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O final de Linelight me fez chorar. É sério. Eu não sou a pessoa mais insensível do mundo, mas ninguém joga um puzzle com linha e luzinha colorida esperando se emocionar.

“E se reduzíssemos o videogame à sua forma mais simples”

Essa é a pretensiosa frase do trailer do jogo, que desconsidera a pluralidade do conceito videogame.

Ok, não vou ser chato. De fato muitos jogos se encaixam na premissa de levar um iterator de um ponto A a um ponto B, atravessando uma série de embargos. O jogador então enfrenta desafios para abrir os entraves do caminho – às vezes mais, às vezes menos – linear. No entanto a maior elegância semântica de Linelight com a expressão “sua forma mais simples”,  se dá pela representação visual “big-bang” de uma fagulha de impulso elétrico – que faz tanto funcionar os “circuitos” de um videogame quanto originar a vida no universo.

Visualmente, o jogo parece aqueles diagramas de circuitos elétricos, com linhas ligadas em série ou paralelo, com resistências e interruptores; seu “personagem” – que dá nome ao jogo – é um pequeno pedaço de “linha de luz”. A partir desse tema, Brett Taylor conseguiu criar mecânicas muito criativas e consistentes, que se desprendem de uma “linha” de lógica realista dos circuitos, permitindo muitos puzzles geniais (meus prediletos são os que usam os “fiozinhos enrolados”). São quase 300.

Controle importa

Não se imagina que “controle” demandaria atenção num jogo assim, mas esse é mais um dos pontos em que o desenvolvedor se mostra caprichoso. Sua linhazinha iluminada tem momentum e não apresenta dificuldades em te obedecer ao ter que virar esquinas. É uma delícia controlá-la, no início. No início. À medida em que o jogo vai apresentando mais quebra-cabeças que demandam precisão de comandos (“action puzzles”), essa facilidade de virar esquinas vai atrapalhar bastante. Uma dica: jogar com um controle que tenha direcional analógico pode ser essencial às vezes.

Fora alguns momentos tensos, é o tipo de jogo “relaxante”, casual, feito pra você matar dois ou três quebra-cabeças e voltar a tocar a vida. Toda a “mise en scène” segue essa ideia: um fundo de céu escuro estrelado, uma música de piano bem suave, efeitos sonoros minimalistas (coerentes com toda a apresentação visual). Tudo muito bonitinho – talvez até “bonitinho demais”, um tiquinho piegas. Mas é lindo, eu que tô sendo chato de novo.

Linelight 2_13_2017 8_53_34 PM

Trabalho de “Aluno Estrelinha”

Linelight é aquela prova entregue pelo primeiro aluno da sala, que faz tudo com muito cuidado, atentando-se a todas as questões, e apresentando até surpresas: pela beleza do conjunto, você até releva alguns pecados. Para além da dificuldade do controle, em algumas (raras) ocasiões há um bugzinho aqui e ali, um ou dois puzzles um pouquinho inconsistentes (dos quais você passa sem saber direito como conseguiu). Fora isso o jogo é praticamente impecável e segue à risca uma certa cartilha de game design:

– Ensinar a jogar no próprio gameplay ✓
– Mecânicas novas apresentadas progressivamente ✓
– Surpreender o jogador com o desdobramento das mecânicas ✓
– Segredos ✓
– Fator surpresa ✓
– Mecânica como instrumento narrativo ✓…

É mais um daqueles puzzles que conseguem ir te surpreendendo aos poucos, provando como as mecânicas podem apresentar muitas possibilidades – inclusive visuais – e até discutir valores humanos. Braid é certamente uma das inspirações aqui – há, inclusive, duas mecânicas semelhantes. Mas nessa caso, tudo é minimalista e não há uma única palavra. É um jogo que consegue te fazer sentir empatia por uma “linhazinhas de luz”, e com ela discutir valores como a amizade, o sacrifício pelos outros e a transcendência como prêmio.

Linelight 2_13_2017 8_56_26 PM

Linelight é redondinho. E lindo. Snif.

Imagem do texto de RKGK

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