Muitas sentem um grande desconforto com as estátuas de santos em igrejas, principalmente as de cidades pequenas. Baseado na cultura espanhola e latina, Crisol: Theater of Idols representa tais figuras de diversas formas enquanto leva o jogador à penitência e confronto contra estas representações congeladas no tempo.
Pessoalmente, admito que o jogo me deu a sensação de estar de volta à adolescência, percorrendo os corredores do antigo colégio católico que frequentei. As imagens de santos pareciam me observar enquanto eu andava pelos corredores escuros e frios após as aulas de reforço. A diferença agora é que eles se moviam e eu podia, finalmente, disparar contra eles!
A penitência dos mares
Crisol: Theater of Idols tem uma abertura impactante e marcante. O jogador se depara com uma cena nos momentos iniciais da aventura, com uma das divindades principais deste mundo chamando pelo protagonista, Gabriel, para atuar uma vez mais como seu escolhido. Sua missão é dispersar sua palavra e se livrar dos opositores à sua vontade, seja de maneira pacífica ou por meios mais violentos, caso necessário.

Gabriel é enviado à ilha de Tormentosa, um local onde a luz do Deus Solaris não alcança mais. Temendo pela segurança de sua terra, Hispânia, o protagonista segue rumo à fria e úmida ilha, que foi tomada por uma constante e incessante chuva. O local aparentemente abandonado deixa tanto o jogador quanto Gabriel apreensivos, afinal não há uma alma viva a ser vista nas ruas, prédios ou lojas. Porém, pistas indicam que todos se encontram na catedral da cidade, objetivo original de Gabriel.
Acontece que a cidade não está tão vazia quanto ele pensava. Logo descobre que as diversas imagens de madeira da cidade ganharam autonomia e se tornaram completamente hostis, chegando a ser esfaqueado por uma delas. A fé em Crisol: Theater of Idols é uma força constante. Solaris restaura Gabriel e o contempla com seu sangue, permitindo que ele crie projéteis com o próprio fluído em penitência, disparando balas carregadas e capazes de destruir as imagens.
Ao chegar na catedral, as coisas tomam um rumo ainda pior. Arroyo, o padre local, não é encontrado em lugar nenhum, e Dolores, uma presença que já havia se revelado de maneira aterrorizante, retorna. A catedral transformou-se em um mausoléu, repleto de corpos recém-torturados, e Dolores não demora a tentar adicionar Gabriel à pilha de mortos. Perdendo sangue, o protagonista desmaia mas logo é auxiliado por alguém.

Uma batalha de distância infinita
Ao acordar, Gabriel se vê diante da misteriosa Mediodia, uma jovem que o aconselhava via rádio a visitar seu acampamento de rebeldes. Ela conta que Arroyo abandonou o Deus Sol para seguir os comandos do Deus dos Mares, o que lhe deu controle sobre os elementos e materiais de Tormentosa. Isso permitiu que criaturas de madeira, pedra e cera tomassem a forma de santos e seres celestiais para dominar a ilha, buscando criar um exército capaz de invadir Hispânia.
Além dos poderosos constructos elementais, Arroyo trouxe Dolores à ilha, uma criatura praticamente invulnerável às armas de Gabriel e à influência de Solaris. Criada a partir de um relicário contendo os restos mortais de Madre Dolores, esta criatura é um reflexo perverso da figura caridosa original e se torna uma força implacável sempre no encalço de Gabriel durante sua jornada de sobrevivência.
Gabriel descobre que precisará atravessar a cidade atrás de outros três habitantes que possuem o sangue dos guerreiros responsáveis por selar o Deus dos Mares no passado. Ele deve absorver o sangue deles e transformar seus corpos em adagas ritualísticas capazes de selar novamente a divindade marítima. Confiando apenas em sua fé, resta ao protagonista armar-se e aguentar a penitência de sangrar para conseguir se defender.

Crisol: Theater of Idols é uma interessante aventura em um mundo religioso fortemente influenciado pela fé hispânica, onde, tal qual em Blasphemous, a cultura do povo espanhol e latino é o pilar central. A diferença fundamental é que, enquanto Blasphemous é um souls-like de plataforma, Crisol pode ser visto como uma espécie de Bioshock da fé hispânico-latina, focando na atmosfera e no combate em primeira pessoa.
Sangrando para sobreviver
O jogo apresenta locais escuros e uma ambientação excelente. Os inimigos não fazem tantos sons vocais quanto os conhecidos splicers, nem correm pelas sombras da mesma forma. Porém, o som das juntas de madeira rangendo e estalando na direção do jogador, vindos de locais escuros, é o suficiente para deixar qualquer um com os cabelos em pé em certas áreas.
Em Crisol, o jogador vivenciará uma modalidade extrema de survival horror, afinal não há munição convencional para as armas de Gabriel em lugar algum da ilha. Simples balas de chumbo não surtem efeito contra os inimigos,; apenas o sangue do Deus Sol funciona. Tiros na cabeça não garantem a queda definitiva dos oponentes, que continuam controlando seus corpos despedaçados para tentar matar Gabriel.

Cada arma possui um método de carregamento diferente e doloroso: a pistola possui espinhos em sua empunhadura e a escopeta tem agulhas onde ficariam os cartuchos, sendo fincadas diretamente na palma da mão do protagonista. Cada armamento implica um sofrimento físico diferente. Sua faca é a única que não precisa de sangue, mas requer o combustível da terra, já que só é possível amolar o fio usando esmeris acoplados a motos espalhadas pelo cenário.
Para ajudar Gabriel nesta missão, há diversos itens espalhados pela ilha que servem para fortalecê-lo e evitar sua morte precoce. Além de suas armas, o protagonista pode absorver corpos de animais mortos recentemente, como galinhas, porcos e os místicos Ofiotauros, criaturas híbridas vindas da mitologia grega. Há também outras melhorias clássicas espalhadas, como tônicos que aumentam permanentemente sua barra de vida máxima.
Retornaram as Andorinhas Escuras
Tormentosa é o lar de inúmeros corvos que acompanham e observam o progresso de Gabriel, servindo como uma lembrança constante de que o solo está empapado de sangue. Essas aves são ligadas à bruxa da cidade, conhecida como A Carpideira. Ela vende melhorias para as armas e permite que Gabriel aprenda habilidades místicas ao trocar a energia extraída de inimigos e totens, permitindo bloquear ataques ou consumir menos sangue.

Há também muitos segredos e easter eggs espalhados por Tormentosa, como discos de vinil com a excelente trilha sonora do jogo, sendo El Namorado y La Muerte a minha faixa favorita. Além disso, existem os contos de Maremanto, documentos que servem para expandir o universo de Crisol: Theater of Idols com narrativas folclóricas sobre os santos e as entidades presentes naquela região isolada.
O estilo visual em que o jogo se inspira é fantástico, explorando o fascinante terror folclórico espanhol com cenários que emprestam elementos da arquitetura barroca, gótica e da iconografia católica. Este é um jogo que recomendo fortemente jogar com um bom fone de ouvido: a sonoplastia é excelente e deixará o jogador aflito ao ouvir os sons de madeira e pedra se aproximando lentamente no escuro.
O único grande ponto negativo que encontrei é que a movimentação e as personagens são um pouco duros demais. A câmera parece pesada e os modelos humanos são pouco expressivos, embora o rosto das estátuas seja extremamente penetrante e assustador. Crisol: Theater of Idols é uma excelente adição ao gênero de FPS de horror, uma aventura que não esperava ficar tão apegado enquanto desvendava os segredos de Tormentosa.
Prós:
🔺Excelente direção artística e sonora
🔺Ambientação excelente, capaz de hipnotizar o jogador
🔺História criativa e inovadora
Contras:
🔻Gameplay pesado e devagar, o personagem parece estar andando no melado
🔻Razoavelmente curto e mantém alguns pontos em aberto
Ficha Técnica:
Lançamento: 10/02/2026
Desenvolvedora: Vermila Studios
Distribuidora: Blumhouse Games
Plataformas: PC, PS5, Xbox Series
Testado no: PC


