Skip to main content

Ser um líder não é uma tarefa fácil. O Império Romano do Ocidente está caindo. Tribos e clãs tidos como bárbaros rondam as cercanias vindos do Leste e Norte da Europa buscando campos mais pródigos e uma vida mais tranquila. O Mediterrâneo é a terra prometida para milhares de pessoas.

Jon Shafer, designer de Civilization V, o jogo “4X” mais difundido por este mundão de meu Deus é o responsável por At The Gates. Desenvolvido e publicado pela novata Conifer Games, o jogo busca remeter aos clássicos de estratégia dos anos 90, como os primeiros Civilization, Warcraft e Age of Empires.

Nasce um novo rei

Vamos primeiro explicar o que quis dizer utilizando o termo 4X: refere-se à jogos nos quais o objetivo é explorar, expandir, explorar (agora no sentido de obter recursos) e exterminar. A expressão circula nosso mundinho desde 1993, surgindo em um review de Master of Orion e, desde então, é sinônimo de jogos de estratégia consideravelmente complexos.

Será um pouco complicado conseguir fazer esse review da maneira com a qual minha mente entendeu Jon Shafer’s At the Gates sem ficar constantemente referenciando Civilization. Principalmente quando o principal argumento de venda do mesmo é que Jon Shafer foi o designer de Civilization V. Acho uma estratégia que menospreza o produto atual? Acho. Mas cada qual segundo suas obras.

Imagem de Jon Shafer's At The Gates
São poucos textos até…

Qual é o principal atrativo de um jogo 4X? Construir, gerenciar, expandir uma civilização e absolutamente destroçar seus inimigos (ou vizinhos, como preferir chamar), queimando suas casas, pilhando seus tesouros e salgando a terra para que nada mais floresça naquele ambiente. Ou tentar a versão pacifista e fracassada disso tudo.

Em Jon Shafer’s At the Gates, ao contrário do habitual do gênero, nosso escopo de ação é consideravelmente limitado. Iniciamos uma partida com um reino pequeno, somente com três clãs, que se comportam como uma unidade cada. E o crescimento de sua comunidade acontece de forma espontânea, em geral, pela fama que adquire chamando a atenção de outros clãs.

Imagem de Jon Shafer's At The Gates
Parece casa de parente no domingo, sempre chegando alguém.

Vamos parar para pensar quais todas as possíveis profissões que alguém poderia ter em uma sociedade quase que tribal na Europa dos anos 400 da Era Comum. Pois então, basicamente todas elas estão presentes em Jon Shafer’s At the Gates. Desde cavador, passando por cortador de carne, treinador de cavalos, bardo, padre ou general. Nem página de classificados tem tanta opção assim.

Obviamente essas profissões não estão todas dispostas de uma forma escrota e bagunçada, o que não significa que não estão confusas. Existem 6 classes disponíveis e para cada uma delas existe uma árvore de profissões a serem descobertas e, posteriormente, ficarem disponíveis para que sejam aprendidas por algum dos seus clãs.

Com uma necessidade permanente de manter suas linhas de suprimentos funcionando e uma quantidade de clãs bem reduzida, frequentemente nos vemos de mãos atadas até que um novo clã apareça ou tendo que trocar constantemente as profissões dos seus súditos, o que toma tempo e exige remanejo e replanejamento incômodos.

Imagem de Jon Shafer's At The Gates
Muito bonitinho demais esse joguinho.

Acredito eu que, caso fosse possível criar ou gerar novas unidades, uma parte desse problema seria solucionado, permitiria que criássemos estratégias mais complexas ou mais bem trabalhadas, ao menos. Tudo bem que na vida real, por mais que seja relativamente simples fazer com que pessoas novas apareçam (aquela história das abelhas e das flores e tal), demora um certo tempo para estarem prontas para trabalhar. Uns 4 anos, mais ou menos. Algumas vezes deixar o realismo de lado, mesmo em um jogo que busca a complexidade, faz com que ele seja melhor ou meramente mais gostoso de jogar.

It’s good to be the king

O ponto que achei mais fantástico em Jon Shafer’s At the Gates foi a direção de arte. O jogo todo é ilustrado em aquarela. Ilustrações lindas, bem trabalhadas, condizentes com a ambientação. Simplesmente incrível! A impressão que fica é que estamos jogando uma pintura de 1000 anos. Dá vontade de ficar assistindo e vendo as movimentações.

Entrando em um jogo complexo dentro de um escopo reduzido, precisamos de um certo manual de usuário. A não ser que sejam leitores ávidos de O Príncipe, de Maquiavel, ou tenham sido regentes de algum reino bárbaro da Alta Idade Média, não somos lá muito experientes em gerenciar um Estado de forma realista.

Imagem de Jon Shafer's At The Gates
E esse é só até o segundo nível de uma das classes de profissões.

O que Jon Shafer’s At the Gates traz é uma mecânica de dicas sobre dicas, em tradução livre. Deixando o mouse sobre um componente, surge uma explicação que define o mesmo. Agora, se em algum ponto da dica surge a necessidade de citar outro componente, o jogo marca o texto e permite que você veja uma dica sobre um componente dentro da dica. E não tem limite. Pode-se atravessar infinitos níveis de dicas-sobre-dicas. Muito bom para entender as correlações presentes no jogo.

As mecânicas de gerência de recursos necessitam que você leve em conta, além da quantidade presente no local, da distância de onde você se encontra, se você tem um trabalhador apto a adquirir o recurso específico. E além de tudo isso, ainda tem o clima: inverno, chuvas e todo tipo de intempéries que podem E VÃO acabar com sua vida.

Imagem de Jon Shafer's At The Gates
Você jogador de Civilization já conhece essa carinha, né?

Existem outros reinos que também decidiram tentar a vida na cidade grande, também conhecida como Roma. Afinal At the Gates não é meramente um nome aleatório e sim uma referência a estar nos portões de Roma. O encontro com essas inteligências artificiais são uma versão genérica dos encontros de Civilization, sem opções além de uma na qual nos subjugamos ao inimigo e uma que nos posicionamos como inimigo declarado.

Quando estamos frente aos adversários, nos deparamos com especificidades de combate apenas pela personalidade de cada um dos membros dos clãs. O combate em si é simplório, confuso, imprevisível e, mesmo que o jogo dê uma previsão do resultado, boa parte das vezes ele mente. Nos é prometido um resultado e acaba por ocorrer outro, o que é estupidamente decepcionante.

Imagem de Jon Shafer's At The Gates
Tem até a versão com grid.

Por fim, Jon Shafer’s At the Gates busca ser um jogo 4X rememorando os clássicos de 20 anos atrás. Modificando o escopo, fechando e focando em áreas menores, porém aumentando o grau de complexidade e realismo. E isso nem sempre é sinal de qualidade. Falta muito para que o jogo tenha o nível de Civilization, principalmente no que tange a saber guiar seu jogador por um caminho menos espinhoso e mais florido até os portões de Roma.

Imagem do texto de RKGK

Review – RKGK / Rakugaki

Marco AntônioMarco Antônio10/06/2024

Review – Blockbuster Inc.

Paulo AlmeidaPaulo Almeida04/06/2024