Tokyo Scramble surgiu em meio à Direct Partner da Nintendo do mais absoluto nada e já causou muitos burburinhos. O novo exclusivo do Switch 2 atiçou a curiosidade de alguns e causou desconforto em outros. O trailer está cheio de motivos para tais reações: um trem cai em um buraco e, nele, Anne se depara com criaturas jurássicas que claramente são dinossauros, mas espera… com orelhas? Cabelos longos? A trilha sonora deixa tudo ainda mais estranho. Raios, o que está acontecendo aqui?
Desenvolvido pela Adglobe e distribuído pela Binare Haze Interactive, este é um jogo que mistura sobrevivência, puzzles e ação, no qual você precisa encontrar uma saída segura após se envolver em um grave acidente de trem que te coloca nas profundezas de Tóquio. À primeira vista, o jogo pode confundir seus jogadores, afinal, não é dotado de visuais e características que encham os olhos. Ao mesmo tempo, somos fisgados pela esquisitice e é com ela que Tokyo Scramble consegue se destacar.

Sobrevivendo nos escombros de Tokyo Scramble
Anne é uma jovem estudante que jamais imaginaria fazer parte dos noticiários, ainda mais como uma pessoa desaparecida. Em um dia comum, indo ao encontro de seus amigos, ela é surpreendida pelo desabamento do trem em uma imensa rachadura. A curiosidade começa no momento em que ela parece ser a única sobrevivente, embora não haja outros corpos no local do acidente.
Conforme Anne recupera a consciência, a preocupação surge em seus diálogos, ainda que eles não possuam tanta emoção quanto poderiam. Visualmente, a personagem também não apresenta animações que reforcem esses sentimentos. Mais adiante, descobrimos que não se trata apenas do trem: há uma vasta cidade abandonada debaixo da terra. Tudo isso desabou agora ou já estava aqui há muito tempo? É o que precisamos descobrir enquanto lidamos com a hostilidade do lugar.

Em vez de outros sobreviventes, o que encontramos nessas ruínas são os Zinos, o carismático apelido que Anne dá às criaturas espalhadas por ali. Conforme ela os conhece, vai registrando anotações e nomeando os animais. Os dinossauros com orelhas, por exemplo, são chamados de Goblins; o imenso morcego orelhudo é o Espreitador; já os louva-a-deus gigantes recebem o nome de Esguiomantis. Além deles, há outros para descobrir, o subsolo está lotado de criaturas, cada uma com habilidades distintas.
Nada de Sweet Dreams ou Beautiful Nightmares
O Goblin está atento aos mínimos movimentos e barulhos; o Espreitador possui uma audição potente; já o Esguiomantis é dono de uma visão bastante aguçada, além de emitir um som amedrontador. Há ainda monstros que se assemelham a tubarões, uma enorme ave caçadora, uma imensa tartaruga rochosa que bloqueia passagens, criaturas que lembram escorpiões e até o majestoso (e bizarro) Xogum, um dinossauro cabeludo.
Na prática, os bichos estão curiosos com os destroços e patrulham o local constantemente. Obviamente, você não é bem-vindo, então não pode ficar dando sopa por aí.

Sabendo disso, Anne precisa andar com muita cautela, quase como aquela sensação de explorar a estação Sevastopol em Alien: Isolation. O clima é completamente desolado e inseguro. Não há um caminho exato a seguir e cada passo ou respiração acelerada, pode entregar sua localização. Tudo isso cria uma genuína sensação de claustrofobia e tensão, o que funciona muito bem dentro da proposta. O jogo exige atenção constante aos detalhes.
Tokyo Scramble, porém, faz algo diferente apesar do perigo iminente. Anne está munida de Diana, um smartwatch que se torna sua principal ferramenta de sobrevivência. Com ele, é possível ativar inúmeros aplicativos que interagem com objetos do cenário. Apesar de danificados, muitos ainda possuem energia para executar comandos.
As possibilidades são variadas e, de certo modo, imprevisíveis. Foi uma surpresa descobrir que ativar uma escada rolante poderia atrair um dinossauro e fazê-lo ficar preso ali, correndo como se estivesse numa esteira. O resultado é hilário: o bicho correu mais do que eu em toda minha vida nas esteiras da academia.

Fatality ou Friendship: qual você vai escolher?
E não para por aí. Há elevadores que podem ser usados contra inimigos, empilhadeiras para mover objetos, máquinas de refrigerante que servem como distração, alarmes ensurdecedores, ventiladores potentes que desequilibram criaturas e fontes de luz que podem cegá-las temporariamente. O relógio também possui um flash com essa função, mas seu uso consome bateria.
O gerenciamento de recursos é simples, porém essencial. Precisamos poupar energia para usar o flash. Apesar de haver três níveis de bateria, começamos apenas com um. Explorando com atenção, encontramos estações de recarga que recompensam com pontos extras de energia. Também é possível encontrar pontos de acesso que permitem melhorar aplicativos, ampliar o uso do flash e baixar mensagens do mundo acima.
Outro recurso importante é a respiração. Correr não apenas alerta os inimigos, como também acelera os batimentos cardíacos de Anne, deixando-a cansada. Sem fôlego, ela fica lenta e ainda mais vulnerável. Cada ação precisa ser pensada.

No fim, os quebra-cabeças e as soluções criativas para lidar com os inimigos rendem bons risos. A princípio isso me incomodou, mas logo me peguei rindo, esperando pelo próximo desafio e pela forma bizarra como ele seria resolvido. Tokyo Scramble equilibra o terror com uma pitada de humor, quase como um uso de “Riddikulus”, lembram?
Mistura de Dino Crisis com Home Alone
Talvez o que realmente incomode sejam os bate-papos com os amigos de Anne. De tempos em tempos, acompanhamos as mensagens trocadas entre eles. Claramente desacreditam do que ela está enfrentando, mas o mais absurdo é a tranquilidade com que lidam com a situação, com frases como: “Você dá conta disso, dá um soco neles.” O pior é que a própria Anne não demonstra grande preocupação, o que enfraquece o peso dramático da história.
O visual e as animações também poderiam ser mais elaborados. Não são ruins, há efeitos interessantes, mas os movimentos das criaturas, especialmente os dinossauros, soam robóticas. O mesmo vale para as reações de Anne, que nem sempre condizem com suas falas. Ainda assim, a atmosfera é consistente e o desempenho tanto no portátil quanto na TV é bastante sólido.

Há a possibilidade de encarar o jogo com amigos graças ao Gameshare. É possível dividir o controle da personagem e da câmera com até quatro pessoas, em rede local ou online. O melhor: os convidados não precisam possuir o jogo, já que a sessão é transmitida. É possível designar funções como movimentação, ações, uso de aplicativos, câmera ou controle total, enquanto os demais utilizam cursores para apontar locais de interesse.
Usar o Gameshare pode gerar mais bagunça do que solução e não digo isso de forma negativa. Imagine controlar apenas os movimentos e depender de outra pessoa para girar a câmera ou agachar no momento certo. É a receita perfeita para o caos e novamente o humor toma conta da experiência.

Ao final de cada fase há um ranking que avalia seu desempenho. A nota depende de eliminações, cumprimento de objetivos secundários e interações específicas com inimigos. É um ótimo incentivo para revisitar fases, melhorar desempenho e satisfazer o lado complecionista para garantir 100% da jogatina.
O estranho como identidade
Tokyo Scramble não parece querer ser o próximo grande destaque. Ele vai contra a maré e entrega uma experiência estranha, específica e cheia de personalidade (ainda que as reações de Anne nem sempre acompanhem essa intensidade). O resultado beira algo experimental, o que explica o estranhamento inicial do público.
O tom que beira o esquisito lembra jogos japoneses dos anos 2000, quando parte da indústria parecia menos preocupada em explicar demais suas ideias e mais interessada em provocar sensações. Títulos como Forbidden Siren apostaram em dificuldade elevada e narrativa fragmentada. Rule of Rose misturava desconforto psicológico com mecânicas duras. Já o cultuado Deadly Premonition abraçava o estranho sem pedir desculpas, equilibrando tensão e humor deslocado.

Tokyo Scramble bebe dessa fonte. Ele não vai te entregar tudo mastigado, não suaviza suas escolhas e parece confortável em causar confusão inicial. Não se trata de um survival horror clássico nem um terror psicológico puro, existe um espaço próprio, onde o desconforto e o absurdo caminham juntos.
Essa falta de clareza é um risco, pois depende de jogadores curiosos dispostos a ir além do trailer que, convenhamos, não foi dos mais convidativos. Quem espera algo tradicional pode se frustrar. Mas quem aceitar a proposta provavelmente encontrará algo mais interessante do que parecia à primeira vista.
O jogo tem tudo para dividir opiniões. Alguns podem ignorá-lo, outros, ao aceitarem o desafio, encontrarão uma experiência de sobrevivência e puzzles bastante envolvente, que foge do previsível. Seu preço acessível também funciona como incentivo.

No fim, não posso negar que estava pessimista, mas fui surpreendido por um jogo que mistura passos silenciosos, soluções cômicas e uma história curiosa que, apesar de tropeçar em alguns detalhes, agrada mais do que desagrada. Vale a pena acompanhar Anne para entender como ela pretende sair dessa situação e se resgatar desse terrível incidente.
Prós:
🔺Atmosfera estranha e cheia de personalidade
🔺Mistura interessante entre tensão e humor
🔺Uso criativo do smartwatch nas soluções de puzzles
🔺Criaturas variadas com comportamentos distintos
🔺Boa sensação de claustrofobia e vulnerabilidade
🔺Desempenho sólido tanto no portátil quanto na TV
🔺Gameshare rende momentos caóticos e divertidos
🔺Sistema de ranking incentiva replay
Contras:
🔻Animações rígidas, especialmente das criaturas
🔻Expressividade limitada da protagonista
🔻Diálogos e mensagens que enfraquecem o peso dramático
🔻Proposta pouco clara no início
🔻Pode frustrar quem espera um survival horror mais tradicional
Ficha Técnica:
Lançamento: 11/02/2026
Desenvolvedora: Adglobe Inc.
Distribuidora: Binare Haze Interactive
Plataformas: Switch 2


