Mulato, nascido no Morro do Livramento no Rio de Janeiro, sem nunca ter pisado em uma faculdade, Machado de Assis ascendeu com seu talento para se tornar um dos maiores escritores de todos os tempos. Não apenas brasileiro, mas do mundo. Sua obra quebra barreiras linguísticas e já tinha passado da hora de quebrar a barreira para a mídia dos jogos. The Posthumous Investigation é Machado de Assis derrubando a porta dessa mídia com um chute muito bem dado.

A desenvolvedora nacional Mother Gaia assume o desafio de transportar o batizado “Machadoverso” para dentro de um adventure investigativo. O clássico “Memórias Póstumas de Brás Cubas” traz a espinha dorsal dessa narrativa, mas o jogo também se utiliza de personagens e elementos trazidos de outras obras de Machado de Assis, para surpresa e deleite dos leitores de longa data. O resultado final encanta, embora possa se tornar cansativo depois de um tempo, ao contrário das obras eternas nas quais se baseia.

The Posthumous Investigation

Matamos o tempo, o tempo nos enterra

The Posthumous Investigation coloca o jogador no papel de um detetive particular no Rio de Janeiro dos anos 30. Esse é o primeiro elemento externo abocanhado pela desenvolvedora e regurgitado com um tempero totalmente nosso. Ainda que Machado de Assis seja o fio condutor e a fonte de inspiração, a Mother Gaia pratica uma antropofagia cultural que não faria feio para o Movimento Modernista ou o Tropicalismo.

Desta forma, temos características típicas do cinema noir e da literatura pulp norte-americanas, como um protagonista de sobretudo (no calor carioca, um fato destoante que é explicitamente mencionado por um dos NPCs), uma boa seleção de femme fatales (incluindo a portadora do olhar mais famoso da literatura nacional), gráficos em preto e branco e tons de cinza e, obviamente, um crime. O papel do jogador é investigar o assassinato de Brás Cubas e descobrir o culpado.

The Posthumous Investigation

A partir dessa premissa inicial, The Posthumous Investigation adiciona uma segunda camada incomum em obras brasileiras: a ficção científica. Nosso protagonista está preso em um loop temporal muito parecido com aquele vivido por Bill Murray no filme “O Feitiço do Tempo”. O detetive tem apenas um dia para desvendar esse mistério, porque, quando o relógio bate meia-noite, o tempo volta e ele acorda outra vez às nove horas da manhã em seu escritório. Objetos carregados são perdidos, eventos são desfeitos, personagens retomam os seus afazeres e repetem suas rotinas. A única coisa que é carregada nesse roguelike de realismo fantástico é a informação, são pistas que o detetive vai reunindo.

Então, a Mother Gaia reúne em uma só experiência cinema noir, viagem no tempo e Machado de Assis. É uma combinação ousada que poderia ter fracassado em mãos menos competentes. Entretanto, The Posthumous Investigation entrega um título único e extremamente criativo.

The Posthumous Investigation

Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver

Apesar de todas suas sacadas mecânicas, o grande trunfo de The Posthumous Investigation está em seus personagens. A desenvolvedora soube trabalhar com respeito e precisão a abundante fauna humana criada por Machado de Assis. Seus tipos, seus anseios, seus defeitos são os ingredientes que tornaram a prosa machadiana tão universal e perene. O autor tinha uma habilidade raramente igualada de avaliar o tecido social e a figura humana. São personagens que flertam com o caricato, mas não perdem sua âncora com a realidade.

A Mother Gaia consegue então combinar personagens e situações de diferentes livros para compor um panorama carioca repleto de intriga e motivos escusos. São personagens que não foram pensados originalmente como integrantes de um universo compartilhado, essa construção pós-moderna que se tornou uma praga no cinema, mas que, no fundo sempre foram. Machado de Assis queria mostrar a hipocrisia, os conflitos, as contradições e os medos de uma sociedade que o cercava. Desta forma, sim, Brás Cubas e o Doutor Bacamarte, sempre pertenceram ao mesmo ambiente, ainda que não tenham se cruzado nas palavras. Em The Posthumous Investigation, esse encontro finalmente acontece e soa bastante natural.

The Posthumous Investigation

Fazer o casamento entre a literatura brasileira clássica e os jogos eletrônicos não é um feito inédito. A Nova Califórnia já havia nos apresentado algo similar muitos anos antes, pra ficar em um exemplo com o qual tive contato pessoalmente. Porém, o que The Posthumous Investigation atinge é um nível de polimento e sofisticação que teria deixado o próprio Machado de Assis orgulhoso.

O gráfico está impecável e condizente com o que se espera da tradição dos adventures. São ilustrações fantásticas que remetem aos anos 30. As músicas incidentais também ajudam na imersão e a sensação positiva de se estar assistindo uma novela das seis é constante. “Chocolate com Pimenta” manda lembranças. Entretanto, está tudo em casa, afinal, o folhetim também é uma linguagem tipicamente brasileira.

The Posthumous Investigation

Este último capítulo é todo de negativas em The Posthumous Investigation

Parafraseando o mestre, eu me pergunto: “por que longo, se belo? Por que belo, se longo?”. Infelizmente, The Posthumous Investigation acaba se mostrando cansativo. A Mother Gaia talvez tenha pecado pelo excesso. Ao final das contas, são 14 suspeitos da morte de Brás Cubas e eliminar evidências um após o outro exige fôlego.

A própria estrutura de loop temporal induz uma repetitividade que é inevitável. Um dos grandes charmes do jogo prepara uma armadilha que irá fazer com que o jogador retorne diversas vezes aos mesmos lugares, para investigar detalhes novos ou interrogar as mesmas pessoas com perguntas inéditas. Ainda que a desenvolvedora adicione alguns atalhos e ações que não precisam ser repetidas, percebi muitas mais que poderiam ser incluídas para aliviar o progresso.

The Posthumous Investigation

Quanto mais se avança na trama, desbloqueando localidades novas, também se desbloqueiam novas possibilidades de comparação de fatos entre personagens, o que amplia exponencialmente a necessidade de se estar atento a essa investigação. Não que The Posthumous Investigation seja um jogo difícil (e até existe um sistema opcional de dicas embutido). Porém, após múltiplos retornos, a quantidade de informações simultâneas na cabeça do jogador pode aumentar a sensação de cansaço. Definitivamente, não é um título para ser resolvido em sessões muito longas.

The Posthumous Investigation atinge a excelência, mesmo com seus (poucos) defeitos. Que ele seja um facilitador para que mais pessoas conheçam os textos de Machado de Assis e para que outros jogos explorem os horizontes fecundos de nossa literatura.

90 %


Prós:

🔺Mecânicas criativas
🔺Justa homenagem ao maior escritor brasileiro
🔺Personagens simpáticos

Contras:

🔻Mais longo do que precisava ser
🔻Inevitavelmente repetitivo

Ficha Técnica:

Lançamento: 31/03/26
Desenvolvedora: Mother Gaia Studio
Distribuidora: CriticalLeap
Plataforma: PC

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