Serious Sam: Shatterverse tenta injetar sangue novo na franquia clássica de tiro ao transformar a fórmula consagrada de hordas e arenas abertas em um roguelite cooperativo para até cinco jogadores. Desenvolvido pela Behaviour Interactive, estúdio conhecido por Dead by Daylight, e publicado pela Devolver Digital, o jogo aposta no caos do multiverso para justificar a presença de várias versões do herói Sam Stone lutando lado a lado contra as forças de Uber Mental.
Para quem conhece a franquia vai notar que a maior mudança em relação aos títulos anteriores da série é a adoção de uma estrutura roguelite com partidas procedurais, arenas mais contidas e progressão baseada em escolhas de melhorias ao longo de cada tentativa.
Multiverso que renova um clássico
O enredo justifica essa virada ao apresentar Uber Mental rompendo as barreiras entre dimensões, o que força diferentes versões de Sam a se unirem no Programa Serious para restaurar o Shatterverse. Essa abordagem permite que o jogador enfrente cinco tenentes temíveis, cada um atuando como chefe de área, e explore anomalias, portais ocultos e modificadores de partida que alteram as regras do jogo de forma drástica.

A narrativa, embora secundária, ganha algum charme nas interações entre as variantes do protagonista, que trocam frases de efeito e comentários durante as fases. Ainda assim, a trama permanece em segundo plano e serve mais como pano de fundo para o combate frenético do que como motor de imersão. O multiverso funciona bem como conceito inicial, mas a repetição de objetivos e cenários, com poucos biomas, faz com que a sensação de descoberta se esgote antes do esperado, especialmente para quem joga sozinho.
O cerne da experiência está no loop de combate típico de boomer shooters, agora temperado por elementos de roguelite como melhorias, upgrades selecionáveis e moedas de progressão permanente. Ao eliminar inimigos, o jogador acumula recursos que desbloqueiam vantagens entre as runs, enquanto dentro de cada partida é possível escolher entre três opções de melhoria ao completar áreas ou subir de nível. O sistema inclui ainda modificadores de partida que podem turbinar a dificuldade ou alterar regras, adicionando camadas de estratégia para quem busca builds mais elaboradas.

O sistema de melhorias funciona como o coração da progressão dentro de cada run. Ao coletar fragmentos de escudo, ouro e vida durante o combate, o jogador sobe de nível e seleciona modificadores que aumentam defesa, recarga, velocidade de movimento ou dano de habilidades especiais. São dezenas de tipos de melhorias disponíveis, algumas exclusivas de certos atos, que podem ser encontradas em armas ou compradas entre fases. Entre as opções mais úteis estão melhorias de recarga automática, aumento de chance de aplicar sangramento e redução de cooldown para habilidades.
Além das modificações, o jogo conta com um sistema de progressão permanente que desbloqueia novas armas, personagens e upgrades após cada tentativa. Esse mecanismo segue o padrão de roguelites modernos, em que a morte não é o fim, mas sim uma oportunidade de fortalecer futuras partidas. O problema é que muitos desses desbloqueios exigem um número excessivo de tentativas, o que pode tornar as primeiras horas monótonas e desencorajar jogadores casuais.

Um dos destaques entre as mecânicas é o sistema de berloques, acessórios que aplicam efeitos no início de cada ato e oferecem bônus de conjunto ao combinar dois ou quatro itens do mesmo tipo. A estratégia ideal geralmente envolve equipar quatro berloques de um tipo e dois de outro, criando sinergias que podem transformar completamente o estilo de jogo.
Sam Stone por todos os lados
Uma das maiores inovações de Serious Sam: Shatterverse é a presença de cinco variantes jogáveis de Sam Stone, cada uma originária de dimensões diferentes e com estatísticas, habilidades e estilos de jogo distintos. Essas versões não são meras skins, mas personagens com papéis definidos que influenciam diretamente a dinâmica de grupo e a estratégia de cada partida.

Retro Sam, dublado por John J. Dick e com visual inspirado na era PS1 da franquia, é um personagem versátil que pode criar clones para distrair inimigos. Sua habilidade especial planta cópias explosivas de si mesmo, o que o torna ideal para comprar tempo durante revives ou desviar atenção de atiradores.
Cartoon Sam possui um design animado e exagerado, com movimentação mais lenta, mas dash mais rápido e explosões mais potentes. Sua habilidade especial o lança através de um canhão na direção escolhida, funcionando como uma ferramenta de flanqueamento ou botão de emergência em situações de pânico.

Alien Sam, cujo nome verdadeiro é Enots Mas, é um Aludran Reptiloid heroico e o primeiro membro amigável dessa espécie inimiga na história da franquia. Com quatro braços, ele pode empunhar quatro armas simultaneamente, tornando-o responsável por dizimar ondas densas de inimigos.
Orphan Sam é a variante feminina que abre portais de serras giratórias, uma habilidade devastadora quando usada em locais de spawn ou durante ondas de adição de tenentes. Ela se mostrou a personagem capaz de equilibrar as equipes, pois sua área de dano consegue lidar com múltiplos inimigos simultaneamente. Por fim, Broken Sam é a versão mais velha e cansada do herói e funciona como tanque das linhas inimigas, sem conseguir perseguir inimigos pelo mapa.

Acompanhando a variedade de Sam e o estilo de gameplay, a jogabilidade mantém o DNA de Serious Sam, com foco na movimentação constante, tiroteio em primeira pessoa e hordas massivas de inimigos que exigem reposicionamento a todo momento. O arsenal mistura armas icônicas da franquia com opções mais exóticas e alienígenas, todas projetadas para causar dano pesado e varrer arenas lotadas. O combate inevitavelmente se torna explosivo, barulhento e violento, preservando a identidade da série.
O sistema de armas é extenso e permite carregar todos os tipos simultaneamente, com as armas não equipadas recarregando automaticamente. A munição é praticamente infinita além do limite do carregador, o que remove a necessidade de gerenciamento tradicional de recursos. No entanto, o equilíbrio é um problema sério no modo solo, pois a dificuldade é desproporcional quando se joga sozinho, e a falta de variedade de armas no início das runs limita as opções estratégicas. Enquanto isso, o matchmaking foi um desafio por apresentar certa dificuldade em encontrar partidas, mesmo com crossplay ativado.
Divertido e nostálgico
Visualmente, Serious Sam: Shatterverse adota um estilo mais genérico e polido, com cenários que revisitam locais clássicos da franquia em uma roupagem moderna ao mesmo tempo em que carrega um “quê” de Fortnite no design de personagens. A direção de arte é competente e respeita a franquia, mas peca pela repetição de biomas e arenas aumentando a sensação de monotonia ao longo das horas de jogo. A trilha sonora é simples e competente, mas não se destaca, enquanto a dublagem dos personagens é muito bem feita e capturam o tom humorístico da série com muitas frases de efeito e piadas.

Serious Sam: Shatterverse é uma tentativa ambiciosa de modernizar uma franquia clássica ao abraçar o gênero roguelite, mas o resultado final deixa aquele gostinho meio amargo por talvez desperdiçar o potencial que a franquia pode oferecer. Para fãs hardcore da série dispostos em investir tempo para desbloquear conteúdo e formar grupos, o trabalho da Devolver Digital pode oferecer horas de caos divertido. No entanto, para o público geral, a sensação é de que o multiverso de Sam poderia ter sido muito mais do que uma coleção de mecânicas executadas simploriamente, mesmo que de maneira competente.
Prós:
🔺Jogo frenético e fiel à franquia
🔺Variantes com gameplay diferentes
🔺Mecânicas que adaptam bem o estilo roguelite
🔺Cooperativo divertido e fundamental
Contras:
🔻Progressão muito lenta no começo do jogo
🔻Forte desbalanceamento na dificuldade do modo solo
🔻Matchmaking com grande demora para encontrar partidas
🔻Sensação constante de repetição
Ficha Técnica:
Lançamento: 31/08/2026
Desenvolvedora: Behaviour Interactive
Distribuidora: Devolver Digital
Plataformas: PC, PS5, Xbox Series
Testado no: PC


