Disgaea Mayhem chega como uma promessa de caos delicioso para quem, como eu, cresceu rindo das absurdas contagens de dano e das situações completamente desproporcionais que definem a franquia Disgaea. Desde o primeiro título, que converteu em charme a ideia de números absurdos, personagens caricatos e um senso de humor próprio, a série da Nippon Ichi, lançada no Ocidente pela NIS America, sempre brincou com a noção de estratégia séria até torná-la uma comédia de altura épica.
A volta ao inferno com sabor de pudim
Agora, com uma versão Caos (Mayhem) e numa pegada que lembra muito o estilo Musou, essa mesma audácia tenta se traduzir para um formato de ação direta, onde a cadência dos golpes e a sensação tátil dos combos substituem o cálculo em grid. Como quem acompanha a trajetória da franquia e que já gastou horas no Item World tentando transformar um item qualquer em uma arma de destruição em massa, Disgaea Mayhem chega fora do seu estilo tático sempre interessante, deixando de lado o gameplay em turnos e pelo prazer estratégico com posicionamento e o prazer em otimizar.

Para entender o lugar de Mayhem no universo Disgaea é preciso voltar um pouco na história da série. Disgaea nasceu com o propósito de subverter expectativas ao apresentar um protagonista anti-herói, sistemas que incentivavam repetir as mesmas lutas para ver números gigantescos, e um humor que alternava sarcasmo e nonsense. A série consolidou características que viraram sinônimo de marca, com Reincarnation, Item World, montantes de dano que ignoram qualquer noção de realismo e um bestiário que inclui desde demônios clássicos até os amados e explosivos Prinnies.
Esses elementos criaram uma base de jogadores que aprendeu a ver a progressão como espetáculo, com cada hora de grind sendo uma pequena etapa de crescimento conquistado. Disgaea também foi flexível, com spin-offs e variações experimentaram estilos diferentes, mas raramente abdicaram do que tornou a série reconhecível. Nesse contexto, Disgaea Mayhem surge como mais um experimento, porém um que talvez seja o mais ousado ao pegar o DNA da franquia e colocá-lo em um corpo de ação em tempo real.

O novo capítulo da franquia abraça o tom leve e irreverente com um foco maior nos veteranos, em que acompanhamos N.A., uma mercenária cuja motivação nem sempre é heroica. Buscando sempre Um bom pagamento e, claro, a promessa de sobremesas para a princesa Tichelle, esses são as motivações necessárias para você embarcar em contratos que resultam no embate contra hordas demoníacas e leis bizarras votadas pela Dark Chocolate Assembly.
O contrato mais esquisito de 2026
A relação entre N.A. e Tichelle, entre o profissionalismo mercenário e um desejo tão mundano quanto pudim, é o fio condutor de uma narrativa que prefere cenas rápidas e hilárias a grandes arcos dramáticos. Esse tipo de escrita funciona para Disgaea porque a franquia sempre teve talento para transformar motivações banais em pretextos para o absurdo, trazendo a política infernal que rege o universo servindo mais como cenário para piadas institucionais do que como crítica real, e Disgaea Mayhem se beneficia desse tom para manter leveza entre uma investida e outra.

Para esse novo jogo, a principal novidade de é, sem dúvida, a maneira como converte o tradicional Magichange e demais sistemas da série para o estilo de ação direta, deixando claro com o slogan “Magichange into Action” a intenção de fazer com que os jogadores vivenciem cada golpe, a troca de armas em tempo real e a experimentação das sete classes de armas, espada, arco, punho e machado, entre outras.
Ao invés de planejar turnos em um tabuleiro, o Disgaea Maygem exige reflexos, leitura do campo e uma experimentação constante de builds e equipamentos para você conseguir executar combos diversos. Mesmo dentro dessa nova proposta, a NIS não abandona suas raízes e traz o Item World, oferecendo um equilíbrio que pode agradar os veteranos, porém a diferença é que agora você é quem garante o acerto, com o protagonismo do toque e do timing. Em meio a tanto combate, as recompensas aparecem tanto pela habilidade quanto pela persistência, numa combinação que cria uma tensão interessante entre a ação direta e a presença de mecânicas baseada em otimizações e builds.

Os sistemas de progressão clássicos retornam como pilares, garantindo que o jogador ainda possa dedicar horas a polir equipamentos no Item World, reincarnar personagens para melhores atributos e cultivar aquela sensação viciante para ficar cada vez mais forte. A alternância entre armas e a composição de builds favorecem combos que pedem adaptação rápida e escolhas de equipamentos que transformam a maneira de encarar grupos de inimigos.
A cara de Disgaea em forma de ação
O “Mayhem” que o título carrega aparece também na estética e na direção artística trabalhada pela Nippon Ichi. A série sempre foi marcada por um visual com um “quê” de anime muito marcante, com cores saturadas e personagens com expressões exageradas, e o salto para um jogo de ação exige animações mais encorpadas para transmitir impacto. Disgaea Mayhem abraça seu lado cartunesco, com números que explodem em fontes chamativas e efeitos que transformam cada ataque em um pequeno espetáculo, fazendo com que esse RPG de ação mostre claramente os impactos e o feedback do dano, como elementos essenciais para que você perceba o progresso e a recompensa por cada acerto.

A trilha sonora também acompanha esse tom, com composições que misturam energia e variedade, com músicas que sabem sustentar a adrenalina das lutas e temas mais leves para os momentos de diálogo, sempre com aquele toque dramático e com tons satíricos que cabem bem ao universo Disgaea. O som contribui diretamente para o espetáculo dos números explodindo na tela e para o ritmo frenético das partidas, sem se preocupar com qualquer seriedade, mas sempre amplificando a diversão e o senso de espetáculo que se vive ao combinar combos, armas e upgrades.
Disgaea Mayhem parece um sólido e bem executado experimento de adaptação de uma franquia consolidada, pois consegue respeitar sua essência da franquia ao manter a progressão absurda, bom humor e sistemas já conhecidos, enquanto reformula a base do gameplay com ação frenética e direta.

Longe de ser uma substituição do Disgaea estratégico e clássico, mas que consegue se apresentar como uma variante que amplia o leque de experiências possíveis dentro desse universo. A NIS América conseguiu mais uma vez oferecer diversão e horas de otimização num formato mais rápido e visceral, com risada a aquela vontade de subir só mais um nível.
Prós:
🔺O humor e a identidade da franquia continuam vivos
🔺Combate em tempo real deixa a ação mais dinâmica
🔺Sistema de armas amplia a variedade de estilos de jogo
🔺Viciante para quem gosta de grind
🔺Visual carismático e com estilo anime
Contras:
🔻Pode frustrar fãs que preferem a fórmula tática tradicional
🔻O grind ainda pode afastar quem não gosta de repetição
🔻A trama é leve e pode soar simples demais para os fãs fervorosos
Ficha Técnica:
Lançamento: 23/07/2026
Desenvolvedora: Nippon Ichi
Distribuidora: NIS America
Plataformas: PC, PS5, Switch 2
Testado no: Switch 2


