A beleza dos games indies está na sua imprevisibilidade, na possibilidade de trazer algo fora do que estamos acostumados a ver neste mar de jogos. MIO: Memories in Orbit chamou a atenção desde seus primeiros trailers, tanto por sua beleza quanto pela curiosidade narrativa e pela curta, porém marcante, amostra de sua composição sonora. Agora, após jogar e explorar esse imenso universo, fica ainda mais fácil constatar o quão único é o resultado de toda essa composição artística.
Este é um metroidvania desenvolvido pela Douze Dixièmes, inspirado em games como Hollow Knight e Ori and the Blind Forest. Aqui encontramos visuais únicos que vão desde os menus até o design de personagens e cenários, todos construídos com uma estética de aquarela feita à mão, daquelas que causam um brilho no olho. Além da contemplação, o jogo também abre espaço para uma exploração cheia de desafios de plataforma e, claro, muitos inimigos que, provavelmente, vão ceifar sua vida várias vezes. Em meio a tudo isso, há uma história cheia de segredos, ansiosa para ser descoberta.
Reativando a nave de MIO: Memories in Orbit
MIO é um pequeno robô que desperta na nave Nau, um lugar exuberante, porém desolado e em decadência. Algo desativou as Pérolas, as IAs que mantinham essa instalação em pleno funcionamento. Agora, poucas máquinas seguem ativas: algumas tentam entender o que de fato aconteceu, enquanto outras se rebelaram e transformaram um lugar pacífico em pura hostilidade. Algo despertou MIO e, graças à sua agilidade e capacidade de desenvolvimento, ele se torna a aposta perfeita para explorar as profundezas deste lugar e resgatar as memórias de Nau.
Sem entrar em spoilers, a nave está à beira de ser desligada. Sua missão é restaurá-la parte por parte, e logo fica claro que sua estrutura segue uma distribuição semelhante ao corpo humano. O componente central, por exemplo, é a coluna e é através dela que sentimos o estado das conexões com as demais áreas. Só por aí já dá para perceber que a narrativa conversa com a poesia: cativante e, ao mesmo tempo, arrepiante.

O visual de MIO: Memories in Orbit é surpreendente em várias camadas. Sua estética em aquarela, associada ao cel-shading, é absurdamente linda. Cada passo que MIO dá revela pinceladas que colorem os cenários, formando um ambiente grandioso, repleto de detalhes, com um design que mistura ficção, tecnologia e, como já citado, referências ao corpo humano. É realmente um jogo lindo.
Metroidvanias comumente fazem o jogador ir e voltar por longos caminhos cheios de bifurcações que formam um grande labirinto e aqui essa regra se mantém. Você vai se deparar com portas fechadas, áreas inalcançáveis e objetos que, a princípio, parecem incompreensíveis. Mas, em meio a tudo isso, surgem pistas que aos poucos revelam mais sobre esse lugar, itens que aprimoram MIO e gotas de madrepérolas, que funcionam como a moeda dessa jornada.

Gerenciando suas habilidades
MIO pode utilizar modificadores, que funcionam como auxiliares de progressão. É possível aprimorar sua força, adicionar uma camada extra de proteção, acelerar a recuperação dessa camada e até exibir a vida na interface do jogo (algo que, curiosamente, também exige um modificador), abrindo espaço para escolhas difíceis. Esses itens podem ser encontrados em robôs desativados ou em pilhas de lixo espalhadas pelo mapa, mas também podem ser adquiridos na loja, sempre utilizando as gotas como moeda.
Claramente, será preciso escolher com cuidado quais modificadores equipar, já que eles consomem pontos variados na matriz de alocação. Pense nisso como um espaço de armazenamento que pode ser expandido conforme você progride, mas que, no início, exige estratégia. A ideia de gerenciamento é ótima, mas, honestamente, logo no começo adquiri bons modificadores e se tornou quase impensável trocá-los. Talvez tenha faltado um ajuste mais cuidadoso no equilíbrio entre disponibilidade e desafio desses itens.

As gotas são sensíveis e, como era de se esperar, ao perecer nas profundezas do mapa você perderá esses itens. MIO sempre ressurge nos braços de Nexo, uma espécie de assistente da coluna. É ali que você salva seu progresso, instala modificadores e atualiza o mapa das áreas exploradas. Existe, porém, uma forma de proteger suas gotas: ao encontrar o robô cristalizador, ele pode solidificá-las, garantindo que permaneçam com você mesmo após a morte. Outros itens narrativos também se mantêm, então não se preocupe.
Felizmente, o jogo não é excessivamente punitivo. Mesmo após perder, é relativamente fácil recuperar esses recursos, seja pelo respawn dos inimigos ou pelas pilhas de lixo. Além disso, sempre que você retorna a Nexo e salva seu progresso, inimigos e sucatas reaparecem. A pegadinha está nos núcleos, itens um pouco mais raros, mas essenciais para adquirir novos recursos. A loja também oferece expansões de alocação e melhorias de vida para MIO, então vale a pena coletar muitas gotas.

Com tantas capacidades desse pequeno robô, o combate não poderia ficar de fora. Nesse aspecto, MIO: Memories in Orbit apresenta uma variedade mais contida. Na prática, há um combo básico de três golpes que, com o tempo, pode ser combinado com esquivas, dashes, planagem, agarrar em paredes e até projéteis. Apesar de simples, é possível aumentar o dano dos ataques, o que ajuda nos combates mais difíceis. No fim, é a soma dessas habilidades que cria variedade, mesmo que seu uso seja mais evidente durante a exploração, especialmente em terrenos com dinâmicas distintas.
Sabe aqueles lugares antes inalcançáveis ou incompreensíveis? É a partir dessas habilidades que você poderá explorá-los. A diferença é que não basta apenas desbloqueá-las: é preciso dominá-las com precisão. A progressão exige domínio de saltos, gerenciamento de stamina e acerto de golpes, o que torna a exploração extremamente satisfatória. Pode até não haver tantos embates constantes ou combos variados, mas os cenários, sem dúvida, vão te derrotar em vários momentos.

Os tons de Aquarela e as formas geométricas
Outro detalhe interessante está na forma como as habilidades são adquiridas. Um robô semelhante a um inseto gigante percorre as tubulações da nave e é ele quem ensina essas técnicas. Ao ser levado para dentro desse espaço, o jogo assume um visual geométrico, enquanto uma canção com coro ecoa e frases soltas surgem ao fundo, como se fossem pensamentos da própria personagem. É intrigante e funciona muito bem como tutorial das novas mecânicas, um jeito criativo de ensinar enquanto amplia ainda mais a contemplação.
Essas habilidades serão testadas tanto nos desafios de plataforma quanto nos chefões, eles sim possuem formas e padrões de ataque variados. Exigem preparo, leitura de movimentos e domínio completo das mecânicas disponíveis. Alguns podem confundir suas estratégias inicialmente, tornando cada erro potencialmente fatal e te levando de volta para Nexo, em seu último checkpoint.

Um jogo tão belo merece ser apreciado por muitos jogadores e, felizmente, a Douze Dixièmes pensou nisso. Embora não existam níveis de dificuldade, MIO: Memories in Orbit oferece assistências bem-vindas. Chefões, por exemplo, enfraquecem a cada vez que você perecer, facilitando a vitória sem alterar padrões ou velocidade, apenas aumentando o dano causado por MIO.
Também é possível ficar invisível para inimigos comuns, evitando combates, embora o ataque quebre esse efeito. É uma assistência útil, mas que reduz significativamente a coleta de gotas. Por fim, há a opção de ativar uma camada extra de proteção ao permanecer em terreno firme por cinco segundos, garantindo uma unidade adicional de vida. Isso é especialmente útil durante os malabarismos de plataforma.

Toda essa experiência resulta em um misto de ação, contemplação e descobertas constantes. Um detalhe pequeno, mas que demonstra o cuidado dos desenvolvedores, é o inventário: ele funciona quase como um quebra-cabeça, organizando os itens em formas geométricas. Aos poucos, passamos a interpretar o tipo de cada objeto, o que estimula a curiosidade e rende aquele sorriso de satisfação quando tudo faz sentido.
O jogo conta com textos em português, o que ajuda bastante na compreensão dos diálogos e mistérios. Ainda assim, exige atenção, já que nem tudo é dito de forma direta. O tom poético convida à interpretação, fortalecendo a narrativa e incentivando o jogador a se aprofundar cada vez mais nessa nave.

Contemplando uma trilha sonora etérea
Não posso deixar de mencionar o excelente, maravilhoso e incrível trabalho sonoro de MIO: Memories in Orbit. Composta por Nicolas Gueguen que também trabalhou na implementação das músicas no jogo, a trilha conta com impressionantes 75 faixas, somando quase quatro horas de música. As composições reforçam a desolação, a esperança, o ambiente tecnológico e até a semelhança humana da narrativa, incluindo coros gravados ao vivo. O resultado é uma pintura em aquarela jogável, completa e memorável.
O jogo também está repleto de referências. Muitas remetem claramente a obras da Team Cherry, mas há diversas outras espalhadas pelo mapa: mensagens dos desenvolvedores, agradecimentos e homenagens a filmes e outros jogos. Uma nave imensa, cheia de segredos que merecem ser descobertos.

Não é coincidência que MIO: Memories in Orbit e Clair Obscur: Expedition 33 venham da França. Existe ali um movimento criativo evidente, que aposta em identidade, direção artística forte e design cuidadoso, sem depender de fórmulas prontas. São jogos feitos com tempo e personalidade. Depois de Expedition 33, MIO surge como mais uma prova de que os estúdios franceses estão dando uma aula silenciosa de como criar experiências marcantes, autorais e visualmente inesquecíveis.
Apesar de alguns desequilíbrios nos modificadores e de um combate mais simples isoladamente, o conjunto da obra é artesanal. Facilmente se destacará ao longo de 2026 e tem tudo para se tornar um dos metroidvanias favoritos de muitos jogadores. Eu, inclusive, me coloco nessa lista.
Prós:
🔺A história é intrigante e cheia de segredos
🔺Visual artesanal em aquarela belíssimo
🔺Design de personagens e cenários incríveis
🔺Composição sonora excelente
🔺Desafios bem equilibrados
🔺Assistências que facilitam a experiência
🔺Grande quantidade de itens para coletar
Contras:
🔻Golpes de MIO podem parecer simples isoladamente
🔻Modificadores apresentam desequilíbrio
Ficha Técnica:
Lançamento: 20/01/2026
Desenvolvedora: Douze Dixièmes
Distribuidora: Focus Entertainment
Plataformas: PC, Switch, Switch 2, PS5, Xbox Series
Testado no: Switch 2


