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Com o Brasil se dividindo em dois pólos em meio a uma pandemia e protestos americanos contra assassinatos aos negros, o debate contra o Governo e autoridades é o tema que mais está movendo nossas vidas neste delicado momento. Liberated chega exatamente neste ponto da História e realça que estejamos posicionados e saibamos qual lado estamos.

Produzido pela Atomic Wolf, o título traz uma distopia que com o clima noir, contado em forma de história em quadrinhos. Tudo remete à inspiração de obras como Watchmen, V de Vingança e muitos outros que incitam o questionamento de como estamos vendo os avanços e a forma como estamos sendo controlados pelas nossas lideranças.

Nas páginas dos quadrinhos

Liberated tem um clima bem complexo e isso é mostrado logo nas primeiras páginas. Sim, assim como uma HQ, a história e gameplay se seguem em quadrinhos pela tela. Diálogos, explicações, cenários, tudo com uma arte noir e sombria impressionante e que vai te fazer ficar muito mais imerso em sua aventura.

O Governo controla toda a sua vida. Seu dinheiro é digital e observado por todos os órgãos que o movimentam. Se você não posta nada em suas redes sociais, é motivo de investigações para entender o que se passa. Mensagens trocadas com pessoas próximas também são observadas e, caso não fale com ninguém, também é razão de ter o olho governamental em sua cola.

Imagem do review de Liberated
O Governo está sempre de olho…

Falando em olho, não se esqueça que todas as ruas e prédios tem câmeras que te seguem o tempo todo. Não há para onde fugir e é nessa trama que você é jogado. São quatro histórias distintas, contadas de pontos de vista diferentes e que te farão questionar qual lado está certo em suas ações. Mesmo com seus vários clichês do gênero e frases de efeito, o jogo aproveita bem o espaço e te coloca muitas dúvidas no caminho.

Dessas histórias, você conhecerá personagens que se entrelaçam conforme avança no enredo. Por exemplo, o primeiro personagem que controla é Barry Edwards, um hacker com nome falso e que esconde mais do seu passado que imagina. Se unindo forçadamente à revolução, ele precisa invadir as bases inimigas e auxiliar sua equipe na empreitada. Já na segunda, você terá em mãos um capitão que é reconhecido como herói e localiza a base dos rebeldes. Assim, ele segue com seu esquadrão para lá e terminar com toda a revolta.

Imagem do review de Liberated
Barry é o protagonista da primeira história.

Liberated, mas um pouco restrito

Porém, para podermos falar devidamente de Liberated, entenda que ele se encaixa muito mais no gênero história interativa do que em um jogo propriamente falando. Você terá controle de seus personagens em poucos momentos e, assim que o tiver em mãos, não terá muita liberdade para fazer muita coisa. É muito mais tempo investido lendo e acompanhando os rumos da saga do que você fazendo algo nela.

As partes que você joga de fato são resumidas em poucos comandos que serão necessários. Andar, pular, mirar e atirar. Simples assim. Óbvio que há mecânica de interação com alguns elementos do cenário e a opção de se esconder caso queira surpreender o inimigo, assim como você pode apertar L para andar devagar e não chamar atenção. Porém, você usará muito mais os básicos, em cenários que funcionam como um game de plataforma.

Imagem do review de Liberated
Não são muitos trechos jogáveis para te colocar na ação.

Além disso, há diversos puzzles que te desafiarão muito mais que o próprio game. Hackear o sistema, ligar plataformas entre várias outras atividades estarão entre a gameplay e a história para que possa interagir com mais frequência com tudo que está sendo apresentado em sua frente. Tirando isso, o restante é tudo quadrinhos passando pela sua frente.

Ao menos um elogio quanto a isso, além da história ser muito bem contada e de muita qualidade, a equipe da Atomic Wolf também disponibilizou localização em português Brasil e você pode acompanhar tudo sem problema algum. Confesso que isso ajuda bastante na imersão neste caso e agrada até pelas expressões que usamos no cotidiano sendo mostradas com naturalidade.

Imagem do review de Liberated
Liberated também conta com QTEs e puzzles no meio da história.

Graphic Novel de qualidade?

Esta é a proposta central de Liberated, que seguiu por um caminho alternativo para mostrar ao seu público a linha tênue que existe entre Direitos e Deveres com o autoritarismo. Apesar de ter trechos jogáveis e com bastante ação, a ideia é trazer um ambiente mais próximo das histórias em quadrinhos e com interatividade ocasional. O enredo e as páginas com sua arte aqui fazem o papel de serem o destaque.

Por mais que tenha gente que vire o nariz e até se desaponte, não está em meu posicionamento negativá-los por causa disso. Alerto que não agradará a todos, seja pela ideologia que segue ou por não ter tantos trechos jogáveis quanto estão acostumados. Porém, como afirmei acima, o foco principal do título é imersão em sua história e nos desdobramentos que isso ocorrerá para as próximas que se seguem a cada capítulo.

Imagem do review de Liberated
As histórias, mesmo distintas, se interligam com o todo.

Apesar disso, também devo afirmar que ele não foi muito bem otimizado no geral. O Nintendo Switch já se mostrou capaz de trazer mapas gigantescos com The Legend of Zelda: Breath of the Wild e Xenoblade Chronicles 2 por exemplo. Já Liberated, trava em uma tela de carregamento de página por cerca de um minuto, apenas para virar de uma para outra. Isso com a última sendo apenas um quadrinho de história e o próximo também.

Isso incomoda bastante, pois você a princípio não saberá se apenas não apertou o botão A, ou se apertou e seu controle está com problemas, se está travado, aí aperta de novo e ele pula um diálogo que você não sabe se é importante ou não para entender a sequência. Isso pode ser consertado com uma atualização, porém é um problema que é recorrente por todo o jogo.

Imagem do review de Liberated
Troca de páginas travam com frequência.

Já os trechos que você joga não notará nenhuma queda ou travamento, tornando essas partes em ambientes fluídos e que agradarão em seu geral. Até uns Quick Time Events rolam, então é bom se manter atento. Porém, confesso que já indo da segunda para a terceira história eu comecei a achar tudo muito repetitivo. Mira, atira, corre, se esconde, estrangula, corre, mira, atira…acredito que cabiam estilos diferentes para cada personagem para não passar essa impressão.

Como fã de HQs, confesso que Liberated me agradou bastante por me passar a sensação de que estava lendo uma graphic novel em meu Switch. Inclusive acredito que na plataforma haja espaço para mais histórias assim e seria muito bem-vindo. Tenha isso em mente e não terá muita decepção com o game. Ele estará disponível no híbrido da Nintendo no dia 02 de junho e no PC, através da Steam, ainda neste ano.

Mesmo com algumas falhas, indico para quem curte um gênero mais alternativo e que não vemos tanto assim no mercado. Ainda mais no momento que vivemos, como disse no início do texto, temos de saber enxergar todos os lados e identificar o ponto no qual opiniões e fatos divergem para podermos tomar nossas decisões sobre o futuro. E, nesse ponto, o jogo triunfa com uma aula de observação do que vivemos através da ficção.

Imagem do texto de RKGK

Review – RKGK / Rakugaki

Marco AntônioMarco Antônio10/06/2024