O universo é infinito. Isso significa que, matematicamente falando, todas as probabilidades estão pra jogo, todas as possibilidades se concretizam em algum lugar. Por causa disso, é possível acreditar que exista, em algum ponto dessa vastidão, um cantinho onde alienígenas consomem seres humanos para ficarem doidões. Eu prefiro acreditar que exista um cantinho onde High on Life 2 tenha o reconhecimento que merece.

O primeiro título da Squanch Games buscava trazer a insanidade verborrágica da animação Rick & Morty para o mundo dos jogos eletrônicos, mas terminou recebendo críticas pesadas e uma recepção morna. A continuação não busca agradar nem gregos, nem troianos, mas dobra a aposta para provocar risadas extremas e momentos de deleite para a turma do fundão da sala e outros esquisitos.

High On Life 2

De zero a herói e de herói para zero

É possível começar a franquia pelo segundo título? Eu sou a resposta positiva para essa pergunta. Torci o nariz na época para o primeiro jogo, depois de ver um vídeo de jogabilidade, mas High On Life 2 caiu no meu colo e decidi arriscar. Não me arrependo de nenhum segundo passado nesse canto absolutamente biruta do universo.

A aventura já começa na velocidade máxima, com uma sequência de abertura que é teste cardíaco para a velocidade de carregamento do seu SSD e sua GPU, alternando entre situações e cenários desconexos com a cadência de um esquilo com TDAH virado na cafeína. É a forma que a desenvolvedora escolheu para você pegar esse bonde andando: nosso protagonista é uma celebridade, depois dos eventos do primeiro jogo, e isso significa uma agenda intensa. Quando a abertura finalmente puxa o freio de mão, somos largados em uma espécie de museu abarrotado de referências e resumos sobre o que aconteceu antes, para você consumir no seu ritmo, no seu tempo, ou simplesmente seguir em frente, porque lugar de passado é no museu (literalmente, no caso apresentado).

High On Life 2

A partir daí, o jogo vai construindo uma narrativa central: nosso protagonista passa a ser um fora da lei para proteger os seres humanos das ambições de uma mega corporação farmacêutica, sustentada por políticos e magnatas. Ainda assim, o enredo não tem medo de pegar os desvios mais inesperados possíveis. A cada fase do jogo, a cada avanço da trama, eu não fazia ideia da loucura que iria me esperar em seguida e entrar em mais detalhes aqui seria reduzir o impacto da verve meteórica de High On Life 2. Digamos apenas que o jogo aborda divórcio, RPG de fantasia, política e a mais desesperadora quebra de quarta parede que eu já vi.

O senso de humor da Squanch Games está presente em cada linha de diálogo, em cada reviravolta da trama, em cada personagem que vai sendo introduzido em sua trupe de aliados. É o Mass Effect da zueira, não fica pedra sobre pedra, não existe tema tabu, ainda que o jogo não descambe para o mau gosto em nenhum momento. O grande mérito do título é que sua metralhadora de deboche não se manifesta somente no texto e nas falas, mas se faz presente em cada detalhe dos cenários. É uma bobeira crônica que aparece nas capas de revistas, nos simples transeuntes com suas próprias histórias inusitadas, nos cartazes, na moda, na arquitetura, no design de objetos… não existe um centímetro quadrado de High On Life 2 que não funcione para construir essa atmosfera de total galhofa.

High On Life 2

Em contrapartida, é aqui que High On Life 2 comete um erro que sempre me incomodou na franquia Borderlands: a cacofonia. Todos os personagens falam muito rápido e muitas vezes falam ao mesmo tempo, o que gera uma sobrecarga sensorial. Em diversos momentos, o ideal era parar o personagem e esperar o diálogo terminar, até porque eram grandes as chances de eu rir. Entretanto, essa balbúrdia se torna incômoda em combates, quando informações cruciais para vencer esse ou aquele oponente se perdem no meio do falatório. Considerando que o jogo não é dublado, mas apenas legendado, a dificuldade só aumenta. Ou talvez isso seja somente reflexo do abismo geracional e eu seja o velho gritando com as nuvens, enquanto a geração TikTok vai ler esse parágrafo com dó.

High On Life 2 fazendo sua cabeça

Se a imersão é plugada em 220v, as mecânicas dessa sequência também dão um salto de intensidade. O principal destaque é a introdução de um skate na movimentação do protagonista, que aproxima a velocidade e a flexibilidade dos combates do frenesi de um Sunset Overdrive, mas sem abusar em momento algum na complexidade. A diversão é a tônica de High On Life 2, se isso ainda não ficou claro até esse ponto da análise. Temos um skate, nos movemos mais rápido no campo de batalha, grudamos em trilhos e é isso, adicionado ao sistema de corda e gancho, que já existiam antes.

High On Life 2

Entretanto, a fusão com o skate vai além de um combate mais acelerado e se estende também para desafios tradicionais de skate nas fases, incluindo referências descaradas a Tony Hawk, e a introdução de uma verticalidade muito forte nos níveis. Uma vez que o jogo trabalha com hubs de mundo aberto, é possível revisitar diversas fases e usar todos os seus recursos de locomoção para encontrar conteúdo adicional, missões secundárias, colecionáveis ou simplesmente executar manobras loucas e ser feliz.

E o conteúdo adicional é realmente amplo e variado. O jogador que procurar pelos cantos vai encontrar áreas inteiras que estavam escondidas antes, com subtramas, novos desafios ou apenas uma boa risada. É possível jogar minijogos em múltiplos fliperamas espalhados pelo universo, é possível assistir filmes inteiros (!) de qualidade discutível em um cinema, é possível customizar o visual de armas e do protagonista, é possível realizar missões de táxi com passageiros, pescar coisas estranhas e muito mais.

High On Life 2

E aqui vale rebater um dos preconceitos que eu tinha em relação à franquia: High On Life 2 não é um jogo majoritariamente de tiro. O melhor paralelo seria com a franquia GTA: temos amplos espaços abertos lotados de atividades opcionais, temos uma história carregada nos diálogos que faz a trama avançar e temos ocasionalmente uma sequência de ação intensa, envolvendo combate.

As novas e antigas armas do jogo também permitem resolução de puzzles fora do convencional, com direito a tiro alternativo, tiro carregado e, é claro, uma personalidade hilária para cada uma delas. Travis, desde já, é meu espírito animal, meu padroeiro nessa grande jornada da vida.

High On Life 2

“Pega o skate desse gralha…”

Recebi High On Life 2 pouquíssimos dias antes do lançamento, com o aviso escancarado de que o título ainda não estava otimizado e poderia apresentar problemas de performance. Considerando que minha configuração está longe de ser topo de linha, isso acendeu um sinal de alerta em minha mente. Foi um medo infundado: ajustando o modo DLSS para Performance e deixando algumas opções no Médio, o título fluiu a contento. Essa performance melhorou ainda mais aqui em casa depois do lançamento.

Ainda assim, há muitas reclamações de desempenho na internet, de jogadores com configurações vastamente superiores. Se você está planejando jogar com tudo no Ultra, em 4K, é provável que o título não corresponda. Por outro lado, com a expectativa reduzida, eu posso afirmar que o jogo é lindo da mesma forma, rápido e carregado de efeitos visuais. É um salto gráfico em relação ao primeiro título.

High On Life 2

Não, o jogo não bugou. O gráfico dessa parte é ESSE MESMO!

Além disso, posso testemunhar também que não há bugs graves. Na versão pré-lançamento, meu personagem caiu para fora do mapa uma vez, mas foi automaticamente restaurada para o último checkpoint (e os checkpoints são bem generosos). Também na versão pré-lançamento, eu vi um NPC sentado no ar deslizando na minha frente, o que não deixava de ser engraçado, da sua maneira. O último bug que eu vi foi em uma batalha de chefe, quando a habilidade de uma determinada arma, essencial para vencer aquele chefe, parou de funcionar, forçando um recarregamento de checkpoint (e o jogo tem checkpoints de meio de batalha!). Em nenhum momento, o jogo travou ou me devolveu para o desktop. Obviamente, a experiência pode variar de acordo com a configuração de cada PC.

Infelizmente, High On Life 2 surge prejudicado por uma campanha de marketing quase nula, pela memória ruim do primeiro jogo e por críticas de performance no Steam, o que deve empurrar essa pérola para debaixo da lista da maioria dos jogadores. Em algum ponto do universo, High On Life 2 é Game of The Year. No meu cantinho da Terra, compreendido pela minha mesa, meu PC e eu, High On Life 2 é uma grata surpresa.

93 %


Prós:

🔺Senso de humor afiado
🔺Construção de universo
🔺Combate dinâmico e variado
🔺Vasta quantidade de atividades adicionais

Contras:

🔻Cacofônico em muitos momentos
🔻Problemas de performance

Ficha Técnica:

Lançamento: 13/02/26
Desenvolvedora: Squanch Games
Distribuidora: Squanch Games
Plataformas: PC, PlayStation 5, Xbox Series
Testado no: PC

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