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Você está controlando um cubinho bonitinho, coloridinho, com olhinhos e um sticker engraçadinho deslizando-o por sobre vários cubos brancos; seu objetivo é só se deslocar até o cubo que contém um alvo da sua cor. Mas você tem companhia: seu amigo do sofá controla outro cubo colorido, e que por sua vez quer alcançar o cubo que possui o alvo da cor dele. Enquanto você respira, seu “companheiro” se adianta e dá o primeiro passo, fazendo descer sobre você espinhos metálicos enormes que trucidam seu cubinho em vários pedaços. “Desculpa, eu não sabia!“… Nesse puzzle de cooperação mútua, você vai precisar ter muita paciência com seu companheiro.

Um das grandes dificuldades aqui é que cada fase apresenta um desafio surpresa e você nunca sabe se o que está fazendo será mortal ou não para seu amiguinho, só testando. “What happens next” era o tema da Jam onde esse puzzle coop nasceu em 2015 e dois anos depois nos é apresentado um jogo encorpado e bem polido, lançado pra PC e consoles (inclusive pra Nintendo Switch, onde o testei), onde dois ou quatro cubos têm que cooperar entre si para alcançarem seus objetivos evitando disparar armadilhas mortais uns contra os outros. Death Squared, ou “Morte ao Quadrado” numa tradução livre. Um trocadilho que em português fica melhor ainda.

Companion Cube e Harry Potter… Dois dos stickers pros seus cubinhos

O ambiente

Tente adivinhar a que outro jogo esta descrição se encaixa: você controla um cubo com um sticker de coração, movendo-se por um cenário “clean” e evitando ser destruído em quedas ou raios, ativando plataformas ao pisar em botões e teleportando-se. Você não fala, mas a narrativa te mostra que você é um robô que tem que passar por inúmeras câmaras de teste para algum projeto maluco de uma mega corporação futurista. Tudo isso é compreendido pelo diálogo hilário e cheio de referências nerd entre um ser humano que observa os testes e um robô com voz feminina. Ora, até a trilha sonora lembra a de Portal, uma homenagem mais do que direta. Aliás, “Companion Cubes” é exatamente o que você e seu amigo são um para o outro.

Apesar de bem diferente do jogo da Valve, Death Squared é um puzzle com um contexto narrativo maior do que eu estava esperando. Não tem nenhuma grande história (e a história não influencia no gameplay), mas os diálogos aqui contribuem à nossa imersão e servem como camada extra à diversão. Diálogos aleatórios são disparados se os jogadores estão morrendo demais, ou se um deles não está colaborando etc. Um recurso comum a jogos de outros gêneros (como aqueles que têm NPCs que te acompanham e que reagem às suas ações), e que implementado aqui demonstra um grande carinho por parte dos desenvolvedores.

Uma longa jornada em círculo. Quer dizer, em quadrado.

Um jogo cuidadoso

Vários pequenos caminhos ajudam a dar um pouco mais de diversão a uma proposta de puzzle tão “clean”. Para além da camada narrativa, você pode personalizar seu cubo escolhendo um dentre vários stickers, além de contar com botões do controle destinados apenas a fazer seu cubo piscar os olhinhos, acender a luzinha de cima, dar uma abaixadinha… funções unicamente estéticas que em nada influenciam na solução dos desafios (para os quais se usa apenas os direcionais analógicos)… todo esse polimento pra aumentar a sensação de controle sobre seu personagem.

Um dos emails que o funcionário David recebe na OminiCorp.

4, 3, 2 ou 1 jogador

O polimento e as boas ideias não param no conjunto estético, nem no design genial dos puzzles (excelentes): um dos maiores feitos do jogo é a versatilidade de te permitir jogá-lo inteirinho tanto em modo single como em multiplayer. Há 93 níveis para duas pessoas e 55 para 4 jogadores, mas é possível jogar todos os 148 sozinho. Como os puzzles dependem apenas dos direcionais analógicos – e cada controle possui dois – quando jogamos sozinhos cada dedão controla um cubo e você acaba tendo uma experiência meio Brothers – A Tale of Two Sons. Pra jogar os níveis com 4 cubos, os botões R e L alternam o cubo que você movimenta em cada analógico. Claro que jogar no multiplayer adiciona aquela camada extra de raiva pelo parceiro.

Em geral é possível solucionar um bom número de níveis em 3-5 minutos cada, mas em alguns mais difíceis cheguei a demorar mais de uma hora!

Quatro cubinhos tentando não se matar. E aos coleguinhas 🙂

[Bônus] Pensando alto: fora do seu quadrado!

Ora, este é um jogo de cubos se movendo em cima de cubos. Por que os desenvolvedores optaram por uma movimentação livre e analógica ao invés de uma modular e digital? Talvez pela sensação de liberdade e de maior controle sobre seu “iterator”, dando mais humanidade ao bloquinho. Ao mesmo tempo, essa escolha abre espaço para soluções “fora da caixa”, como fazer dois cubos dividirem um mesmo quadrado (metadinha pra cada). Consegui resolver muitos puzzles me utilizando dessa compreensão analógica do espaço, soluções certamente contempladas pelo level designer que definitivamente incentiva esse tipo de exploração em vários níveis (e de fato não sei solucionar alguns deles sem esses “truques”…) Por mais difícil que seja para um desenvolvedor de puzzle contornar todos os problemas que podem decorrer de uma movimentação mais livre em detrimento de uma modular, aqui em Death Squared o trabalho se justifica: esta escolha tem muito a somar à diversão, além de se relacionar de forma coesa com o a proposta.

Cubinhos trucidados em mil pedacinhos.

Enquadramentos finais

A desenvolvedora SMG realmente se esmerou bastante pra desenvolver esse seu primeiro jogo portado para consoles. Até então a australiana tinha feito jogos para celular, alguns disponibilizados também pra PC e Mac, todos bastante interessantes. Vale a pena conhecer e recomendo baixar Thumb Drift pra ver de onde vem a inspiração pra animação de morte dos cubinhos.

Death Squared é uma bela proposta de puzzle, feita com esmero e muito amor; é bem divertido e feito de maneira a ser simpático a todos os tipos de jogadores. A desenvolvedora ainda soltou uma nota dizendo que pode vir a acrescentar mais fases no futuro, de modo gratuito. Cumprindo ou não a promessa, a versão atual já garante muitas horas de tensão, desafios, raiva e risadas.

Logo da desenvolvedora. Alguma semelhança com as personagens?
Imagem de Children of the Sun

Review – Children of the Sun

Marco AntônioMarco Antônio09/04/2024
imagem de Ereban: Shadow Legacy

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