O poeta Dante Alighieri já está mais do que acostumado a girar em sua tumba, depois de todos esses séculos. Mais uma vez, sua obra “Divina Comédia” se torna o alvo de um trabalho derivado com resultados dignos dos tormentos infernais.

The Alighieri Circle: Dante’s Bloodline tenta estabelecer um legado, uma continuidade para os mitos seculares fundados pelo poeta italiano, mas não consegue ir muito longe. O resultado é uma aventura (felizmente) curta, de baixo desafio, com uma história questionável e aspectos técnicos ainda mais questionáveis.

The Alighieri Circle: Dante's Bloodline

Vós, que entrais, abandonai toda a esperança

De boa intenção, o Inferno está cheio e The Alighieri Circle: Dante’s Bloodline parte de uma premissa interessante. Existe uma maldição em andamento, porque tudo que está na Divina Comédia é real. Em pleno século XIV, Dante Alighieri cruzou os bastidores da realidade e deixou para trás uma tarefa a ser executada por todos os seus descendentes. A cada 33 anos, alguém deve retraçar uma jornada semelhante ou o caos afligirá o planeta. Infelizmente, esse BO caiu agora no colo do protagonista.

Os primeiros minutos do jogo trazem nosso personagem retornando para a mansão onde foi criado para cumprir seu papel nessa história. Aprendemos um pouco sobre os motivos que levaram à construção dessa estrutura em torno do portal que se abre para o Abismo, mas fica evidente de imediato que esse espaço físico existe tão somente em função da narrativa. Não há quartos, nem banheiros, nem cozinha na mansão, tampouco empregados para manter o lugar tão bem conservado. A mansão dos Alighieri é um ponto de passagem e, lamentavelmente, um ponto para o qual retornaremos muitas vezes durante nossa jornada.

The Alighieri Circle: Dante's Bloodline

O titulo não esconde que é um walking simulator e o jogador não entra enganado. O que vai dilapidando aos poucos a paciência e a sanidade é a quantidade de vezes que iremos passar pelos mesmos lugares ou lugares extremamente parecidos. O primeiro dos míseros sete puzzles que The Alighieri Circle: Dante’s Bloodline já é uma amostra do que nos aguarda: para abrir o portal para nosso destino, é necessário localizar três estatuetas que foram espalhadas pela mansão. É apenas isso: uma desculpa para percorrermos de novo todos os cômodos, desta vez com um olhar mais atento.

O segundo sinal de que os desenvolvedores não sabem muito bem o que estão fazendo em busca de uma jogabilidade está na mecânica do portal em si, um quicktime event desnecessário para passar de uma animação. Não há estado de falha: errar apenas nos obriga a repetir as teclas novamente. É um atrito forçado que acontecerá em todas as vezes que cruzamos o portal para o Abismo.

The Alighieri Circle: Dante's Bloodline

As veias abertas da família Dante

Entrando no Abismo, somos apresentados aos principais defeitos do jogo, mas também a seu único trunfo: paisagens fabulosas. A direção de arte de The Alighieri Circle: Dante’s Bloodline é caprichada, ainda que minha GPU se aproxime do ponto de derretimento para gerar níveis de detalhes que outros jogos entregaram com menos sofrimento. A otimização aqui é lamentável.

Entretanto, apesar da atmosfera imersiva desses cenários, é nítido que não estaremos retraçando os passos de Dante. É aqui que o jogo conceitualmente toma um caminho diverso. Nada de Inferno, muito menos Purgatório ou Paraíso. Nossa jornada se dará por um único ambiente, opressor, sufocante, mas bem distante da ideia de tormento constante e agonia tão magistralmente imaginada pelo poeta italiano. Ao protagonista, é explicado que o Abismo é pessoal, assume sua forma a partir do subconsciente de quem o cruza. Nesse sentido, a paisagem está muito mais próxima de um sonho do que de um pesadelo.

The Alighieri Circle: Dante's Bloodline

É perceptível que a ONE-O-ONE GAMES não quis fazer um jogo de horror. A tensão é bastante suave, principalmente depois que você percebe que não há nada nesse espaço que irá ferir ou mesmo ameaçar o protagonista. Ainda assim, a desenvolvedora parece perdida na proposta. Há um momento em que vemos uma criatura rastejando rapidamente na nossa frente e o susto não se desenvolve além disso. Nunca mais esbarramos na criatura, sua origem não é explicada, e, se eu entendi corretamente as regras do Abismo, nem faz sentido sua presença por ali.

Portanto, The Alighieri Circle: Dante’s Bloodline se afasta o máximo que pode do material original. O hack and slash Dante’s Inferno é mais fiel ao trabalho de Dante do que esse jogo. O sobrenome e a Divina Comédia são apenas pontos de partida para se contar uma história separada, quase como um exercício de marketing. Seria uma justificativa perdoável se essa trama fosse satisfatória ou mesmo coesa. Não é nem uma coisa, nem outra. Personagens vem e vão, dizem coisas enigmáticas, mas a conclusão da jornada do protagonista o devolve para a mesma posição ingrata de quando ele começou. Não há evolução ou desenvolvimento, ele está atado a um destino inexorável.

The Alighieri Circle: Dante's Bloodline

O pecado final de The Alighieri Circle: Dante’s Bloodline

Para completar essa jornada, somos obrigados a passar por provações, que se manifestam na forma de enigmas. Não houve nenhum deles em que me senti genuinamente desafiado e digo isso da posição de um jogador que tem pavor de títulos como Myst ou The Witness. Ainda assim, cada um dos puzzles apresentados aqui é de fácil compreensão, mas de execução cansativa. A compreensão era imediata, porém logo sucedida pela preguiça. Para complicar o cansaço, os pontos de salvamento são automáticos e só acontecem quando se completa um enigma. Em determinado ponto, no meio de um puzzle demorado, fui obrigado a encerrar a sessão, apenas para descobrir no dia seguinte que precisava refazer tudo do zero.

Além disso, todas as provações eram variações de enigmas que já vi representados em outros jogos. O desafio final é exasperante, um longo e extenuante labirinto de salas quase idênticas, que só pode ser resolvido com tentativa, erro e anotações para evitar repetir o mesmo erro.

The Alighieri Circle: Dante's Bloodline

Há uma desconexão entre os desafios e a narrativa (exceto pelo desafio final, quando estamos literalmente perdidos no Abismo). Qual é o sentido de se acertar uma sequência de sons dentro do contexto geral do Abismo ou emparelhar símbolos de animais com pecados e virtudes? São mais uma vez apenas formas de se criar atrito entre o jogador e o progresso da história. Se o objetivo de seus criadores era focar na história, seria melhor oferecer mecânicas mais imersivas (como Mixtape conseguiu, apesar de ser injustamente classificado como walking simulator) ou abraçar de vez a proposta e trazer provação nenhuma.

The Alighieri Circle: Dante’s Bloodline busca ser uma continuação de um clássico da literatura universal, oferece vislumbres de uma mitologia mais complexa, porém escolhe respostas rápidas, um final seco e mecânicas insossas para se tornar uma aventura completamente esquecível.

50 %


Prós:

🔺Paisagens oníricas

Contras:

🔻Puzzles esparsos e simplificados
🔻Péssima otimização
🔻História que não leva a lugar algum
🔻Quase nenhuma relação com o material original

Ficha Técnica:

Lançamento: 10/09//25
Desenvolvedora: ONE-O-ONE GAMES
Distribuidora: Entalto Publishing
Plataformas: PC, PlayStation 5, Xbox Series
Testado no: PC

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