Quatro anos após seu último grande lançamento, Suda 51 está de volta ao mundo dos games com mais um título bizarro para a minha felicidade: Romeo is a Dead Man! Como é de se esperar do diretor de No More Heroes e Flower, Sun, and Rain, as bizarrias e a sensação de estar jogando um videogame com cara de videogame estão presentes a rodo nesta nova experiência.

Este é um jogo importante para o estúdio, já que é o primeiro projeto com distribuição e desenvolvimento feitos inteiramente pela Grasshopper Manufacture, marcando um grande passo na história da empresa. Ainda que eu tenha adorado a experiência, tenho que admitir que, como sempre, Suda 51 entrega o que sabe fazer de melhor, e isto é uma faca de dois gumes, como vocês entenderão ao decorrer do texto.

Romeu, ops… quis dizer DEAD MAN!

Assim como outros títulos produzidos por Goichi Suda, Romeo is a Dead Man tem um começo caótico, sendo uma versão modificada da introdução apresentada em seu vídeo de revelação. Agora, ao invés de ser atacado no pergolado de sua casa, Romeo sofre a emboscada em uma estrada vazia junto de seu parceiro policial, enquanto conversam sobre teorias da conspiração.

Romeo is a Dead Man

Romeo Stargazer tem seu rosto dilacerado e seu braço direito arrancado por um demônio. Enquanto agonizava em seus momentos finais, seu avô Benjamin surge através de um portal temporal em uma moto futurística. Injetando no neto uma misteriosa seringa, Benjamin modifica o corpo de Romeo totalmente. O conteúdo da substância recria seu braço em uma prótese robótica e sua cabeça em um elmo, transformando-o no agente Deadman.

Após despachar os demônios e zumbis temporais que o atacaram, Romeo é designado ao posto de agente da Divisão Espaço-Temporal do FBI. Sua missão é caçar as diversas versões de sua amada Juliet pelo espaço-tempo e diferentes dimensões. Ele descobre, então, que Juliet é na verdade uma anomalia temporal por trás da destruição de inúmeras linhas do tempo.

Agora Romeo deve buscar Juliet e outros criminosos que têm causado problemas pela cronologia afora. Nada será tão fácil quanto parece, afinal, com o desenrolar da história, até mesmo a cena de introdução de Romeo muda conforme descobrimos mais sobre seu passado com Juliet e conhecemos a incrivelmente estranha equipe da Divisão Espaço-Temporal.

Romeo is a Dead Man

Julieta, ó Julieta…

No decorrer da história, descobrimos que, embora Juliet seja uma ameaça interdimensional, a versão que conhecemos junto de Romeo parece ser uma anomalia entre suas diversas variantes. Ela não se importa com a missão de destruir aquela dimensão e demonstra sentimentos reais por Romeo, o que muda a dinâmica da caçada.

Com isso, além de eliminar as ameaças e foragidos dimensionais, Romeo também está em busca de sua Juliet específica, que está perdida entre as dimensões e linhas temporais. Porém, isso é algo mais fácil de dizer do que fazer. Em sua jornada por diferentes décadas do século XX, ele enfrentará monstruosidades variadas que bloqueiam seu caminho.

Além das diversas cópias de Juliet que já derrotou, Romeo terá de enfrentar o gângster confederado Phantasm, uma nova versão de Juliet, o bizarro Dr. Hill e até mesmo Magrus, que muitos acreditam ser o próprio filho de Deus vivendo desde a época romana. Será uma tarefa difícil, mas utilizando o Dead Gear junto de diversas armas, Romeo não se deixará abalar.

Romeo is a Dead Man

Como esperado de Suda 51, Romeo is a Dead Man implementa diversos elementos de outros jogos de seu distinto universo conectado, trazendo referências de No More Heroes, Let It Die, The Silver Case e Killer is Dead. Sejam em armas, inimigos ou aliados, o design de personagens é marcante e certamente ficará gravado na memória do jogador.

Lutando com todas as influências

A mecânica de combate segue a mesma vertente, bebendo da influência de títulos anteriores. Se a narrativa de Silver Case, Shadows of the Damned e No More Heroes precisou andar para Romeo is a Dead Man correr, as lutas de Travis Touchdown e Mondo Zappa também precisaram para que Romeo detonasse todos os seus oponentes com fluidez.

Diferente de Travis e Mondo, Romeo possui um arsenal bem satisfatório que pode ser liberado razoavelmente cedo. Para combate próximo, ele utiliza a Spazer, Destroyer Stellar, Juggernaut e Arcadia – katana, espada grande, luvas e lança dupla, respectivamente. Já para distância, utiliza o revólver Discovery, a escopeta Diáspora, a metralhadora Nabucodonosor ou o lança-foguetes Yggdrasil.

Romeo is a Dead Man

Utilizando estas armas, o jogador deve limpar o mapa de inimigos que se dividem entre zumbis e criaturas interdimensionais mais fortes, tidas como inimigos de classe especial. Cada novo inimigo especial que surge geralmente está relacionado ao tema do nível: um exemplo claro é o monstro Geleia, que surge no estágio de horror e é visualmente semelhante ao espírito verde dos Caça-Fantasmas.

Outra mecânica bem importante é a de navegar a nave Última Noite, pois para chegar aos mundos onde enfrentamos os vilões e aos calabouços Palácio de Athenas, temos que antes sincronizar a nave com a anomalia ao jogar uma partida de pong e depois guiar a nave até a anomalia. Sim, uma maluquice total! E ao vagar pelo espaço encontramos ingredientes de cozinha que serão citados mais à frente e fragmentos de Flusão-Verde.

Uma mãozinha não faz mal

Romeo possui dois tipos de ataques principais no layout do Playstation, utilizando o quadrado para golpes fracos e o triângulo para fortes, além dos gatilhos L2 para mirar e R2 para atirar. Cada arma pode ser adquirida e aprimorada gastando a moeda do jogo, chamada Flusão Esmeralda, e itens de concentração chamados Milezero, que variam entre as cores verde e vermelha.

Romeo is a Dead Man

Além das armas, as flusões podem ser usadas para movimentar nanobôs no corpo de Romeo em um minigame chamado Dead Gear Cannon Ball. No minigame, navegamos por um labirinto com coletáveis que representam melhorias de atributos, como aumento da força de ataque, mais vida, mais munição, itens de cura extras e maior absorção de sangue para os golpes especiais.

Os golpes de Verão Sangrento são habilidades especiais que Romeo usa para desferir ataques devastadores que, além de causarem dano imenso, curam uma parte de sua vida. Romeo pode desbloquear até três desses ataques que, quando combinados, entregam um combo avassalador capaz de limpar salas inteiras de inimigos em segundos.

Para auxiliar nas lutas mais difíceis, Romeo pode ligar seu rádio em um xote nordestino para plantar Bastardos! Bastardos são zumbis criados a partir de sementes que os inimigos deixam cair. Cada um possui um estilo diferente e pode ajudar Romeo atacando, curando-o ou servindo de isca para distrair os golpes dos oponentes.

Romeo is a Dead Man

Passando o tempo entre as missões

A bordo da nave Última Noite, Romeo poderá interagir com o capitão Kimberley e outros agentes da divisão. Alguns servem mais para distração e alívio cômico, como o agente BlueMountain e seus grãos de café, The Black com seus longos pensamentos e a agente RedBrown, uma gata humanoide que circula pelo convés.

Há, porém, outros personagens fundamentais. O agente Silver Fox pode criar um espaço alternativo para enfrentarmos novamente chefes já derrotados; Shiroyabu, vindo de The 25th Ward, vende itens e ingredientes; e a irmã de Romeo, Luna Stargazer, cuida da plantação de Bastardos e das lutas entre eles, que é a maneira de evoluí-los fazendo os mais fortes devorarem os mais fracos.

Por último, mas não menos importante, está a mãe de Romeo, que ensina diferentes receitas de curry japonês. Cada prato garante atributos distintos ao jogador, dependendo de como fritamos as carnes em um minigame divertido e desafiador, no qual é preciso acertar a temperatura perfeita do óleo de cozinha para garantir um bom rank.

Romeo is a Dead Man

Outro ponto importante do equipamento que pode ser adquirido na loja de Shiroyabu são os broches e botões. Os broches são ganhos após o avanço na história e desbloqueiam habilidades ou ataques inéditos, enquanto os botões funcionam como acessórios que aplicam vantagens e desvantagens estatísticas na maioria das vezes.

Embarcando em diferentes décadas

O Professor Benjamin, avô de Romeo e uma fusão de David Bowie com Supla e Doc Brown, é o responsável pela moto que transporta o protagonista entre as dimensões. Cada mundo representa uma década diferente do século passado, onde Romeo precisará investigar locais conhecidos pelos clichês das obras americanas de cada época.

Phantasm está em um shopping da década de 80, Dr. Hill comanda um manicômio dos anos 90 e Magrus lidera uma colônia cultista dos anos 70. Cada cenário tem seu charme especial e trilhas sonoras exclusivas para os chefes, o que distingue bem a atmosfera de cada período histórico visitado pelo agente Deadman.

Romeo is a Dead Man

Além disso, cada nível possui um mundo alternativo onde Romeo deve solucionar quebra-cabeças para avançar no plano real. Estes submundos podem ser acessados ao conversar com um homem misterioso dentro de uma TV com uma rosa azul no bolso do paletó, uma provável homenagem a David Lynch, uma das grandes influências do Suda 51.

O jogador também pode encontrar as chamadas Fendas de Athenas enquanto navega pelo espaço. Estes calabouços especiais estão repletos de inimigos e itens raros, por isso é importante acessá-los sempre que possível. No entanto, no manicômio do Dr. Hill, esteja preparado para sustos e puzzles bizarros que desafiam a lógica ortodoxa.

Um estilo único

Quem me acompanha no Gamerview há bastante tempo sabe o quanto adoro um jogo com estilo próprio, seja na estética Y2K ou Grime, e mais uma vez o Suda entrega um design de cair o queixo. Os personagens são todos muito únicos, desde os heróis até os vilões, sendo Romeo o mais chamativo com seu elmo e braço inspirados no estilo Super Sentai.

Romeo is a Dead Man

O jogo é visualmente impressionante, mas o fato de rodar na Unreal Engine 5 pode causar alguns engasgos pelo excesso de partículas, embora ainda rode melhor do que outros projetos recentes na mesma engine. A trilha sonora e a sonoplastia também estão em outro patamar, sendo extremamente criativas e eficazes em imergir o jogador naquele caos.

Romeo is a Dead Man é aquilo que chamo de um videogame com cara de videogame. É algo fantástico e repleto dos clichês que esperamos do gênero, funcionando como uma obra que existe dentro de um quadrinho ou filme de ficção científica dos anos 80, e o estúdio tira total proveito dessa escolha visual e de design.

Como sempre digo, os jogos do Suda 51 não são para todos. Não por serem difíceis, mas por serem um gosto adquirido que desafia o mainstream. Se você gosta de No More Heroes, da cultura pop oitentista e de uma mistura de referências culturais de todo o mundo, pode acreditar que irá se divertir horrores com Romeo is a Dead Man.

90 %


Prós:

🔺Excelente casamento entre mecânica de gameplay e narrativa
🔺Direção de arte, som e design de ponta como sempre
🔺Bebe diretamente de jogos anteriores de Suda, mas não exige que os conheça

Contras:

🔻O motor gráfico U.E 5 como sempre pode gargalar
🔻Alguns momentos podem ser confusos para jogadores novos

Ficha Técnica:

Lançamento: 10/02/2026
Desenvolvedora: GRASSHOPPER MANUFACTURE INC.
Distribuidora: GRASSHOPPER MANUFACTURE INC.
Plataformas: PC, PlayStation 5, Xbox Series
Testado no: PC

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