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Jogando Gran Turismo Sport, eu tive uma sensação parecida com a daquela de quando joguei o novo Marvel vs Capcom Infinite: as mecânicas principais do jogo são muito boas, mas quando olhamos para a apresentação de forma geral nossa empolgação cai ladeira abaixo. Realmente não gosto de esculachar o trabalho dos outros, principalmente quando é perceptível o esforço empregado no produto, mas Gran Turismo Sport infelizmente me obrigou a escrever uma análise desconfortável, para dizer o mínimo. Aqui vai…

Que ronquem os motores

Gran Turismo Sport é um ótimo simulador de corrida de carros. Os controles são precisos, os gráficos brilham – principalmente jogando no Playstation 4 Pro com o HDR habilitado em uma TV 4k –  e o som é competente. Suas mecânicas e sistemas funcionam muito bem durante todo o tempo, mas infelizmente seu modo de campanha solo deixa muito a desejar.

Rodando a 60 quadros por segundo não consegui perceber em momento algum nenhuma engasgada na taxa de frames, o que é primordial para um simulador de corridas com pretensões sérias no cenário de e-sports. O modelo dos carros e os efeitos de luz não decepcionam e em alguns momentos até impressionam, dependendo da pista e do período do dia em que a corrida acontece.

No entanto, fica bem claro que Gran Turismo Sport privilegia performance sobre a cosmética. E por falar em performance, como já era de se esperar, os controles são extremamente precisos e confortáveis. A diferença no manejo de cada veículo é clara, mas a adaptação do jogador de um veículo para outro não exige muito sofrimento como em jogos concorrentes. É possível estabelecer algumas muletas no entanto, caso você não seja um jogador muito habilidoso, como freios automáticos e elementos gráficos no asfalto indicando quando frear. Falando em asfalto e frenadas, o trabalho de efeitos sonoros do jogo é bom, mas nada memorável, e isso inclui também a trilha sonora.

Imagem da tela de conquistas de Gran Turismo Sport
Existem vários objetivos secundários e recompensas em GT Sport. O problema é que o jogo não sabe apresentá-los de forma coerente e atrativa durante a partida.

Gran Turismo Sport é dividido em três modalidades. O modo Arcade possibilita a criação de corridas customizadas, o famoso modo versus em tela dividida e o já consolidado modo de corrida por tempo. Há novidades também aqui, como o modo VR que permite que o jogador tenha uma experiência bem imersiva, mas o Playstation VR só funciona neste modo e não é aceito nos demais modos do jogo.

Além do modo Arcade, temos o modo Campanha, que traz três seções: a Driving School, Mission Challenge e Circuit Experience. Sinceramente, Driving School me pareceu uma modalidade totalmente desnecessária, pois ensina conceitos básicos que seriam aprendidos de qualquer forma nos outros dois modos e, além disso, é muito extensa, com 25 missões no total. Já o modo de missões, Mission Challenge, é bem mais interessante porque apresenta alguns cenários mais criativos e fora do padrão “chegue até o final em primeiro lugar”. O terceiro modo, Circuit Experience, oferece todos os circuitos do jogo abertos para que o jogador treine suas curvas e pontos estratégicos de aceleração.

O problema é que não há muita unidade nas três modalidades do modo Campanha, sendo que elas poderiam muito bem ser absorvidas pelo modo Arcade. Quando pensamos em uma campanha, pensamos não apenas em uma sequencia linear de eventos, mas também numa ligação e coesão entre esses eventos. Aqui em Gran Turismo Sport, o modo de campanha solo é bem desconexo e não traz a relevância e profundidade que vemos em outros jogos de simulação lançados este ano.

Sport levado a sério… demais

Claramente o carro chefe do jogo, o modo Sport, traz um multiplayer online com basicamente dois pilares: os Campeonatos e o Lobby. Neste último, comum em todo multiplayer, é possível criar corridas com suas próprias regras de forma mais livre. Já nas corridas de Campeonato, as regras já estão estabelecidas previamente. Aqui fica clara a importância, as vezes exagerada, que a Polyphony deu ao cenário competitivo de Gran Turismo Sport.

Imagem do menu de Driving Etiquete
Nada como duas aulinhas em vídeo de etiqueta para animar é galera, né não?

Antes de embarcar na competição online, o jogo força o jogador a passar pela seção Driving Etiquette, com duas aulas em vídeo de etiqueta sobre como dirigir de forma bacana. Sim, Gran Turismo Sport faz a gente parar e assistir quase 6 minutos de vídeos nos quais o jogo diz coisas como “fechar os adversários é feio” ou “não ande em zigue zague na pista bloqueando a passagem de outros pilotos”.

Claro que essas são coisas “feias” de se fazer em um jogo competitivo de simulação de corrida entre carros, mas passar um Telecurso 2000 não é a melhor saída para conscientizar os jogadores. Aliás, o jogo até tenta punir os pilotos que praticam tais coisas feias com acréscimo de tempo ao final da corrida, mas na prática essa inteligência artificial é bem falha.

Em uma determinada corrida que participei, um dos jogadores estava ali claramente para causar e, como eu era o piloto mais próximo a ele no grid de largada, acabei sendo sua vítima preferida. O cara me atingiu duas vezes na traseira propositalmente, sendo que na segunda eu perdi o controle do carro que convenientemente ficou “invisível” para que os pilotos atrás de mim não colidissem e sofressem a repercussão do ato do piloto demônio. Nessa daí eu já achei uma brecha bem grave no sistema “justo” que o jogo tenta estabelecer, pois se o cara me ferrou e eu rodei na pista, todos os jogadores devem ser afetados por isso, deixando ainda mais clara a falta de espirito esportivo do capeta que trombou comigo. No entanto, o problema ficou mais claro quando, ao final da corrida, quem recebeu a punição por tempo em 10 segundos (5 segundos por batida) fui eu! Vai entender…

Imagem do termos e condições de uso do modo online
E depois das aulinhas, nada como um documento de termos e condições para assinar junto com o seu email, né? Ahhh que delícia!

Agora, estruturalmente falando, o modo online acaba sendo mais campanha do que o modo Campanha, se é que isso faz sentido. Há no modo Sport uma sensação maior de evolução e realização do que nos modos solo, devido ao fato de que aqui temos campeonatos de verdade, coisa que não existe no modo solo.

Nesse sentido, devo dizer que achei ousada e corajosa a atitude dos designers do jogo, já que eles bravamente estabelecem que quem não jogar online não estará jogando plenamente Gran Turismo Sport. Por outro lado, esse é um movimento arriscado para uma série cuja fundação está nas suas campanhas solo. Entretanto, como já disse, aplaudo a iniciativa corajosa dos caras que estão (quer queira quer não queira) seguindo a tendência inevitável do mercado de games.

Gran Turismo Sport feat. Amy Winehouse

Muito bem, é chegada a hora do massacre, a hora de falar da apresentação de Gran Turismo Sport. Tanto em sua usabilidade e interface quanto no seu sistema de progressão e feedbacks visual, Gran Turismo Sport falha bastante. É triste perceber que algumas empresas ainda não compreendem o valor da usabilidade dentro de um jogo, lançando produtos confusos no mercado que acabam influenciando negativamente na experiência geral.

Em Gran Turismo Sport, vemos erros amadores de usabilidade sendo cometidos, como o fato de que as missões e tutoriais não pulam automaticamente de uma para outra quando completadas, exigindo que o jogador passe por três etapas de menu toda vez que quiser avançar nas missões. Outro detalhe é que a interface não é inteligente em reconhecer que você não possui um carro para tal competição e te indicando o melhor caminho a ser tomado. Não há nem a indicação básica de “você não possui um carro elegível para esta corrida, compre um aqui”. É preciso ler os detalhes do campeonato, entender a necessidade e acessar um dos showrooms das marcas oferecidas pelo jogo para comprar o veículo necessário.

Imagem da interface do menu do jogo
Encontre a informação bizarra desta imagem. E não, não estou falando da interface carregada, cheia de botões e “dicas” em amarelo.

E por falar em showroom, aqui também temos escolhas bem estranhas de design, para dizer o mínimo. No menu intitulado Brand Central, cada marca de carro oferece um showroom com os veículos disponíveis, um canal da marca com vídeos relacionados e um museu com informações sobre a história daquela marca. Agora chega a parte em que eu fico nervoso em ter que falar algumas verdades meio brutas.

Primeiro, os showrooms oferecem vistas automáticas dos carros, não possibilitando que eu, o próprio jogador, manipule a câmera, gire o veículo ou veja seu interior. Segundo, cada canal de marca oferece vídeos do… wait for it… Youtube! Sim, isso mesmo. Gran Turismo Sport vai lá e praticamente coloca o canal do Youtube da marca em uma seção dentro do jogo.  Terceiro, o modo museu, além de apresentar as informações em uma linha do tempo bem enfadonha, ainda usa informações de Wikipédia. Ah e tem mais: durante a tela de espera do menu, Gran Turismo Sport oferece informações super relevantes como o ano em que o Facebook foi fundado ou quando a Amy Winehouse lançou seu segundo álbum. Se ao menos houvesse alguma música da Amy Winehouse no jogo, já seria uma vitória.

Os problemas na apresentação não param por aí. Não há em Gran Turismo Sport nenhum tipo de locução para ambientar suas conquistas ou até mesmo o próprio conteúdo do jogo; é tudo muito seco. A forma como suas conquistas são apresentadas na tela são bem sem graça também, com um feedback visual muito pobre e, embora o título possua um sistema de progressão competente, não há muito estimulo para continuar, principalmente na campanha solo.

É chato dizer isso, mas parece que Gran Turismo Sport foi lançado no começo dos anos 90, quando a linguagem na apresentação dos games, em sua maioria, não era tão sofisticada como hoje. Vale ressaltar aqui que sua introdução, que acontece logo que a gente inicia a jogatina, denota um estado de espírito super sofisticado e emocionante, com uma trilha clássica acompanhando vídeos de pilotos famosos e suas conquistas. Infelizmente, essa ambientação sofisticada e tom de voz caloroso não são transportados pra dentro do jogo em nenhum dos elementos que o compõe.

imagem do modo Scapes de Gran Turismo Sport
O modo Scapes possibilita a criação de fotografias bem realistas utilizando fotos reais em HDR no background que criam toda a iluminação da cena automaticamente.

Tem mais um pequeno detalhe: os danos mecânicos nos carros. Embora essa mecânica faça parte da jogabilidade, eu incluo ela aqui na parte de apresentação por dois motivos. O primeiro deles sendo o fato de que, mesmo com o modo de dano ligado ao máximo no menu de configuração da corrida, o dano estético dos veículos chega só até certo limite, e este limite é bem brando.

Você não verá partes do capô voando ou espelhos quebrados. Apenas leves amassados e pinturas danificadas serão visíveis, mesmo que o indicador de danos do veículo esteja apontando que o troço está prestes a explodir. O segundo motivo é que, embora o jogo tenha um acabamento in-game muito bom, alguns deslizes, como paredes invisíveis em cenários abertos, em que os carros colidem do nada e recebem dano por isso acabam quebrando drasticamente a imersão do jogo.

Gif animado do carro atingindo uma parede invsível
“Cuidado com a parede”… “Que parede?” PA!

A linha de chegada

Eu gosto de jogos de corrida, sempre joguei e sempre jogarei. É super recompensador entender uma pista, onde acelerar e frear, percebendo os limites dos seus adversários e se aproveitar deles quando oportuno. É um gênero de concentração e uma alta dose de pequenas recompensas, como conseguir melhorar seu tempo em milésimos de segundo em uma corrida. E embora eu não seja o mais habilidoso dos pilotos em jogos de simulação, esta análise não está sendo escrita por um noob sem noção de nada. Pelo motivo de ser um fã do gênero é que fica muito difícil dizer que uma das franquias que estabeleceu o sucesso de simuladores de corrida de carros nos consoles tenha lançado uma nova versão tão aguardada e, ao mesmo tempo, tão decepcionante em um ano que tivemos F1 2017, Project Cars 2 e o arqui-inimigo Forza Motorsport 7.

Muitos críticos tem apontado a falta de conteúdo do jogo como um fator negativo, com pouco número de circuitos e carros disponíveis. Eu discordo completamente. Gran Turismo Sport oferece, neste sentido, conteúdo suficiente. Existe uma boa variedade de carros, inclusive de karts que dão um charme a mais ao jogo. Os circuitos de fato não são muitos, mas existe uma boa variação de pistas e horários do dia que mudam sim a experiência da corrida, não deixando as partidas enjoativas. Talvez um sistema de simulação climática daria mais dinamismo ao jogo, mas o que temos aqui é suficiente.

O problema de Gran Turismo Sport não está na sua carcaça, mas sim no seu motor. Tudo aqui parece datado e defasado, fazendo com que seja possível apontar soluções melhores de seus concorrentes para quase todos os elementos que o compõe. Dessa forma, fica difícil indicar a compra do jogo mesmo sendo uma franquia exclusiva de PS4, quando outros jogos multi-plataforma fazem um melhor trabalho.

Imagem do texto de RKGK

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