendo parte daquele mundo. Lendo pode não ser algo surpreendente, mas são poucos os jogos que ensinam o jogador de maneira tão criativa, e sem interromper com pop-ups irritantes – ou telas que ocupam toda a área visível com textos pouco relevantes – no decorrer do gameplay.

O poder da água

Talvez um dos primeiros elementos que chamem sua atenção seja a arte, e não é para menos. Utilizando elementos de pixelart, ela é muito bem feita, bonita apesar de minimalista, principalmente nos cenários que são ricos em detalhes, mesmo nas sessões de masmorras, com diversos detalhes bem trabalhados. As animações são outro quesito que prova que o jogo foi feito pensando nos mínimos detalhes. Elas são fluidas, sem engasgos ou cortes, tanto nos personagens e inimigos, quanto nos cenários, que tem uma das animações de água mais bonitas que já vi nesse estilo. Ela reflete os movimentos que são executados sobre ela como, por exemplo, quando você atira uma flecha a água irá traçar suavemente o trajeto que ela fez. É algo magnífico (você pode conferir isso no vídeo de gameplay acima).

Imagem do jogo Mana Spark
Isso sim é chegar com estilo.

Outro ponto notável são as apresentações dos personagens, pois cada um tem uma arte própria de apresentação, assim que você derrota certos chefões, desbloqueia novos personagens que se tornam jogáveis na aventura, e no momento que isso ocorre, uma arte de apresentação é exibida, e elas são caprichadas, sem exagero, comparáveis às artes de apresentação de personagens de jogos da Blizzard ou League of Legends. Isso destoa um pouco do resto do estilo utilizado no jogo e nas cutscenes, mas não deixa de ser um “algo a mais” no conjunto da obra.

Continuando com os elementos fundamentais, a trilha sonora é outro item de destaque no conjunto, com músicas marcantes e que compõe bem cada situação que se passa na tela, tendo batidas mais fortes em momento de mais tensão como em chefes, e mais agitadas nas masmorras enquanto enfrenta uma horda de criaturas sombrias. Sem falar dos momentos mais techno como na cutscene de abertura, dando quase que um ar de Blade Runner à produção.

Como mencionado no início do review, Mana Spark conta com cenários gerados aleatoriamente, ou seja, toda vez que iniciar uma partida a configuração das fases será gerada de forma randômica. Mesmo com essa proposta, as salas tem presets definidos, sendo assim, não será raro você se deparar com uma sala exatamente com a mesma disposição e inimigos de alguma jogatina anterior. Apesar disso, o conjunto e formato da fase também é gerado aleatoriamente, o que cria situações diferentes todas as vezes – e às vezes até favoráveis ao jogador.

Bater e correr

Os movimentos básicos dos personagens são correr, atirar, se esquivar (dash) e usar armas especiais (que você coleta ou adquiri nas sala de save), variando em velocidade dependendo de seus atributos. Os comandos respondem bem e são intuitivos, executando as ações sem problemas. Cada herói tem atributos diferentes entre si, como ter um delay maior entre os ataques, porém causando mais dano, se mover mais rápido, porém ter menos resistência, e por aí vai. Isso deixa o título mais balanceado, além de proporcionar a escolha do herói que mais se adequa ao seu estilo de jogo.

Imagem do jogo Mana Spark
A segunda chance pode ser mais vantajosa do que parece.

Cada um deles conta com uma arma principal única, mas podem ser adquiridas (ou encontradas) armas e armadilhas especiais no decorrer do gameplay, como redes pegajosas que deixam os inimigos mais lentos enquanto passam sobre ela, uma torreta que atira flechas automaticamente em determinados intervalos de tempo, entre outras. Após você utilizar os itens especiais pela primeira vez, eles serão desbloqueado em seu arsenal, assim podendo melhorá-los quando estiver no acampamento, sendo capaz de iniciar uma nova aventura já equipado com tais itens.

Para deixar o jogo mais dinâmico ele conta com um sistema de habilidades bem distinto, podendo ser encontradas em baús ou adquiridas com moedas de ouro na sala de save. Elas não só servem para aumentar seus status de resistência e agilidade, como há algumas que aumentam as chances de os inimigos deixarem comida e vida, ou mais moedas ou runas. Todas as habilidades podem ser combinadas durante a jogatina (e ficam em destaque no canto inferior da tela), assim deixando seu personagem cada vez mais poderoso. Porém, caso você morra, perderá todas elas e terá de recomeçar uma nova partida do zero. Apesar de haver a possibilidade de combinar diversas habilidades, o jogo te limita a utilizar apenas um item especial por vez, caso já tenha um selecionado e queira usar outro, você terá de abandonar a anterior e substituí-lo pelo que deseja usar.

Durante as suas jornadas, você irá juntando runas que serão deixadas por alguns inimigos e chefões após derrotá-los. Com essas runas poderá recrutar novos aliados, e após eles chegarem em seu acampamento, poderá usá-las para melhorar seus atributos ou armas especiais. Assim como as runas, os inimigos também podem deixar moedas de ouro para trás, que servem basicamente para comprar itens nas salas de save, como habilidades e armas especiais. Ao morrer você perde todas elas, tanto runas quanto as moedas de ouro, mas as runas podem ficar salvas ao entrar em uma sala de save, então, tudo que você coletou até aquele momento estará salvo.

Quanto mais você avança nas fases e vence novos chefes, são apresentadas fases mais extensas e com mais salas (além de inimigos mais desafiadores). Todas elas terão sua saída bloqueada, assim obrigando o jogador a encontrar a alavanca que a desbloqueia, tendo de explorar as salas até encontrá-la. Em cada sala que adentramos somos obrigados a matar todos os inimigos que ali estão, do contrário não podemos sair dela. Porém, mesmo depois de você encontrar o mecanismo que libera a saída, continuar explorando as fases é recompensador, pois há chances de encontrar “baús” (que se parecem com portais, mas o conceito é o mesmo) com alguma arma ou habilidade dentro, que com certeza vão ser muito úteis no decorrer da aventura.

Nas fases mais avançadas, você tem a chance de encontrar criaturas mais fortes que, ao serem derrotadas, te dão a opção de escolher entre duas habilidades para ser agregada ao seu leque. As batalhas contra essas criaturas não são obrigatórias, pois elas estão enjauladas, bastando você libertá-las para iniciá-las, porém a possibilidade de ganhar o prêmio é muito tentadora.

Imagem do jogo Mana Spark
Seu acampamento não poderia ser melhor habitado.

Para os jogadores que gostam de vasculhar cada canto dos cenários, esse não é dos jogos que vai lhes recompensar por isso, afinal, explorar as salas não vale a pena. “Mas espere, você não acabou de dizer que é recompensador explorar?” Sim, explorar as fases é recompensador, porém explorar as salas não é, pois você não encontrará nada para além do que os inimigos deixam ao serem derrotados ou algum baú (portal), porque tudo é marcado no mini mapa no topo da tela. Caso não haja nada destacado, nem se preocupe em explorar, pois não haverá nada naquela sala. A posição dos inimigos também fica marcada no mini mapa, dessa forma te ajudando a criar a melhor estratégia e/ou armadilhas.

As salas das fases costumam ter passagens estreitas com objetos pelo caminho, sejam eles parte do cenário, como mesas, barris ou armadilhas no chão que causam dano em você e nos inimigos que o pisam. O grande problema aqui é que é fácil você ficar preso em algum canto da sala enquanto executa o movimento de dash (esquiva) para desviar dos ataques inimigos, e assim acabar morrendo por ficar encurralado. Isso é bem frustrante, principalmente porque as vezes não conseguimos ver direito a disposição de alguns elementos na tela que ficam ocultos pelo ângulo de visão que temos do cenário.

Antes de entrar nas sessões de masmorra (e após derrotar chefes), existe uma sala de save, onde você poderá comprar itens e salvar o progresso para continuar mais tarde caso deseje, porém entre as fases não há essa possibilidade. Você só poderá “salvar” se morrer, do contrário a aventura prossegue até enfrentar algum chefe e derrotá-lo para novamente encontrar outra sala dessas. Poderia haver alguma opção de salvar no decorrer do percurso, para podermos pelo menos fechar o jogo caso necessário, ou dar uma pausa sem precisar começar desde o último ponto salvo.

Carinhas do mal

Os inimigos são dos mais variados e desafiadores, exigindo de você uma boa estratégia (ou o uso desmedido da esquiva). Não é o tipo de jogo que você vai para cima dos inimigos sem pensar, pois com certeza isso irá te matar antes do que você pensa. Alguns inimigos usam escudos para se proteger dos seus projéteis, outros lançam projéteis, outros atacam fisicamente (melee), e por aí vai. De vez em quando a I.A. (inteligência artificial) deles falha, mas isso é bem raro.

Os chefões também são bastante resistentes e demoram para morrer (caso não tenha atributos que aumentem seu dano), mas assim como os inimigos comuns eles têm sequências de movimentos (como em jogos antigos), bastando apenas prestar atenção nas ações e momentos que eles executam. Fazendo isso e tendo cuidado para não tomar dano, com paciência você terá sucesso neste jogo.

Imagem do jogo Mana Spark
Em terra de cego quem tem um olho é…

Apesar de contar com dificuldade elevada nas fases mais avançadas, e ser relativamente punitivo quando o jogador morre, perdendo quase tudo o que coletou até então, ele ainda conta com um ótimo sistema de progressão, no qual o jogador junta as runas que acumulou durante a aventura para desbloquear aliados em seu acampamento, que irão lhe ajudar a melhorar seus atributos. Eles serão os responsáveis pelas melhorias dos seus status e armas especiais, além de poderem lhe mostrar quais os pontos fracos de cada inimigo. Ou seja, no final das contas, cada morte te faz avançar mais na jornada, pois você agrega recursos para ir cada vez mais longe a cada partida, o que evita frustrações. Isso compensa o fato do titulo ser relativamente curto, contando com aproximadamente 7 chefes. Claro, você não irá conseguir concluí-lo na primeira tentativa, assim aumentando a longevidade e o fator replay.

Além disso, ao morrer depois de determinada progressão na jornada, você tem a possibilidade de uma “segunda chance” que lhe dispõem três cartas com atributos, armas e habilidades extras para iniciar uma nova partida diretamente com estas vantagens – às vezes lhe rendendo até uma boa quantidade de runas. O jogo conta com fogo amigo, ou seja, você pode sem querer ser atingido por seus próprios ataques, como uma flecha que ricocheteia e te atinge novamente. Em compensação, os inimigos também podem causar dano uns aos outros, o que gera situações bem cômicas durante a jogatina, como um inimigo mais forte disparando seu ataque mortal quando de repente um outro entra no caminho para te atacar e acaba morto pelo companheiro.

Há um tipo de “photo mode” mais criativo no título: ele permite salvar em forma de gifs as ações que você executou (ou o momento que morreu), bastando entrar no menu de pausa e ele já irá mostrar os instantes anteriores. Você seleciona o momento que deseja e ele gera um gif. Você pode também aplicar um efeito de zoom e/ou câmera lenta, assim gerando gifs mais épicos. É até bem interessante, uma função que pode agradar aqueles que querem guardar ou compartilhar nas redes aquele momento surreal que aconteceu durante o gameplay.

Mana Spark é um ótimo exemplo de jogo nacional bem executado, e que mostra que uma equipe, por mais pequena que seja, com disposição, boas ideias e persistência, pode criar algo incrível sobrepujando suas limitações. Apresentando um conjunto de arte e som bem trabalhado, uma variedade bem distinta de habilidades, armas e inimigos, numa jogabilidade divertida com um sistema de progressão agradável, o jogo é altamente recomendado para quem curte o gênero, mas também para aqueles que querem experimentar jogos diferentes, com boas ideias e apoiar desenvolvedores e a indústria nacional.

Imagem do texto de RKGK

Review – RKGK / Rakugaki

Marco AntônioMarco Antônio10/06/2024

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