Fluidez é a palavra-chave em Fading Echo: o jogo roda suave, sem engasgos; o combate flui de um inimigo para o próximo, de uma habilidade para a seguinte; as conversas são espertas e dinâmicas, apresentando sua história complexa em interações simpáticas. E, sim, eu me esqueci de um detalhe: nesse jogo, você literalmente se transforma em água. É fluido em todos os sentidos.
O título de estreia da desenvolvedora Emeteria é uma colagem de ideias que funcionam muito bem juntas, ainda que haja um conflito aqui e outro ali. Se fosse necessária uma segunda palavra-chave para o jogo seria “polidez”, uma vez que é uma obra com charme de título independente, mas qualidade de jogo grande em todos os seus detalhes.

Estranha em uma terra estranha
Em Fading Echo, o jogador assume o controle de One. É evidente desde a escolha do nome que estamos lidando com a predestinada. Matrix foi mais discreto nesse sentido e, se menciono a franquia cinematográfica, é porque a desenvolvedora não esconde as influências. Porém, calma: não se trata de um mundo virtual e nossa protagonista não está deitada em um tanque de gosma achando que está vivendo sua vida normal. Ou será que está? Porém, há detalhes similares aqui e ali, como IAs que controlam tudo que se vê, distorções na matriz da realidade que são chamadas de “bugs” e viagens por versões alternativas do real. Jean Baudrillard ficaria orgulhoso das implicações da trama, mas não posso afirmar com certeza, faz décadas desde que saí da faculdade e isso ficou para trás.
Eu seria insensato de dizer que compreendi todo o contexto, mas o que importa, a princípio, é que One está explorando as ruínas de Corel. Corel já foi um mundo completo e vicejante, mas agora está se desfazendo a olhos vistos. É a desculpa perfeita para o jogo nos introduzir um verdadeiro labirinto 3D em que caminhos se cruzam, se sobrepõem, confundem e encantam a todo momento.

One desperta poderes elementais logo no começo. Ela ganha a estranha habilidade de se transformar em uma esfera de água. A partir de suas interações com outros elementos presentes em Fading Echo, ela consegue virar vapor e voar por um curto período, virar uma esfera de magma e provocar fogo, virar uma esfera de gosma e saltar mais alto e outras variações, incluindo uma esfera de “glitch”, capaz de teleporte.
Ao mesmo tempo, One recebe a missão clássica: colete X McGuffins para salvar esse mundo da obliteração. Se antes nós tínhamos um vasto e intrincado mapa, agora nós temos a motivação para nos lançar nessa jornada. Serão suas habilidades que permitirão que One alcance esse objetivo e, ao mesmo tempo, enfrente as ameaças pelo caminho.

Fadingo Echo é sobre usar a massa cinzenta
O material de marketing do jogo pode dar a ilusão de que Fading Echo é sobre combates ágeis, com múltiplas mudanças de elementos e decisões tomadas em frações de segundo. Não é. Ou não precisa ser. Na verdade, para ser completamente honesto, a maior parte das lutas pode ser pulada. Você segue em frente e ignora os inimigos naquela área, para seguir para as áreas que realmente importam. Os puzzles são o coração de Fading Echo.
Entretanto, mesmo nas áreas onde é recomendado limpar todos os inimigos para resolver os puzzles com tranquilidade, o combate não precisa ser nervoso. É possível, por exemplo, empurrar inimigos em direção aos muitos abismos de Corel. Corel nada mais é do que inúmeras ruínas flutuantes conectadas e existe um botão específico para empurrar seus oponentes. A desenvolvedora conta que o jogador irá fazer isso e ele pode até ser premiado com Conquistas. É possível também ignorar completamente a sinergia entre diferentes elementos e simplesmente descer a bordoada nos inimigos, porque eles vão cair em algum momento.

Morrer em batalha? Levei horas para passar por isso. Mesmo assim, Fading Echo é extremamente generoso com os pontos de salvamento. Por outro lado, se você faz questão de treta, se videogame não é videogame se não for possível bater em alguma coisa e bater, preferencialmente, com estilo, então Fading Echo também pode saciar essa vontade. Se jogue nas lutas, utilize diferentes poderes, acumule pontos de experiência e adquira mais poderes de combate.
Ainda assim, fiquei com a impressão de que o combate foi algo adicionado com menos cuidado no jogo. Fading Echo privilegia exploração e puzzle. O principal indício dessa abordagem é o fato de que caixas escondidas em locais de acesso mais complicado oferecem muito mais pontos de experiência do que vitórias em batalhas.

O real desafio da aventura de One está na solução de enigmas, está em como combinar suas diferentes habilidades e transformações para avançar na exploração e/ou acessar as tais caixas de experiência. Em seus melhores momentos, Fading Echo me lembrou Portal, com o passo a passo das soluções acontecendo primeiro em meu cérebro, para depois ser executado na tela, ou (com mais frequência do que eu gostaria de admitir) nos casos em que a solução acontecia na tentativa e erro de combinações diferentes.
Rolê aleatório
O que Fading Echo acaba vendendo não é combate nem solução de puzzles, mas simpatia. No primeiro minuto, fui cativado pela magnífica dublagem nacional. É triste saber que jogos de peso, com orçamentos milionários (cof cof 007 First Light cof cof), investiram zero centavos em dublagem, enquanto um título pequeno, humilde como esse aqui, não apenas aposta nesse recurso como também contrata os melhores do ramo. Estamos falando de nomes como Carol Valença, Flávia Saddy, Adriana Torres, Guilherme Briggs e outros. O resultado é maravilhoso: o tom inteiro da aventura pode ser entendido de imediato. Essa é uma aventura leve, com uma protagonista ligeiramente marrenta, em um mundo que não se leva a sério demais. Temos um monstro meio galo meio bolha que tem sotaque francês e quer ser seu amigo. É desse nível.

Essa leveza (e talvez tenhamos aqui uma terceira palavra chave para definir o jogo) se traduz também em suas mecânicas. Tudo no jogo é divertido de ser executado, sem pressão em demasia. One é solta nesse mundo esquisito, com um grupo de coadjuvantes que vai ficando progressivamente mais desconjuntado, e essa é a sua jornada.
Infelizmente, Fading Echo não é impecável. É justamente a combinação dessa leveza com um mundo gigantesco que acaba gerando um de seus maiores problemas: navegar por ele se torna confuso depois de um tempo. Não é uma falha única desse título: Star Wars Jedi: Fallen Order sofria do mesmo mal e tentava compensar com um mapa 3D que ajudava muito pouco. A Emeteria nem tenta mapear Corel. Você que se vire para navegar entre essas ruínas, com o agravante de que algumas áreas só podem ser acessadas ou resolvidas a partir de uma viagem para uma outra versão da realidade, como em Soul Reaver.

Então, não foram poucos os momentos em que fiquei sem saber para onde ir em Fading Echo. Dentro de cada área isolada, é relativamente fácil se localizar. Porém, viajar entre as áreas se torna progressivamente mais complexo. Áreas já liberadas podem esconder atalhos para áreas não exploradas. Um caminho alternativo que você decide fazer pode acabar se revelando como o caminho principal, como um simples cantinho para uma caixa de experiência ou como o acesso para uma área inteira totalmente nova e gigantesca. Guarde tudo isso na cabeça e tente cumprir os objetivos do jogo.
Essa complexidade espacial transborda para a trama, que vai ficando progressivamente mais confusa. Talvez eu devesse ter prestado mais atenção nas aulas de filosofia sobre Jean Baudrillard ou talvez a Emeteria devesse ter mantido a leveza da atmosfera também em seu enredo. Há um excesso de personagens e muitos deles não tem o que dizer depois que são apresentados. Há um excesso de conceitos em Fading Echo, uma aventura que cativaria mais se fosse apenas fluida, polida e leve.
Felizmente, são defeitos que não reduzem tanto assim o impacto inicial. Fading Echo impressiona e conquista, um título de estreia que indica o surgimento de um estúdio com um futuro radiante pela frente.
Prós:
🔺Dublagem deliciosa
🔺Mundo vasto explorável
🔺Mecânicas divertidas
Contras:
🔻Ausência de um mapa pode confundir
🔻Combate simplista, mas opcional
🔻História complexa demais
Ficha Técnica:
Lançamento: 21/07/25
Desenvolvedora: Emeteria
Distribuidora: New Tales
Plataformas: PC, PS5, Xbox Series
Testado no: PC


